Catedral de Bragança assinala 25 anos com duas novas obras de arte contemporânea | Diocese Bragança-Miranda

“Cruz da Ressurreição” e painel sobre as Obras de Misericórdia passam a integrar a Catedral.

A Catedral de Bragança assinala os seus 25 anos com um vasto programa comemorativo que inclui a visita do Núncio Apostólico em Portugal, e a apresentação de duas novas obras de arte contemporânea, que passam a integrar este espaço de referência da Diocese de Bragança-Miranda: a “Cruz da Ressurreição”, instalada na cripta, e um painel dedicado às Obras de Misericórdia, na Capela da Misericórdia.

Inaugurada a 7 de outubro de 2001, e dedicada a Nossa Senhora Rainha, a Catedral é um marco da arquitetura contemporânea em Portugal e, ao longo destes 25 anos, tornou-se lugar de celebração da fé, de encontro e de comunhão para toda a comunidade brigantina e diocesana. As comemorações deste aniversário constituem, assim, uma oportunidade para celebrar a história e, simultaneamente, acrescentar novos elementos artísticos e pastorais a este espaço que é a “casa mãe” da Diocese.

 

“Cruz da Ressurreição”: uma obra sobre a morte e a Vida

Na cripta da Catedral foi instalada uma obra, intitulada “Cruz da Ressurreição”, com o subtítulo “Ó morte onde está a tua vitória?”.

O texto e conceção são da autoria do Padre José Ribeiro Gomes, diretor da Comissão Diocesana de Arte Sacra e Bens Culturais, tendo a instalação sido realizada por Fernando Selas.

A obra nasce do próprio significado da cripta enquanto espaço destinado à celebração e acompanhamento da passagem da vida presente para a eternidade. Para a fé cristã, esta passagem não é entendida apenas como passagem pela morte, mas como passagem “da morte à Vida”, à luz da morte e ressurreição de Jesus Cristo.

A cruz, símbolo maior da fé cristã, reúne nesta obra duas realidades aparentemente opostas: o sofrimento e a esperança, a morte e a Vida Nova. A Sexta-feira Santa encontra-se com a Páscoa; a dor humana encontra-se com o sacrifício de Cristo e com a esperança da Ressurreição.

A pergunta “Ó morte onde está a tua vitória?”, inspirada em São Paulo, torna-se, deste modo, o grito e a interpelação central da obra. Perante o sofrimento, a destruição e a fragilidade da existência humana, a Cruz da Ressurreição aponta para uma esperança que ultrapassa a própria morte.

A materialidade da obra assume também um significado particular. A madeira utilizada na sua construção veio de Donai, proveniente de uma velha porta, outrora preparada e polida, que ao longo dos anos foi sendo marcada pelo tempo: tornou-se rugosa, gretada, torcida e carcomida.

Essas marcas são assumidas na obra como uma representação da própria condição humana. Tal como a madeira acusa a passagem do tempo, também cada vida é marcada pela experiência, pelo sofrimento, pelas fragilidades e pelas escolhas.

Cada tábua é diferente, tal como cada pessoa é única. As peças procuram erguer-se numa forma sinuosa, marcada pelo desequilíbrio, mas orientada para um caminho. As imperfeições não são escondidas: fazem parte da história e da própria condição humana.

Em contraponto, a madeira nova que aponta para o alto representa a novidade salvífica, a Ressurreição e a Vida Nova em Cristo.

A forma tripartida da cruz constitui ainda uma referência à Trindade e retoma as mesmas medidas estruturais do painel da aula litúrgica existente no piso superior da Catedral, da autoria de Mário Silva.

O conjunto procura, deste modo, estabelecer um diálogo entre diferentes espaços, linguagens artísticas e tempos da própria Catedral.

Sendo a Cripta um espaço de ‘último acompanhamento’ não poderia ser de frieza hospitalar, em que o próprio sentir se esbatesse na neutralidade sem cor. A esperança de uma Vida Nova deve ‘acalentar’ a presença peregrina de cada um. Neste sentido, o fundo da parede, em tom quase ‘dourado’, aquece o sentimento onde a razão não chega, mas que a cruz convida a olhar para o alto onde uma arte intemporal que transporta - a música - marca presença.

 

Um painel dedicado às Obras de Misericórdia

Logo à entrada da Catedral, do lado direito, a Capela da Misericórdia passa a dispor de um novo painel dedicado às Obras de Misericórdia, concebido pela artista plástica Tânia Pires, autora de diversos trabalhos realizados em templos religiosos desta e de outras Dioceses de Portugal.

A obra pretende colocar diante do olhar dos visitantes e da comunidade cristã o compromisso concreto da misericórdia, recordando que a fé se traduz também no cuidado do outro, particularmente dos que vivem situações de fragilidade, sofrimento ou necessidade.

A presença deste painel na Capela da Misericórdia reforça, assim, a dimensão pastoral da Catedral, enquanto espaço onde a celebração da fé se encontra com a caridade e com o serviço ao próximo.

 

Arte e território

A apresentação destas duas obras acontece também num contexto mais amplo de valorização da arte contemporânea no território. Entre outubro e dezembro, Bragança acolhe uma Bienal de Arte Contemporânea que se estende a nove concelhos do distrito, tendo “A Linha da Terra” como conceito agregador.

«Esta linha é tecida na fragilidade existencial de pessoas e lugares onde a certeza dum limite (a morte) não obsta à construção de memória, de identidade e de processos de transformação que moldam as Terras de Trás-os-Montes», salienta o Padre José Ribeiro Gomes.

É precisamente nesta relação entre território, memória, identidade, fragilidade e transformação que a presença destas novas obras na Catedral ganha particular significado.

A Catedral é o centro de uma comunidade diocesana espalhada por diferentes lugares de Trás-os-Montes, comunidades onde o património religioso permanece como testemunho de uma história e de uma identidade construídas ao longo de gerações.

Ao assinalar os seus 25 anos, a Catedral acrescenta agora dois novos marcos artísticos: uma cruz que proclama a Ressurreição e um painel que evoca a Misericórdia.

Deste modo, a arte contemporânea continua a entrar na Catedral não apenas como expressão estética, mas como linguagem capaz de interpelar, acolher e ajudar a contemplar os grandes mistérios da existência humana: a vida, o sofrimento, a morte, a misericórdia e a esperança.

Painel da misericórdia (ainda em execução)