Vigília Pascal - Homilia de D. António Montes Moreira - 16.04.2022 | Diocese Bragança-Miranda

Vigília Pascal – Sábado Santo
A Vigília Pascal é a mais importante de todas as celebrações do Ano Litúrgico. Na sugestiva formulação de Santo Agostinho, é a «mãe de todas as santas vigílias», na qual recordamos a noite santa em que o Senhor ressuscitou.
 
1. Na primeira parte da Vigília – o Lucernário ou Liturga da Luz – benzemos o lume novo e acendemos nele o Círio Pascal, símbolo de Cristo ressuscitado. O Círio tem gravadas a primeira e a última letras do alfabeto grego, Α e ω, a anunciar que a Cristo pertencem o tempo e a eternidade: ontem, hoje e sempre. O Círio foi aclamado como luz de Cristo e trazido para junto do altar onde ficará como sinal da presença de Cristo. Entretanto, o Diácono cantou o jubiloso texto do Precónio Pascal, o pregão que canta a claridade desta noite iluminada pelo fulgor de Cristo na sua ressurreição.
 
2. A segunda parte da Vigília foi a Liturgia da Palavra. Das sete leituras possíveis do Antigo Testamento, todas elas marcando etapas ou momentos altos da História da Salvação, escolhemos três mais significativas.
2.1. A primeira é o belo texto da narrativa sacerdotal da Criação, que serve de pórtico ao primeiro livro da Bíblia, o Génesis. Não é um capitulo dum tratado de ciências naturais. É uma construção literária que, refletindo a cosmogonia do tempo em que foi escrita, tem como objetivo transmitir uma mensagem religiosa bem diferente da mundividência então dominante. Mais importante que a roupagem literária é a mensagem doutrinal do texto: a afirmação do monoteísmo (contraposto à explicação politeista da criação como se os vários seres tivessem sido obra de divindades distintas e até concorrentes) e a afirmação da bondade da criação (rejeitando os mitos da divinização da natureza e também o seu contrário, a diabolização maniqueia como se a criação tivesse sido obra de divindades maléficas ou fosse ela mesma personificação do mal). Neste relato da criação – que foi esquematizado em seis dias para dar relevo à santificação do sétimo, o dia do descanso de Deus – nos cinco primeiros dias a conclusão é: «Deus viu que isto era bom» (Gn 1, 10, 12, 18, 21 e 25). Terminada a criação com o aparecimento do género humano no sexto dia, o estribilho de louvor sobe ao patamar do superlativo: «… era tudo muito bom» (Gn 1,31). A criação é a primeira maravilha de Deus.
2.2. A segunda leitura, redigida em estilo épico, grandiloquente e hiperbólico, narra a libertação do povo hebreu do cativeiro do Egito e a travessia do Mar Vermelho a pé enxuto. Este acontecimento do século XIII antes de Cristo constitui o elemento referencial da Páscoa judaica. Mas a libertação do cativeiro do Egito, como rezámos na oração correspondente, foi símbolo e sinal antecipador do nosso renascimento nas águas do batismo.
2.3. A terceira leitura - tirada do profeta Ezequiel que viveu no cativeiro de Babilónia no século VI antes de Cristo – assinala outra etapa das maravilhas de Deus com um reconfortante apelo à renovação: «Derramarei sobre vós água pura e ficareis limpos de todas as imundícies… Dar-vos-ei um coração novo… Arrancarei do vosso peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne» (Ez 36, 25-26).
2.4. O Antigo Testamento foi anúncio e prefiguração do Novo onde encontrou a sua plenitude. Aqui a grande maravilha de Deus foi a ressurreição de Jesus, apresentada este ano na quinta leitura segundo o evangelho de S. Lucas ( Lc 24, 1-12). A ressurreição de Jesus foi a entrada da sua humanidade glorificada no seio da Santíssima Trindade.
Para celebrarmos condignamente a ressurreição de Cristo, nós devemos viver em estado de ressurreição, como pede S. Paulo na quarta leitura da Vigília: «Considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus em Cristo Jesus» (Rm 6,11). E ainda: «Todos os que fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte» (Rm 6,3).
É uma referência à prática antiga do Batismo por imersão. Imergir na água significa sepultar o pecado, o homem velho, como escreve o Apóstolo na mesma carta (Rm 6,6). Emergindo, o neófito levanta-se da água totalmente renovado pela graça de Deus. O Batismo é deste modo sepultura e renascimento, morte e ressurreição, abandono do pecado e adesão plena ao homem novo, à vida nova em Cristo. Por isso, a Vigília Pascal incorporou também a dimensão batismal.
 
3. Dentro de momentos vamos passar à terceira parte da Vigília Pascal, a Liturgia Batismal, este ano com celebração do Batismo e renovação das promessas batismais.
Apresentam-se ao Batismo três jovens adultos que receberão também os sacramentos da Confirmação e da Eucaristia. Caros Amigos: a comunidade cristã de Bragança acolhe-vos com alegria e reza pela vossa fidelidade e perseverança. A partir de agora a Igreja é a vossa casa e Cristo, a luz da vossa vida.
Em seguida, vamos todos renovar as promessas do nosso próprio Batismo. As perguntas que vos farei são as mesmas do vosso Batismo e vêm já do século III. Tal antiguidade manifesta a continuidade da fé cristã ao longo dos séculos, à qual desejamos todos ser fiéis neste Nordeste Transmontano do século XXI.
Tocamos aqui um ponto sensível da nossa pastoral: a revalorização do Batismo. Há que ultrapassar a tendência a fazer do Batismo um acontecimento social e uma festa de família. Também é isso, mas é isso por ser em primeiro lugar adesão a Jesus Cristo e incorporação na comunidade eclesial.
 
4. Finalmente, seguir-se-á a quarta e última parte da Vigília Pascal: a Liturgia Eucarística, na forma do costume.
Antecipando a bênção final própria desta solenidade, pedimos ao Senhor que, celebrando a Páscoa de 2022, Ele nos conceda a bem-aventurança da Páscoa eterna.
Neste espírito, para todos vós e vossas famílias os meus votos cordiais de Santa Páscoa na alegria de Jesus ressuscitado.
 
Catedral de Bragança, 16 de abril de 2022.
+ D. António Montes Moreira, Bispo Emérito
 
Fotografia: Bruno Luís Rodrigues/SDCS.