Via Sacra e Procissão do Enterro do Senhor - Homilia de D. António Montes Moreira - 15.04.2022 | Diocese Bragança-Miranda

1. A comemoração da morte de Jesus não se esgota nas celebrações litúrgicas. Prolonga-se noutros atos devocionais como a Via Sacra, em manifestações de piedade popular cujo exemplo mais caraterístico é a Procissão que acaba de percorrer as artérias centrais da nossa cidade e ainda em representações artísticas, quer obras primas como a Pietà de Miguel Ãngelo ou a música serena e majestosa de Bach, quer em toscas imagens populares de muitos dos nossos santuários e capelas.

As expressões artísticas da Paixão e Morte de Cristo são casos exemplares de diálogo bem sucedido entre  a fé e a cultura no duplo movimento de inculturação da fé e de evangelização da cultura. A fé incarna-se na cultura, erudita ou popular, e esta serve de apropriado veículo de transmissão da fé.

Esta Procissão não foi apenas ato cultural ou rito tradicional, mas gesto eloquente de piedade cristã. Interpretar, promover ou tomar parte nesta e noutras manifestações semelhantes apenas como acontecimentos culturais seria desvirtuar-lhes o sentido e não entender a sua natureza específica de celebração religiosa.

2. A ressurreição de Jesus não foi um regresso à vida humana anterior. Foi passagem à vida renovada da ressurreição em que a sua humanidade glorificada ficou associada à Santíssima Trindade no seio da qual a pessoa e a natureza divina de Cristo estiveram sempre integradas.

Desta forma, a morte de Jesus desemboca e explica-se pela ressurreição. O ponto alto da Semana Santa não é hoje, mas Domingo de Páscoa.

3. A morte e aressurreição de Jesus são referência e modelo da nossa própria morte e ressurreição. Não sabemos como será. Mas a fé cristã assegura-nos que será. Sobre esta matéria só podemos balbuciar imagens e comparações como S. Paulo.

O Apóstolo compara a nossa morte e ressurreição à semente que é lançada à terra e que tem de morrer para dela surgir uma nova planta. Mais ou menos, também, como a crisálida do bicho da seda que se liberta do seu rastejar inicial para voar transformada em graciosa borboleta. Continuando com S. Paulo, semeia-se um corpo material, corruptível, e ressurge um corpo espiritual.

A seiva unificadora da nossa existência presente e da futura, que transforma aquela nesta, é a semente da vida cristã recebida no batismo e cultivada no amor de Deus e no respeito, serviço e caridade para com o próximo. Uma vez desfeito pela morte o envólucro passageiro da nossa habitação terrestre, esta vida cristã sublima-se na bem-aventurança da ressurreição. Manteremos a nossa identidade pessoal numa forma de vida diferente e superior, à semelhança da crisálida e da borboleta. Uma vida glorificada.

Tal como em Cristo, a ressurreição ilumina e dá sentido à nossa vida e à nossa morte.

4. A concluir, agradeço à Santa Casa da Misericórdia o empenho tradicional na organização desta Procissão e de outros atos religiosos da Semana Santa dentro do espírito que presidiu à sua fundação há quinhentos anos: praticar a caridade cristã e promover o culto divino.

Agradeço igualmente a colaboração da Câmara Municipal na realização da Procissão, bem como a presença do Senhor Presidente da Câmara, de membros da Vereação, das Forças de Segurança, dos Bombeiros Municipais, da Banda de Música e de representantes de outras instituições da cidade.

Para todos vós, que acorrestes à Procissão em número tão elevado e nela participastes em atitude de recolhimento e de fé, para todos vós e para as vossas famílias, os meus votos cordiais de Santa Páscoa.

 

Bragança, 15 de abril de 2022, 21h00

+ D. António Montes Moreira, Bispo Emérito de Bragança-Miranda

 

Fotografia: Bruno Luís Rodrigues/Secretariado diocesano das Comunicações Sociais