PASTORAL DA SAÚDE | Da ontogénese do encontro à Espiritualidade | Diocese Bragança-Miranda

Comunicação do Rev. Pe. Manuel Ribeiro, Pároco da Unidade Pastoral de Santo António e Assistente Espiritual e Religioso da ULSNE - Unidade de Macedo de Cavaleiros, apresentada, hoje, no âmbito da 4.ª edição do Seminário «Novas Abordagens no Cuidar», em Vila Flor.

Da ontogénese do encontro à Espiritualidade

Preâmbulo           

Hoje cabe-nos apelar a todos para o sentido primário e primeiro da existência humana, ou seja, o desafio de ‘descer’ a si mesmo e em si mesmo, de se conhecer, de se reconhecer na sua unicidade e irrepetibilidade, de se encontrar em si na abertura para o Outro, no reconhecimento do Dom em si presente, que em mim me lança para fora de mim, desvelando o Outro para e nos os outros. Não se trata de uma demanda de perfil hedonista, antes, de pura alteridade que responde a um eco interior: um eco implica um voz; uma voz implica uma pessoa que fala; uma pessoa que me ama sem medida; um amor que pede uma resposta igual, equitativa. Há mais de um século, Blondel «alertou as pessoas para as armadilhas daquilo que hoje é chamado a cultura do “sentir-se bem”: se só fizermos o que nos agrada ou o que é vantajoso para nós, provavelmente estamos a evitar um chamamento mais profundo».

O étimo espírito (em grego, ‘pneuma’ ou ‘ruah’, em hebraico), que está na raiz da palavra espiritualidade, o significa sopro; elemento constituinte do indivíduo. Porém, espiritualidade significa vida no espírito, vida segundo o espírito de Jesus, ou seja, assemelhar-se a Ele. Ora isto implica duas circunstancias: união íntima com Ele, assemelhar-se a Ele; e, assumir o testemunho e a Sua missão do anúncio da Salvação e da Misericórdia de Deus. Trilharemos, deste modo, os caminhos da antropologia, com os seus encontros e desencontros, até à espiritualidade que brota do renovado e vital encontro com Deus no coração. Só uma espiritualidade do seguimento é capaz de gerar a fé como Dom.

Teremos, com efeito,  a seguinte metodologia: a) conhecer-me, ‘descer’ em mim mesmo; b) reconhecimento do Tu, de Deus, no intimo de mim mesmo; c) reconhecimento do Tu no tu, um tu que, mais do que um outro igual a mim mesmo, é reflexo e o rosto do Tu, do Outro, de Deus revelado em Jesus Cristo; d) espiritualidade do seguimento na oração.

 

Do problema antropológico à espiritualidade pelos trilhos da Misericórdia Divina

1.

Na viragem do séculos XIX-XX, inicia-se a cimentação da cultura e da concepção antropológica que hoje domina e que é dominante. Tudo começa com Feuerbach e Marx. Estes serão os inspiradores de uma antropologia virada para a elevação do ego, do eu em si mesmo, do eu sem comunidade. Seguem-se mais dois senhores: por um lado, Sartre com o nihilismo e existencialismo absolutos que afirma que a medida da existência passa pela capacidade de conceder a fruição desejada pelo eu, nascendo, assim, a concepção do relativismo e subjectivismo absolutos; por outro lado, Nietzsche surge como aquele que termina e eleva esta antropologia ao estádio que hoje se encontra com o seu conceito de “super-homem” (e para haver ‘super’ tem que haver ‘mínimos’). Esta visão do homem é violente e opressiva, quer a satisfação do seu super-ego seja como for. Num homem assim não há lugar para o outro, para a doação, para a oblação, para a relação, para a oração, para amor. Não se apaixona nem se deixa enamorar. Não reza nem ama. A existência de outro ‘eu’ é medida pela noção de ‘utilidade’: o outro é olhado não como um alguém, mas como um algo, uma coisa (coisificação, hoje tão comum) que existe apenas para a satisfação egoísta e mesquinha do “super-ego”, tornando-se descartável, inútil. É precisamente aqui que reside a validação conceptual e antropológica daqueles que apelam à legalização da eutanásia. Porém, o outro nunca, jamais, poderá ser coisificado. Ele é antes a assunção do Tu, de Deus, imagem e reflexo de Deus.

Este é o desafio: passar desta concepção que aniquila para a libertação na Revelação, ou seja, redescobrir a concepção amorosa da ternura de Deus, desta antropologia que fala do homem que fala-a-Deus e do homem que fala-de-Deus. Este caminho terá que levar, necessariamente, à ‘mistagogia do coração’ – tantas vezes referida por Karl Rahner – e que passará pela abertura e descoberta do eu com um outro Eu que lhe faz (a este eu) re-descobrir e re-conhecer o Tu primeiro e fundante, o Deus revelado, plena e totalmente, em Jesus Cristo, o Messias, o Filho de Deus encarnado, o Logos feito um connosco e para nós.

Assim, compreendemos a lógica de Cristo. Ao contrario da logica ascendente e dominante do sucesso, Jesus ensina-nos a lógica descendente da humildade e do serviço. Deixo para sugestão a leitura do livro “Esvaziamento de Cristo. Movimento descendente e vida espiritual” de Henri Nouwen.

Uma releitura da denominada “parábola do filho pródigo” ou “parábola do pai misericordioso” torna-se necessária e pertinente. É a parábola do filho perdido que se encontra e do pai que sumamente o acolhe; é uma das parábolas da misericórdia presentes no Evangelho segundo São Lucas, mais precisamente no capítulo 15. Comumente apelidada como a “parábola do filho pródigo”, ela fala de forma bela e paradoxal da misericórdia e do amor infinitos de Deus. Há quem afirme, porém, que esta dever-se-ia apelidar de “parábola do pai misericordioso”. Uma e outra vertem, cada uma com no seu enfoque, ou sob a perspectiva do filho ou a perspectiva do pai. Julgo que será tremendamente redutor caracterizar esta parábola sob um dos pontos de vista referidos. Ela tem que ser vista, lida e interpretado no seu todo. Ela é, de modo único e sublime, a expressão do des-encontro, do encontro e do re-encontro: primeiro, do eu na sua máxima dimensão entitativa e pessoal; segundo, do eu que se põe a caminho para o Tu, para a casa do Ser; terceiro, do Tu que se torna nós, que se oferece, que nos exalta, que nos ama antes mesmo de nos abeirarmos d’Ele, que nos abraça como no primeiro instante de deslumbramento e de fascínio, que nos acolhe sem medida, que nos cumula de beijos, elevando-nos de míseros seres para senhores como o Senhor, abraçando-nos como se abraçasse, embalasse e cantasse no nosso primeiro dia de vida, como bebés ao colo do pai-mãe, onde o silêncio se torna comunicação e sorriso resposta de amor.

Apesar de não ter qualquer pretensão em fazer uma exegese exaustiva ao texto de Lc 15, não posso, todavia, deixar de expressar aquilo que o Espírito me suscita nesta idílica parábola do encontro e da misericórdia. O filho mais novo quis deixar a casa do pai. Quis fazer o seu caminho. Quis-se afastar do pai. Segue, como muitos de nós, a miragem de uma felicidade ilusória e falsa: é-nos vendido sonhos vãos que culminam, inevitavelmente, em frustração pela sua impossível realização e concretização. E o pior é que nos é cobrado juros, e tantas vezes altíssimos, dos sonhos e ilusões vendidos destes pseudo-profetas da felicidade. Como cogumelos, estes vendedores crescem, florescem, nas nossas cidades, vendendo sonhos, esperanças e promessas de sucesso, fama e realização, a um preço inaceitável e com juros que está para lá do incomportável. É aqui, neste contexto, que mais sentido faz falar e viver a misericórdia de Deus. Deus não nos vende, não nos engana: ele é pura doação, pura oblação, total amor. Nada há que lhe possamos dar ou ofertar. Ele é o senhor de tudo e todos. Nada acrescenta ou diminui à sua essência. No entanto, como pai-mãe supra-bondoso e supra-benigno deseja ardentemente que os seus (filhos e filhas) regressem para seu regaço, para o seu colo, para o seu peito de ternura e benevolência.

No desespero, no abandono, na solidão, no des-encontro, o filho toma consciência, reconhece o quão afastado está daquele que sempre o amou e o cuidou sem reservas, sem ‘ses’ nem ‘mas’. É nesta dificílima tarefa de reconhecimento do erro, do pecado, do afastamento, do des-encontro, que o filho inicia o caminho para casa. Transversalmente, se um crente não está a experimentar um processo de erosão do ego e de serviço aos outros, então a sua mudança não é genuína. A este propósito, Blondel considerava que «a fome de Deus – como Salvador – nasce quando eu admito a derrota, a minha história deixa de ser solilóquio». Por isso, é um convite feito a todos e a cada um de nós. Todos somos convidados à difícil tarefa do encontro connosco próprios, com a voz da consciência, com a voz do Espírito que no impele como fogo, como chamas ardentes para o encontro com e do caminho para a casa do Pai.

Facto ainda mais interessante é, no caminho que do filho para a casa do pai, a presença das três virtudes teologais, a saber: fé, esperança e caridade. Passo a explicar. No momento em que decide, livremente, dirigir-se, pôr-se a caminho para a casa do pai, este filho começa a pautar a sua existência na esperança do perdão, na fé de ser recebido e no amor de ser acolhido, pelo menos, numa primeira fase, na casa dos serventes do seu pai, ele que fora sempre conforto na desilusão, amparo na frustração, consolo na dor. O pai é o seu tudo, aquele que sempre o amou incondicionalmente.

 

2.

Para o espanto de todos nós, o pai acolhe o filho de forma paradoxal. O texto bíblico enumera o modo ascendente do encontro e do re-encontro: “estava longe”, “avista-o”, “teve compaixão”, “corre ao seu encontro”, “abraça-o”, “cobriu-o de beijos”. Para o pai basta atitude, a vontade e o querer de regressar, de voltar para ele. “Estava longe” significa que está fora da órbita do amor do pai, que está fechado no seu eu e rodeado de objectos, de seres inanimados (sem alma, logo sem diálogo, sem existência própria, sem partilha, sem amor). Há que des-construir a nossa existência de posse, de domínio, de interesse, de auto-expansão, de auto-realização, de auto-satisfação. Por outras palavras, é aquilo que Lévinas denomina de “egoísmo alérgico” e que são, no fundo, os nossos egoísmos em guerra contra o outro, contra os outros, contra todos. Abraham Joshua Heschel, filósofo hebreu, resume, na perfeição, isto mesmo: «talvez seja aqui o núcleo da miséria humana: quando nos esquecemos de que a vida é um dom e também um empréstimo».

A Deus, tal como este pai da parábola, basta que entremos no caminho do encontro, e Ele virá a correr, bem de longe, a cobrir-nos de beijos, a ter compaixão por nós.

Ter compaixão não é ter pena: infelizmente, tantas vezes associam este étimo a este significado. Antes, é ter paixão com, ter amor por, é ter o ardor do apaixonado que tudo vence, que coloca o tu como o primeiríssimo dos primeiríssimos, que se entrega, como oblação e doação, total e incondicionalmente, a este tu que se aproxima, bem longe, fatigado, só, e que é acolhido como seu, recebido como seu, re-encontrado.

 

Ex 3, 4-5

«O Senhor viu que ele se aproximava para observar. E então, do meio da sarça Deus o chamou: "Moisés, Moisés!"
"Eis-me aqui", respondeu ele. Ele disse: “Não te aproximes daqui; tira as tuas sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é um terreno sagrado».

Estar longe e aproximar-se da sarça significa que Moisés, e nós também, estava fora da órbita do amor do pai, que está fechado no seu eu e rodeado de objectos, de seres inanimados (sem alma, logo sem diálogo, sem existência própria, sem partilha, sem amor). Há que des-construir a nossa existência de posse, de domínio, de interesse, de auto-expansão, de auto-realização, de auto-satisfação. Por outras palavras, é aquilo que Lévinas denomina de “egoísmo alérgico” e que são, no fundo, os nossos egoísmos em guerra contra o outro, contra os outros, contra todos. Abraham Joshua Heschel, filósofo hebreu, resume, na perfeição, isto mesmo: «talvez seja aqui o núcleo da miséria humana: quando nos esquecemos de que a vida é um dom e também um empréstimo».

É o “eis-me aqui”: o “eis-me aqui” não tem a pretensão de ter o gesto retribuído. É a caridade na sua responsabilidade infinita: um dar-se ao outro de forma incontestável. É, como afirma Lévinas, “des-interessado em que o eu se desfaz no seu ser”. Este é o amor ao próximo, amor sem concupiscência, pura gratuidade e sem vaidade. É ser um-para-o-outro, não como unificação ontológica, mas acolhimento de o eu que se me confia e é confiado. E tão belamente do Pai o faz! O amor, particularmente o amor de Deus, é a assunção do destino do tu que se lhe confia e se dá. O Papa Francisco resume belamente: «O amor é o primeiro ato com que Deus Se deu a conhecer e vem ao nosso encontro. Por isso mantenhamos o coração aberto à confiança de ser amados por Deus. O seu amor sempre nos precede, acompanha e permanece connosco, não obstante o nosso pecado». E ainda: «A misericórdia renova e redime, porque é o encontro de dois corações: o de Deus que vem ao encontro do coração do homem . Este inflama-se e o primeiro cura-o: o coração de pedra fica transformado em coração de carne (cf. Ez 36, 26), capaz de amar, não obstante o seu pecado. Nisto se nota que somos verdadeiramente uma «nova criação» (Gal 6, 15): sou amado, logo existo; estou perdoado, por conseguinte renasço para uma vida nova; fui «misericordiado» e, consequentemente, feito instrumento da misericórdia».

 

3.

O caminho para auto-revelação e para auto-desvelação terá que passar, necessariamente, pelo trilho de descoberta e desvelação de um amor sem fim, de um amor exigente, inquietante e, de alguma maneira, perturbante. Deus desinstala-nos, suscita-nos para a rejeição de mim, abrindo-nos ao outro, a fim de Deus imperar num coração indiviso. O coração «é o lugar onde Deus arma a sua tenda no mais profundo de nós próprios. Aqui, neste espaço, começa o nosso mapa para a fé, pois aí é onde o nosso espírito pode florescer em espanto perante o mistério de nós próprios: “Eu te celebro por tanto prodígio, e me maravilho com as tuas maravilhas” (Sl 138). Quando tiramos tempo para escutar os nossos corações, na surpresa do silêncio, achamo-nos a encontrar mais do que o mistério da nossa pequena vida». Segui-Lo, e, no fundo, ser santo, é seguir a lógica do paradoxo: dar-se totalmente sem esperar receber; entregar-se incondicionalmente; viver servindo. É preciso que a semente morra para que germine e dê fruto: é preciso que caiamos, nos ergamos com o Senhor e caminhemos como o Senhor na Paixão ao encontro da toda doação, da toda entrega, da toda graça, da toda misericórdia. É esta a exigência de Deus: que sejamos d’Ele sem reservas, por inteiro, todo n’Ele. Exigência que brota do amor. Não imposta, mas proposta em amor, com amor e por amor. E quando assim é a «a oração não consiste em falar com Deus, mas escutar e estar com Deus (…). Onde há humildade há beleza e verdade, porque há abertura de coração e da inteligência ao amor».

No re-encontro o pai não julga, não questiona. Nada diz. Apenas e só o abraça e o acolhe no seu regaço, cumulando-o de beijos. Desconcertante e paradoxal forma de agir deste pai, de Deus! Não se lamenta, não o inquire, não o questiona sobre o passado, nada lhe imputa. Apenas o acolhe como o acolheu no seu primeiro dia de vida: amparo-o, embalo-o, cuida-o, sara-lhe as feridas, alimenta-o, ama-o. Esta é o itinerário de todos e de cada um de nós. Sapientemente, o Santo Padre o resume na perfeição: «O perdão é uma força que ressuscita para a nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança». E a verdade é que o amor não fez, não faz nem fará mal a ninguém: só ele preenche o vazio do sentido e da existência.

Há que sentir e sentir-se agraciado pelo dom da misericórdia. E “mostrar-se reconhecido” implica aceitar a graça primeira e fundante, e dar graças, bendizendo sem fim o dom oferecido e ofertante do amor de Deus. Deus é o sujeito amante na relação com o homem. Ele ama qualquer coisa, qualquer coisa diferente de si, pois amar é sempre tendência a possuir qualquer coisa que se não tem.

Interessante o facto dos Padres da Igreja, sobretudo os Apologetas, apresentarem Adão (e Eva) como criança, imatura, e a árvore da ciência como algo não nefasto, de mal, pois a ciência e o conhecimento, per se, são bons. É em razão da sua pueridade que Deus ordena que não comam o fruto, não porque não lhes quer dar o conhecimento, mas porque, como crianças que são, ainda não conseguem absorver, experienciar e viver em pleno o conhecimento recebido pelo mesmo. Tal como um bebé precisa e necessita passar pelo crivo da existência e por todas as fazes da vida até atingir a maturidade, a vida adulta, assim também Adão e Eva o teriam que fazer. Porém, não respeitam o tempo de Deus: ao não respeitar os tempos de Deus e a maturidade por Ele exigida, desobedecem, infligindo neles, e nos seus sucessores, o desejo, por vezes ardente, pelo desvio, pelo pecado, criando o fascínio de querer ser deus e viver sem Ele. Pior, Ele apresenta-se como adversário para os meus mesquinhos intentos e egoístas desejos, alguém que é obstáculo, impeditivo da minha auto-afirmação e auto-domínio sobre quem e o que me rodeia. Faz de mim maleável, presumível, inanimado (sem anima, sem alma, sem vida), abandonado, e, pior de tudo, só. «Onde há o orgulho há um sentido de superioridade e desprezo dos outros». Não existe nada mais triste do que viver sem nunca amar e sem nunca ter amado! Como criaturas somos interpelados sem cessar para nos aproximarmos deste amor primeiro, único e completo. É inato a todo o ser a busca pelo amor original e originante. Só Deus na sua magnificência sacia o eu que busca incessantemente pelo sentido da vida, que não se encontra, mas antes é dado como dom. É este dom que se nos apresenta, que se coloca em frente de nós antes mesmo de o buscarmos, que se oferece na sua magna benevolência, para que O encontrando, O levemos a todos.

                

4.

É este acto de amor, de encontro e de entrega, em que Ele se inclina para erguer o seu amado, para lavar os seus pés, ungindo-o com o seu majestoso óleo da consolação, que o alimenta com o maná e o sacia com o Verbum, o guia como no caminho de Emaús, que o cuida e sara as suas feridas da desobediência como o bom samaritano, que lhe limpa o rosto como Verónica e que o ensina andar na e pela Ressurreição.

«O acolhimento misericordioso aponta claramente para uma atitude e abertura a todo tipo de pessoas (diferentes extractos sociais, diferentes ligações à religião, diferentes participações na cultura, diferentes géneros, etc), revelam uma total indisponibilidade (não há quaisquer limites: de tempo, de lugares, etc), revelam também um interesse imenso pelo interlocutor (escutando-o, pondo ao seu nível) e, finalmente, mostram sempre um acolhimento misericordioso e compreensivo («não te condeno…») mas que não se coíbe de lançar desafios de conversão, abrindo autênticos, novos e importantes horizontes de vida («tens de nascer de novo», «vai e não voltes a pecar»…)».  

A oração surge, deste modo, como o motor e a medida para uma eficiente mudança paradigmática neste campo das relações humanas. É interessante assinalar que Sequeri defende, por um lado, que a real descoberta da nossa identidade passa através de uma abordagem contemplativa à Fé de, em e com Jesus, e que, por outro, «o mistério da própria identidade de Cristo é melhor discernido neste espaço de oração-confiança com o Pai. […] O nosso caminho para a plenitude da fé cristã implica reconhecer a nova visão nascida da experiência Abba-Pai: um sentido de Deus como falando para, e realizando, toda a nossa afetividade. Entrando através da graça neste espaço de relação que é a oração de Cristo, chegamos a perceber quem é Deus e, com isso, quem também nós podemos ser. Aqui, todo o nosso anseio de verdade e de justiça une-se num novo fundamento». Faz-se, assim, seguimento. A espiritualidade do seguimento gera a fé como Dom. O outro já não é só um igual a mim, antes é o reflexo do rosto de Jesus sofredor, que espelha a eleição e predileção que Deus tem por cada ser humano. Uma confiança e uma certeza efetiva – este amor visceral de Deus que quer tocar o coração de cada um –  que brota na intimidade da oração. Deus pede-nos – sempre na oração íntima, amante e confiante – a nossa colaboração, isto é, gera corresponsabilidade, pede que sejamos testemunhas anunciantes da ternura de Deus. Deus revela-nos que somos (todos) valiosos.

O sentido da oração nunca há-de ter e ser uma atitude centrada num ego-eu egoísta e promotor de si mesmo, que aniquila e explora o outro em proveito de si e dos seus mais mesquinhos desejos e intentos. Antes, terá que ter e ser uma atitude abnegada do eu, de mim próprio, caminhante ao encontro do tu e do Tu, que me escolhe e me acolhe muito antes de eu o fazer, que me ama num amor primeiro e fundante. Com efeito, rezar é ser transformado, não noutro ente e ser, mas ser re-formado no re-encontro com Deus, pela humildade e oração, na dinâmica da Suma Misericórdia: «é como uma aventura humana de apaixonar, ou estar apaixonado; dizer ‘sim’ envolve um certo risco; é uma decisão de confiar qua vai para além das evidências externas».            

 

Epílogo 

Urge elevar o sentido do eu para o outro e para o Tu vivificante e fundante, que acolhe sem medida, que re-forma pelo amor, que promove e estimula o re-encontro pela misericórdia, que lança para o outro que, depois de estar repleto do amor divino, grita-lhe no silêncio por este amor, pela abertura ao mistério, na doação integral e na partilha existencial de uma vida pautada pelo amor misericordioso do Tu, que tudo abarca e a todos ama sem medida, hoje e por toda a eternidade. É acolher a graça e viver na graça. Temos que ultrapassar a nossa tentação enraizada para a desconfiança e para hostilidade, «onde o nosso constante oscilar entre confiança e desconfiança implica uma batalha entre abertura e fechamento à graça». Esta realidade de «Deus-como-amor não é alcançada como facto verificado, mas apenas como um encontro de confiança».

O reconhecimento do Ressuscitado e a aceitação de São Tomé na expressão «meu Senhor e meu Deus», e toda a trama envolvente, faz deste momento o núcleo vital da fé, uma vez que reflete o reconhecer de que Deus nos reconhece e que vem ao nosso encontro na pessoa do Ressuscitado. Aqui é sempre Jesus, o Ressuscitado, que toma a iniciativa de Se mostrar, «chamando afetivamente os seus amigos para um reconhecimento transformador da realidade». É ser acolhimento! Acolher é ser exigente e, simultaneamente, despertar no acolhimento o acto criador das soluções, o que exige uma condição essencial para a eficácia do acolhimento: a empatia. Ter e criar empatia é fundamental para a real concretização do acolhimento misericordioso de Deus. Daí que J. Sobrino afirme que o acolhimento segue o princípio-misericórdia. «Pede-se a passagem de uma pastoral de manutenção e pura resposta de pedidos para uma pastoral de proposta onde, com simplicidade mas muita clareza, se convide quem nos procura a uma caminhada de tipo catecumenal ou, por outras palavras, de re-iniciação cristã em nova evangelização». No fundo, trata-se de uma proposta de carácter mistagógico: aquilo que Rahner descreveu como “catecismo do coração”, pois para Rahner «tudo o que fizermos é uma experiência de um sim ou uma resposta ao amor; é aqui, neste campo de batalha do coração, que o Espírito nos atrai para a fé e para o perder do nosso pequeno ego na vastidão de Deus». Por isso somos, todos sem excepção de ninguém, vocacionados e destinados à santidade, às maravilhas de Deus, a viver como Ele viveu, a ser santos como Ele deseja. Ser santo é ser mais e melhor «imagem e semelhança» de Deus. Assim, «o essencial é receber a graça e reconhecer na vida que tudo é graça. Não se trata tanto de fazer alguma coisa mas de hospedar o dom, ou melhor, de hospedar o Doador no coração e na relação da comunidade humana». Aceitemos a proposta de Santo Agostinho: «Toda a tarefa nesta vida consiste em curar os olhos do nosso coração para que possam ser capazes de ver a Deus». Acrescento, terminando, capazes de ver Deus nos outros, nos irmãos.

 

Dia de São Calisto I, Seminário “Novas abordagens no cuidar”, Santa Casa Misericórdia de Vila Flor.

Manuel Ribeiro, Padre.

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GALLAGHER, Michael Paul – Mapa de Fé. Dez exploradores religiosos, de Newman a Joseph Ratzinger, Ed. Frente e Verso, Braga, 2015, p. 45.

Ibidem, p. 56.

Deus é, por conseguinte, «uma transcendência fontal e uma presença alterificante (…). Só procurando ser profundo se conseguirá chegar ao fundo. Hoje em dia, corre-se o risco de estar na “órbita de quase tudo” e no “fundo de quase nada”. Não faltará quem se ressinta deste distanciamento de fundo, propendendo – quase põe instinto – para uma certa pimbalização pastoral, tecida de alguma anemia espiritual e de muita anestesia social. Quando não se vai ao fundo, é muito difícil atingir o centro. É no fundo da realidade que se aprende a “prioridade da espiritualidade” e se aprende a “urgência da solidariedade”» (TEIXEIRA, João. In: Revista Portuguesa de Filosofia, Braga, tomo 69, fasc. 1, 2013, pp. 137, 140-141).

Op.Cit. In: COUTO, António – Da posse e do furto ao dom e  ao afecto e ao furto, Didaskalia, Lisboa, vol. XLII, fasc. 1, 2012, p. 27.

Deus é, por conseguinte, «uma transcendência fontal e uma presença alterificante (…). Só procurando ser profundo se conseguirá chegar ao fundo. Hoje em dia, corre-se o risco de estar na “órbita de quase tudo” e no “fundo de quase nada”. Não faltará quem se ressinta deste distanciamento de fundo, propendendo – quase põe instinto – para uma certa pimbalização pastoral, tecida de alguma anemia espiritual e de muita anestesia social. Quando não se vai ao fundo, é muito difícil atingir o centro. É no fundo da realidade que se aprende a “prioridade da espiritualidade” e se aprende a “urgência da solidariedade”» (TEIXEIRA, João. In: Revista Portuguesa de Filosofia, Braga, tomo 69, fasc. 1, 2013, pp. 137, 140-141).

Op.Cit. In: COUTO, António – Da posse e do furto ao dom e  ao afecto e ao furto, Didaskalia, Lisboa, vol. XLII, fasc. 1, 2012, p. 27.

«A identidade do bebé começa a desenhar-se pela voz da mãe que lhe canta uma canção de embalar. E, assim, tocada pelo afecto, vai reconhecendo que é chamada, começando a responder “eis-me aqui”, primeiro pelo sorriso e depois pela palavra (…). A palavra do outro introduz à grandeza da relação, como arte de escuta e de resposta, implicando a elaboração, criativa e dramática, de muitos motivos e de muitas vozes, vindos de dentro e de fora e dado voz, talvez, a outra Voz-ressoando-afectivamente-e-convocando-a-liberdade-em-tantas-vozes» (CORREIA, José Frazão – A liberdade entre a ferida que afecta e o afecto que a move, Didaskalia, Lisboa, vol. XLII, fasc. 1, 2012, p. 140).

«A sua mensagem tem um alcance público, não é apenas uma missão dos sentidos, não é somente uma proposta de amor intimista ou interior. Esta é uma leitura que transposta para o Jesus dos Evangelhos o romantismo da actual cultura consumista da satisfação imediata, que fala muito em paz e amor, mas que é muito violenta e pouco pacífica, pois busca a todo o custo a satisfação do self (o que por vezes origina violência, tal é a sofreguidão para o fazer)» (CARVALHO, José Carlos – O Jesus da história entre a lei e o amor, Didaskalia, Lisboa, vol. XLI, fasc. 1, 2011, p. 238).

FRANCISCO, Papa – Carta Apostólica Misericordia et Misera, 6.

Ibidem, 16

GALLAGHER, Michael Paul – Mapa de Fé. Dez exploradores religiosos, de Newman a Joseph Ratzinger, Ed. Frente e Verso, Braga, 2015, p. 75.

CORDEIRO, José Manuel – Peregrinos na Santidade. Carta Pastoral, Bragança, Diocese Bragança-Miranda, 2015, p. 8.

Papa Francisco – Bula Misericordiae Vultus, 10.

«Deus não abandona esta humanidade invejosa e pecadora, não espera por ela à porta da sua eternidade, mas vem ao seu encontro tal como ela é, respeitando-a e assumindo a imagem falsa que esta humanidade mentirosa e invejosa fez de Deus, desde Gn 3 a Gn 11, não por ser cúmplice com ela, mas para a transformar desde dentro. Longa viagem. Condescendência de Deus, Misericórdia de Deus, Pedagogia de Deus, Homeopatia de Deus» (COUTO, António – Da posse e do furto ao dom e ao afecto e ao furto, Didaskalia, Lisboa, vol. XLII, fasc. 1, 2012, p. 52).

CORDEIRO, José Manuel – Peregrinos na Santidade. Carta Pastoral, Bragança, Diocese Bragança-Miranda, 2015, p. 8.

João Paulo II, Dives in misericordia, 3.

GALLAGHER, Michael Paul – Mapa de Fé. Dez exploradores religiosos, de Newman a Joseph Ratzinger, Ed. Frente e Verso, Braga, 2015, p. 186.

Ibidem, p. 34.

Ibidem, p. 184.

Ibidem, p. 189.

Acolhimento não é: mera amabilidade, tão pouco será paternalismo, superar tendência em ‘solucionar’ problemas, não é aprovação (não se trata de legitimar, compreender ou desculpabilizar gratuitamente o que quer que seja), não é inquisição-investigação (não é inquirir, seja com o espírito de emitir um juízo, seja por mera curiosidade), e não é generalização-intelectualização (não é generalizar ou comparar, pois cada pessoa é única e irrepetível). Cf. NUNES, José – O Acolhimento Pastoral – perspectivas teológicas e antropológicas, Didaskalia, Lisboa, vol. XXXVII, fasc. 1, 2007, pp. 299-307.

Tal princípio poderia traduzir-se, então nos seguintes elementos: «em primeiro lugar, dá-se uma interiorização do sofrimento alheio, deixo que penetre nas minhas entranhas (…). Num segundo momento, esse sofrimento interiorizado (…) converte-se em ponto de partida de um comportamento activo e comprometido. Por último, essa reacção vai-se concretizando (…) para irradiação desse sofrimento, ou pelo menos, para o aliviar» (SOBRINO, J – El principio-misericordia. Bajar de la Luz a los pueblos crucificados, Santander, Sal Terrae, 1992, pp. 31-45. Op. Cit. NUNES, José – O Acolhimento Pastoral – perspectivas teológicas e antropológicas, Didaskalia, Lisboa, vol. XXXVII, fasc. 1, 2007, p. 306).

NUNES, José – O Acolhimento Pastoral – perspectivas teológicas e antropológicas, Didaskalia, Lisboa, vol. XXXVII, fasc. 1, 2007, p. 307.

GALLAGHER, Michael Paul – Mapa de Fé. Dez exploradores religiosos, de Newman a Joseph Ratzinger, Ed. Frente e Verso, Braga, 2015, p. 67.

«Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação» (1 Tes 4, 3).

Gn 1, 26.

CORDEIRO, José Manuel – Peregrinos na Santidade. Carta Pastoral, Bragança, Diocese Bragança-Miranda, 2015, p. 12.