Missão dos Universitários de Comunhão e Libertação em Torre de Moncorvo | Diocese Bragança-Miranda

No passado dia 13 fevereiro de 2026, a vila de Torre de Moncorvo foi palco de uma missão marcante protagonizada pelos universitários do movimento Comunhão e Libertação (CLU). Sob o lema “Dom de si, lei da vida”, o evento contou com a presença do antigo selecionador nacional Fernando Santos, cujo relato de vida e fé impactou a comunidade local.

A educação cresce pelo testemunho

Para o Pe. Sérgio Pera, a educação não se limita à transmissão de conceitos abstratos, mas cresce pelo testemunho de pessoas que marcam e definem o nosso carácter. No contexto cristão, esta premissa ganha uma dimensão profunda: o cristianismo não é uma doutrina, mas um acontecimento – o encontro com uma “Presença viva” que transforma a realidade. Esta transformação, comunica-se por “contágio”, através do contacto de vidas que foram tocadas por Cristo. Neste contexto, os jovens foram desafiados a estar diante do testemunho de um homem que se deixou transformar por Cristo, cujo encontro gerou uma nova consciência de si e da realidade.

 

Fernando Santos: do ceticismo ao reencontro

Convidado para partilhar a sua experiência, Fernando Santos revelou um percurso marcado por momentos de afastamento e redescoberta. Ele contou; “Quando andava na catequese não entendia nada da fé”. Contou o episódio que o levou a deixar a catequese: “Um dia estava na catequese e o catequista quis fazer um teatro em que eu fazia de juiz e tinha de bater com o martelo. Mas eu quando batia com o martelo dava-me muita vontade de rir e o Paulo (catequista) disse-me que não me podia rir. E propus mudar de posição. Mas ele não aceitou. E eu decidi se não mudo de posição vou-me embora e não voltei mais... Voltei em batizados e casamentos. Mas na altura já estava mais dedicado ao futebol”.

Com os pais visitava pelo menos uma vez por ano o Santuário de Fátima.

Disse também que na adolescência quando o questionavam sobre a fé e lhe diziam que Deus estava em todo o lado, ele sempre perguntava se também estava no quintal da avó? Respondiam que sim e ele dizia, mas a minha avó não tem quintal.

Apesar deste afastamento afirmou: “Mas a verdade é que quando saí da catequese, sempre rezei e ainda hoje rezo as orações que aprendi quando andava na catequese; “O Anjo da Guarda”.

O antigo selecionador nacional destacou que a sua reaproximação à Igreja ocorreu quando foi o crisma da filha. “Todos os pais iam participar e eu também fui. Mas eu fiquei muito inquietado porque não percebia nada. Acontece que quando fui à inauguração da clínica dum amigo meu, estava lá um sacerdote que me pediu boleia para Cascais e fui deixá-lo à Igreja da ressurreição; na despedida disse-lhe que queria conversar com ele sobre a fé e o pecado: depois marcamos um almoço e ele ofereceu-me um livro que era a «A fé explicada». Quando li o livro ajudou-me muito, principalmente, na questão do pecado que na altura me fazia muita confusão. Na altura tinha muita a ideia que Deus era castigador. O livro trouxe-me qualquer coisa importante a tal ponto que começamos a ir à missa, eu e a minha mulher. A determinada altura via todos as pessoas a irem comungar e eu não ia. Então fui falar com o padre e disse que queria falar com ele, mas não me queria confessar. Porque isto de me confessar a um padre não dá jeito... Conversamos duas horas e acabei por me confessar..., mas ainda faltava muita coisa”.

Quando Fernando Santos foi despedido do Estoril foi fazer um “Cursilho de Cristandade”; este acontecimento transformou a sua vida. Assim explicou: “De repente estava ali no autocarro sem saber porquê! Mas fui. Quando começaram as palestras convidaram a fazer silêncio o que para mim foi bastante difícil... queria era ler o jornal. Tinham também sugerido para nessa noite fazermos uma revisão de vida e colocar os pontos positivos numa folha... e do outro lado, os aspetos negativos; achava que não tinha aspetos negativos; mas mesmo assim, comecei a escrever um por um e a dada altura tinha mais pontos negativos do que imaginava... No dia seguinte, alguém me disse tu és Cristo e falaram-me na Ressurreição de Cristo. Foi nessa altura que percebi que Cristo está vivo... o Cristo ressuscitado está vivo. Como diz S. Paulo: «se Cristo não ressuscitou é vã a nossa fé». E essa certeza mudou radicalmente a minha vida”.

 

Perguntas dos alunos

Um aluno questionou o treinador sobre o papel que a fé em Deus teve na sua vida, particularmente, na conquista do Euro 2016 e na decisão de fazer entrar o Éder (autor do golo decisivo) na final com a França.

O antigo selecionador respondeu: “Se Deus interviesse assim, o Vaticano era sempre campeão. Púnhamos os padres a jogar, o Papa era o treinador e eram sempre campeões. Deus não se preocupa com essas coisas. Foi claramente uma questão tática. Pareceu-me importante termos alguém na frente com a capacidade de segurar a bola e permitir à equipa respirar.

Deus ajudou-me muito, mas foi ao nível emocional. Deu-me calma, tranquilidade, não me deixou nunca ir abaixo. Quando nos criticavam por só empatarmos foi muito importante porque me deu a tranquilidade necessária.

Lembro-me que nesse dia fui à missa de manhã e, no Evangelho, escutei uma frase que dizia: «sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas». Pensei que estava ali a chave do jogo e, antes do jogo, coloquei no quadro esta frase e disse aos meus jogadores que esta era a chave do jogo. Se assumimos isto podemos ser campeões. E Deus ajudou-me a passar a mensagem que eu queria passar”.

Fernando Santos recordou, ainda, uma decisão que o marcou enquanto treinador do Sporting, que foi colocar Cristiano Ronaldo em campo contra o Manchester United no jogo de inauguração do Estádio José Alvalade, em Lisboa. “Infelizmente para mim pu-lo a jogar na inauguração do estádio e ele foi embora. Lembro-me de lhe dizer que com a capacidade e determinação que tinha iria ser o melhor do mundo. Para mim foi um orgulho enorme, passados uns anos, ele ser o melhor do Mundo”.

Após uma pergunta dum aluno respondeu: “Deus deu-nos talentos e temos de os fazer render. Se Deus te deu um talento deves pô-lo a render”.

 

O Frederico Meira pediu-lhe para ler a carta a Deus que escreveu antes de ser campeão europeu:

Em primeiro lugar e acima de tudo, quero agradecer a Deus Pai por este momento e tudo aquilo da minha vida.

Deixar uma palavra especial ao presidente, dr. Fernando Gomes, pela confiança que sempre depositou em mim. Não esqueço que comecei com um castigo de oito jogos pendentes.

A toda a direção e a todos os que viveram comigo estes meses. Aos jogadores, dizer mais uma vez que tenho um enorme orgulho em ter sido o seu treinador. A estes e aqueles que aqui não puderam estar presentes. Também é deles esta vitória.

O meu desejo pessoal é ir para casa. Poder dar um beijo do tamanho do mundo à minha mãe, à minha mulher, aos meus filhos, ao meu neto, ao meu genro e à minha nora e ao meu pai, que junto de Deus está certamente a celebrar.

A todos os amigos, muitos deles meus irmãos, um abraço muito apertado pelo apoio, mas principalmente pela amizade. Por último, mas em primeiro, ir falar com o meu maior amigo e sua mãe.

Dedicar-Lhe esta conquista e agradecer-Lhe por ter sido convocado e por me conceder o dom da sabedoria, perseverança e humildade para guiar esta equipa e Ele a ter iluminado e guiado.

Espero e desejo que seja para glória do Seu nome”.

 

A Música e a Beleza como Instrumentos Educativos

 

A missão em Torre de Moncorvo teve também uma “Tarde de Cantos” no domingo. O pe. Sérgio Pera, partindo do pensamento de Giussani que afirmava que “a música e o canto são um dos instrumentos educativos, devido à sua capacidade de recordar a relação do homem com o seu destino e com a realidade.

Ele afirmou que “a música tem uma capacidade singular de tocar aquilo que, muitas vezes, as palavras não conseguem exprimir. Ao escutá-la, o coração humano desperta para uma memória profunda: a memória do sentido, da beleza e da esperança que habitam a existência. De facto, a música e o canto, possuem uma força educativa única, porque reavivam a relação do ser humano com o seu destino e com a realidade”.

O Comunhão e Libertação (CL) é um movimento da Igreja Católica que propõe viver a fé cristã como uma experiência concreta e presente na vida quotidiana. Foi fundado em Itália, na década de 1950, por Luigi Giussani, sacerdote e educador, inicialmente entre estudantes do ensino secundário e universitário.

 

Pe. Sérgio Pera