«A lição do postigo» | Opinião do Pe. Manuel Ribeiro | Diocese Bragança-Miranda

Talvez poucos de nós estarão habituados ao papel ou ao significado dos postigos. Estes integram as portas de todas as (nossas) antigas habitações. Felizmente, ainda podemos ver esta modalidade em muitas das antigas casas ou em casas que se encontrem em ruínas. Nelas – as portas – encontramos duas aberturas: a parte de cima da porta com o postigo (isto é, um abertura e forma de janela) e a porta propriamente dita. A abertura do postigo apenas deixa revelar a parte superior do peito e rosto, deixando ao critério do dono da casa a abertura da porta àquele a quem autenticamente confia. Por isso, abrir a porta a alguém é, simbolicamente, abrir a porta do nosso coração a alguém. Porém, a abertura implica um critério fundamental: a confiança mútua.

Mas porquê a importância do postigo para a reflexão de hoje? Gostava que nos deixássemos embrenhar na Palavra de Deus, em particular no trecho do Livro do Êxodo, capítulo três, versículo cinco: «Não te aproximes. Tira as sandálias dos pés, porque o lugar que pisas é terra sagrada» (Ex 3, 5). É no contexto do chamamento de Deus para a missão libertadora do Povo de Israel, o Povo de Deus, que, no diálogo entre Deus e Moisés, Deus afirma a sacralidade do encontro. Aliás, todo o encontro – seja entre cada um de nós com Deus ou de cada um de nós com cada irmão – é sempre lugar de sacralidade e de reverência. Assim também, o postigo nos recorda que, ao bater da porta, alguém se aproxima para o nosso templo.

Na verdade, a casa é lugar onde se privilegia e se vive a intimidade autêntica e livre. É nela que nos dispomos a ser quem realmente somos; é nela que nos despimos de tantas capas e mascaras; é nela que nos revelamos quem realmente somos; é nela que nos pomos nus e, nessa nudez, expomos ao outro toda a nossa identidade, com as demais idiossincrasias, fragilidades, misérias ou com as nossas maiores virtudes e dons.

O postigo aparece, assim, como a antecâmera daquele que acolhe e que pode acolher. Na sua abertura é assomado (“soma”, em grego significa corpo) o outro que se aproxima. Na confiança mútua, o acolhido deve sentir e tomar consciência que é convidado. Por isso, exige-se que retire “as sandálias” dos seus pés. As sandálias são sinónimo de peregrino, daquele que vive no chão ardente e áspero do deserto, daquele que carrega e traz consigo o “lixo do mundo”. Daí que, na sacralidade do templo (do coração), o lixo exterior não pode e nem deve conspurcar a sacralidade e a pureza do coração.

Tudo isto nos ensina, em suma, que o coração é o lugar do encontro, um espaço sagrado onde o amor, a confiança e o sentido se encontram e se sustentam. Nesta ordem de razão, àquele que entra no coração do outro terá que ter uma postura de convidado. Por outras palavras, não grita, não exige, não magoa e, muito menos, subjuga ou destrói a íntima dignidade da pessoa humana. O postigo é, pois, como que os olhos do rosto do coração que nos convida a entrar e a cuidar generosamente daquele que se confia a nós. E, neste tempo de tantos refugiados, como seria bom que todos fôssemos acolhidos e acolhedores alegres e generosos.