«Laço vs Nó: O desafio da longevidade afetiva» | Opinião de Mariana Pires | Diocese Bragança-Miranda
Temos pressa. Pressa de viver, pressa de sentir e, sobretudo, pressa de colecionar instantes que fiquem bem no feed do Instagram ou do Facebook.
José Saramago dizia: “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”. No entanto, vivemos exatamente ao contrário. Temos uma pressa louca de consumir instantes, mas perdemos um tempo precioso a saltar de superficialidade em superficialidade. Relembro as JMJ e olho para a passagem bíblica de Maria, que “partiu apressadamente” para encontrar a sua prima Isabel, e percebo que a pressa dela não era o nervosismo de quem quer chegar primeiro, mas a urgência de quem sabe que o amor não pode esperar. Maria não ia para uma vitrine; ia para um encontro que ia durar.
É aqui que surge o meu dilema: estamos a construir laços ou a apertar nós?
O laço é a estética do encontro. Mas o problema do laço é a sua própria natureza: é feito para ser fácil de desatar. Basta um puxão mais forte, um cansaço ou uma mudança de moda, e ele solta-se num instantinho. Mas o nó… o nó não serve para enfeitar nada. Ele não nasce do entusiasmo passageiro, mas da paciência de quem escolhe ficar quando o inverno chega e a luz escurece. Leva tempo a apertar, exige convivência e, por vezes, é difícil de lidar, mas é ele que segura as coisas quando as tempestades da vida apertam.
Vivemos na era do descarte. Trocamos de telemóvel a cada dois anos e, quase sem querer, começámos a aplicar a mesma lógica às pessoas. A Igreja, que deveria ser o antídoto para isto, cai muitas vezes na tentação do “marketing espiritual”. Focamo-nos tanto no que é “exótico”, na novidade que atrai likes ou no próximo projeto missionário que pareça inovador, que acabamos por ignorar quem já lá está. É a “missão vitrine”: é facílimo sorrir para um desconhecido num evento pontual, e não digo que não seja importante fazê-lo, mas é uma prova de fogo ser paciente e constante com quem nos conhece os defeitos há anos. Às vezes, por trás do entusiasmo da novidade, esconde-se apenas uma busca por gratificação instantânea. Esquecemo-nos de que a santidade não é um evento pontual, é a teimosia de permanecer. E quando penso nisto agradeço por ser teimosa.
Olho para Jesus e vejo a novidade que não descarta. Jesus não fazia um “update” aos amigos só porque aparecia alguém mais interessante ou “influente”. Ele chamava gente nova, sim, mas não dava “ghost” nos discípulos que já O seguiam há meses, com todas as suas teimosias e perguntas, por vezes, chatas. Para Jesus, ninguém era descartável. Ele não trocava a ovelha que já conhecia o Seu passo por uma “versão melhorada”. Ele ensinou-nos que o novo e o antigo podem comer juntos à mesa. No fundo, Jesus não andava à procura de “seguidores” de um dia; Ele andava a apertar nós que durassem uma vida inteira.
Uma comunidade que só se deixa levar pelo brilho do que acabou de chegar sofre de, se me permitem, “amnésia espiritual”. A fé deveria ensinar-nos a lidar com as chatices e os cansaços, em vez de nos dar permissão para ignorar ou apagar alguém só porque a relação se tornou exigente. Como estudante de enfermagem veterinária sei que num corpo vivo, e a Igreja é esse Corpo, um membro não ignora o outro só porque apareceu uma parte mais chamativa. Na biologia, se um órgão falha ou se isola, todo o sistema sofre. Não se “troca” uma parte do corpo por estética; cuida-se, cura-se e mantém-se a ligação.
A verdadeira longevidade do carinho é honrar quem cresceu connosco, quem nos viu nos nossos piores dias e não se foi embora. A Igreja tem de ser o lugar onde o tempo que passamos juntos é um tesouro, e não uma razão para estarmos aborrecidos.
Para que a nossa presença no mundo valha a pena, precisamos de oferecer o que ninguém oferece: o porto seguro de saber que não estamos sozinhos. O papel decisivo da Igreja deve ser o de garantir que ninguém, especialmente nós, os jovens que estamos a tentar perceber onde é o nosso lugar, se sinta uma peça que se troca quando se estraga, a Igreja precisa de ser mais do que um lugar de festas bonitas; tem de ser um sítio onde se aprende a ficar. A minha geração vive pressionada para deitar fora o que não brilha, mas a Igreja tem o dever de nos ensinar a não desistir uns dos outros. Como dizia Miguel Torga, “o que é preciso é ser-se o que se é, com toda a força e toda a verdade” (Miguel Torga, in Diário I). E a verdade é que ninguém cresce sozinho.
A força do amor não se vê na perfeição de um laço de fita, mas na resistência de um nó que o tempo não conseguiu desatar. No fundo, a fé é esta teimosia boa: a de acreditar, como Maria, que vale a pena correr, não para colecionar momentos rápidos, mas para sermos “Sobreiros”, gente que cria raízes eternas e as aperta bem fundo na terra.
Mariana Pires, Juventude Eucarística Franciscana.





