Homilia da Solenidade da Ascensão do Senhor - 16.05.2021 | Diocese Bragança-Miranda

A música é linguagem viva da esperança!

Solenidade da Ascensão do Senhor

Santuário diocesano de Nossa Senhora da Assunção

16.5.2021

 

1. Cristo, nossa Esperança

Hoje, na oração Coleta, pedimos a Deus «fazei-nos exultar em santa Alegria e em filial ação de graças». E porquê? «porque a ascensão de Cristo, vosso Filho, é a nossa esperança: tendo-nos precedido na glória como nossa Cabeça, para aí nos chama como membros do seu Corpo».

Mas Jesus sobe ao céu, como quem toma um elevador? Não. A sua é agora uma presença diferente e garante-nos que está connosco todos os dias até ao fim dos tempos, sendo o único mediador entre Deus e a humanidade. No ato de partir permanece, porque «o que na vida do nosso Redentor era visível passou para os ritos sacramentais», afirmou o Papa Leão Magno (séc. V) num sermão para a Ascensão. Sim, o que era visível na encarnação, na vida de Jesus pré-pascal, graças ao mistério da morte e ressurreição, passou para os sacramentos, sinais da Páscoa. É um modo diferente de estar presente, mas é presença real.

 Neste belo santuário mariano diocesano, dedicado à assunção da Mãe de Jesus, experimentamos esta atitude de quem se aproxima da Esperança viva e da escuta do silêncio nesta solenidade da Ascensão de Jesus Cristo. Ao mesmo tempo sentimo-nos confirmados na vocação e na missão de servidores do Evangelho da Esperança!

Aqui também ao comemoramos o dia mundial das comunicações sociais e conforme a mensagem do Papa Francisco somos convocados à verdadeira Esperança e da sabedoria que corresponde ao encontro com a realidade, comunicando e encontrando as pessoas onde estão e como são, e até interpela a «gastar a sola dos sapatos» a todos os comunicadores. E os peregrinos sabem bem o que isso significa.

 

2. Cantai os hinos mais belos

A música é um caminho para dizer Deus. É muito acertado o que muitos experimentam: «A música, a literatura, a arte são elementos preciosos para reencantar os corações» (M. C. Bingermer).

S. Bento, na Regra dos Monges, diz claramente sobre a maneira de salmodiar, ou seja, de cantar: «que o nosso espírito concorde com a nossa voz».

No mundo contemporâneo perdeu-se o primado da interioridade«a verdadeira música é, na realidade, a articulação do silêncio. (...) «A música brota do silêncio e volta ao silêncio» (D. Erik Varden).

Desta pandemia e no seu desconfinamento progressivo, importa sermos determinados na continuidade das soluções sanitárias, económicas e sociais, mas não podemos deixar para trás a espiritualidade e a cultura do encontro.

O canto e a música, que são arte sacra e ação litúrgica, consistam a expressão da maior glória de Deus e da santificação dos fiéis no Mistério da Liturgia com nobre simplicidade e sóbria beleza.

 

3. A música é linguagem viva da esperança!

Alegramo-nos com a celebração da bênção e inauguração do órgão de tubos do Santuário diocesano da Senhora da Assunção, que está agora mais belo e mais capaz de celebrar, com a nobre simplicidade da exultação da confissão da fé, a Liturgia da Igreja. Ao mesmo tempo, o culto divino abraça a cultura humana nas dimensões da arte e da alma que a Liturgia celebra nos mistérios da fé.

Nas celebrações litúrgicas, a arte musical tem como fim principal a glorificação de Deus e a santificação dos homens. Por isso, o som do órgão, o melhor dos melhores, é um sinal eminente do cântico novo que devemos cantar a Deus na harmonia universal da criação. Liturgia para a Música? Não. Música para a Liturgia? Sim.

A música, a música sacra, a música sacra litúrgica do som do órgão de tubos está nos caminhos da demanda do essencial. Nas invocações, a seguir à oração de bênção nesta liturgia, o órgão até é quase tratado como pessoa e estabelece-se um diálogo entre a palavra e a música, iniciando com um alerta: «Desperta, órgão, instrumento sagrado...».

A música é linguagem da Esperança! Os cristãos constituem um povo que canta, porque «cantar é próprio de quem ama» (Santo Agostinho). Onde há oração, canto e música há esperança!

+ José Manuel Cordeiro

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Fotografia: BLR/SDCS.