«Sei que o Amor é tudo» - 25º Aniversário da Ordenação sacerdotal | Diocese Bragança-Miranda

Catedral de Bragança, 16.06.2016

25º Aniversário da Ordenação sacerdotal

Sei que o Amor é tudo

 

1. Fazer Memória grata

Na memória muito grata da graça recebida no sacerdócio ordenado, é uma enorme felicidade celebrar convosco as maravilhas do Senhor, porque em mim fez misericórdia.  Agradeço a Deus-Amor em todo o coração por tanto bem confiado, especialmente, nestes 25 anos de sacerdócio: «em Vós está a fonte da vida e é na Vossa luz que vemos a luz» (Sl 35). Ao mesmo tempo peço, com humilde esperança, o perdão por todas as sombras e pecados diante de tamanha graça derramada pelo bálsamo da unção espiritual.

O pastor «sabe que o amor é tudo» (Papa Francisco). Este é o segredo que nasce do Mistério e que se vive no ministério que serve para servir, porque o ministério sacerdotal é um «amoris officium», como Santo Agostinho tão expressivamente comentou acerca do evangelho de S. João. A caridade pastoral ou o ofício do amor sacerdotal, recebido pela imposição das mãos, deve ser o de apascentar o rebanho do Senhor, no dom total de si à Igreja, e não apascentar-se a si mesmo.

Aquele 16 de junho de 1991 era Domingo e na tarde desse dia, na igreja do Seminário de S. José, D. António Rafael assim se referiu ao sacerdócio durante a homilia: «Acontecimento tão sobre-humano, tão divino, que só pode ouvir-se em adoração, e rezar-se pelo “Magnificat” e celebrar-se em júbilo». De facto, a letra e a música do cântico Magnificat convergem inteiramente na misericórdia divina. Por isso, sob o olhar da Mãe de Misericórdia, agradeço e bendigo a Deus-Amor e como Maria testemunho: «a sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem. O Todo Poderoso fez em mim maravilhas: Santo é o Seu nome» (Lc 1, 50-51).

Na mesma alegria lembro os outros meus irmãos que celebram os 25 e 50 anos de ordenação presbiteral, como já o fizemos na Missa Crismal, especialmente os da nossa amada Diocese: P. José Carlos (16.06.91), P. Carlos Fonseca, P. Manuel Mendes, P. Alfredo Silva e Hérmino Ferreira. Em Portugal, somos 40 a celebrar os 25 anos de sacerdócio.

Com viva gratidão louvo a Deus pelos meus pais (o pai já na Páscoa eterna, a mãe, a grande testemunha da vida e da fé entre nós), irmãos, cunhados, sobrinhos, afilhados e todos os familiares. Agradeço ao Senhor nosso Deus: pelos Papas: Beato Paulo VI, João Paulo I, S. João Paulo II, Bento XVI (29.06.16 - 65 anos de sacerdócio) e Francisco; pelos Bispos: D. Manuel de Jesus Pereira (que me crismou), D. António José Rafael (3x vezes me impôs as mãos: Episcopado, Presbiterado e Diaconado), D. António Montes Moreira (ambos com mérito), D. Manuel António Pires e todos os meus irmãos e amigos no episcopado); pelos Presbíteros; pelos Diáconos; pelos Párocos da Missão de Santo António do Dumbi e de Parada; pelos Formadores e Colegas dos Seminários em Vinhais, Bragança e no Porto; pelos Catequistas; pelos Professores; pelos Amigos; pelos Seminaristas; pelas famílias; pelas Paróquias; pelas Unidades Pastorais; pelos Arciprestados; pelas Pessoas Consagradas; pelos Leigos; pelo Cabido; por todos os Organismos de Comunhão na Diocese; pelos Movimentos; pela Cáritas Diocesana; pelas Fundações canónicas; pelos Centros Sociais Paroquiais; pelas 14 Santas Casas da Misericórdias; pelas Confrarias; pelas Irmandades; pelas Escolas; pelo Instituto Politécnico de Bragança; pela Visita Pastoral; pelas Crianças; pelos Jovens; pelos Adultos; pelas Pessoas Idosas, especialmente os doentes e todas as pessoas que vivem no sofrimento, na solidão, no isolamento, na prisão, na deficiência, na ignorância, na pobreza, na depressão, no stress, no desemprego e na migração.

Agradeço igualmente pela colaboração recíproca com as Instituições autárquicas, civis, académicas, das forças da segurança, da solidariedade social, da comunicação social e por todas as pessoas que buscam o Bem, a Justiça, a Paz e a Verdade na sua vida.

Um vivo e profundo agradecimento ao Mons. Vigário Geral, à Cúria Diocesana, aos Presbíteros, aos Diáconos, às Pessoas consagradas e aos Leigos, aos muitos organismos diocesanos, à Unidade Pastoral Senhora das Graças e ao Seminário de S. José, que colaboraram com ele para a tão nobre simplicidade deste dia inesquecível. Bem-hajam pelo vosso testemunho de generosidade, de amizade, de lealdade e de fé! É para mim uma grande lição de humildade e de eclesiologia da Igreja Local, manifestando o fruto da sinodalidade peregrina e da Igreja, Família de Famílias, nesta nossa muita amada Diocese.

2. Ferida especial do coração

 A vocação (Is 6, 1-8) é um encontro interior e indizível com o Senhor. Deus chama Isaías a uma missão em favor do povo e, na fé, ele arrisca a vida, aceitando ser enviado. O mais importante para o Profeta é Deus. O fundamental da sua mensagem é desafiar no povo o encontro com a santidade de Deus. A fé é a atitude decisiva e fundamental do ser humano diante de Deus e, por isso, tem sempre de nos incomodar e nunca acomodar.

A propósito, gostaria de recordar as palavras do Cardeal Martini, de viva memória: «a vocação é uma ferida especial do coração. A verdade da oração pelas vocações é alcançada quando ressoa a oração de Isaías: “Senhor, eis-me aqui. Podeis enviar-me”. Convido-vos a rezar assim». Deixemo-nos ferir pela realidade quotidiana, especialmente pelas situações de pobreza e de dificuldade.

Será que a nossa Diocese, onde tantos já se sentem chamados ao serviço da catequese, ao serviço da liturgia e ao serviço da caridade, não está em condições de oferecer mais membros para serem discípulos missionários no Matrimónio, no Sacerdócio, na Vida Consagrada, no Serviço e na Missão? Aqui na Catedral, no domingo, dia 10 de julho, véspera de S. Bento nosso patrono, terei a graça de ordenar 2 novos presbíteros e um diácono. E que bom seria admitir outros três ao Seminário Maior Interdiocesano de S. José. Corações ao alto!

Seguir Cristo compromete. É uma escolha de vida ou de morte! Mas não há que ter medo, pois à semelhança de Isaías, que vê, escuta e fala, a jovem de Nazaré, Maria, no seu dinamismo total diante do Anjo do Senhor que a convida para uma indescritível vocação, responde: Eis-me. «Faça-se em Mim, segundo a Tua Palavra», como que antecipando a oração do Pai-Nosso, quando rezamos: «seja feita a Vossa vontade».

No fim do relato, o Anjo sai em silêncio «retirando-se de junto dela». Aqui começa o grande desafio da fé. Maria na fé é o exemplo de quem nunca se cansa de procurar o rosto de Deus e escutar a voz do silêncio. Ela evangeliza com toda a sua pessoa e confia plenamente Naquele que nela confiou, pois só a confiança pode conduzir ao Amor. «O coração é a catedral do silêncio e é a porta de Deus» (E. Ronchi), lugar da escuta e dos infinitos recomeços. A vasta iconografia universal da Anunciação é uma representação do mistério da fé, o invisível se torna vem habitar visível. Na Anunciação, a Santíssima Trindade habitou em Maria e tornou-a participante ativa da Sua santidade misericordiosa.

3. Deus acrescenta

Como Maria, S. José é o modelo do vigilante ou episcopê fiel. Na Bíblia, o nome José significa: Deus acrescenta, do verbo iasàf – acrescentar. E como escreve E. De Luca: «a sua biografia esbate-se na sombra larga do filho». Também nós, os pastores, hoje sentimos que podemos fazer de S. José, como no conto de Natal, escrito pelo grande Miguel Torga: «Consoamos aqui os três – disse, com a pureza e a ironia dum patriarca. – a Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José».

Não basta demonstrar Deus, é necessário mostrar os mistérios de Cristo. Tudo é graça. É o mistério e a graça da nossa vocação, qual «sarça ardente de amor gratuito na presença do qual podemos apenas, como Moisés, tirar as sandálias (cf Ex 3, 5)» (Papa Francisco). Na terra sagrada do outro, daqueles a quem somos enviados, temos de reaprender a tirar as sandálias, a estar descalços dos preconceitos, dos juízos, das intrigas eclesiásticas, das murmurações, das indiferenças, para caminhar na proximidade e na sinodalidade da santidade misericordiosa, porque «os santos são as chamas do fogo sagrado» (D.M. Turoldo), que nos mostram o «futuro com memória - lições de vida e de história» (Adriano Moreira).

A obediência apostólica ou pastoral define-se essencialmente a partir da escuta, acolhimento e disponibilidade radical para seguir a vocação, na entrega total de si, como Cristo: «eis que eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade» (Hb 10, 7) e «para que tenham vida e a tenham em abundância» (Jo 10,10).

Na miséria do coração, acolho a santidade misericordiosa e canto em Magnificat e Te Deum, com o ardor dos Santos, conforme o documento pós-conciliar mais importante, segundo o Papa Francisco ao referir-se à Evangelii Nuntiandi: «Conservemos o fervor do espírito, portanto; conservemos a suave e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando for preciso semear com lágrimas! Que isto constitua para nós, (…), um impulso interior que ninguém nem nada possam extinguir. Que isto constitua, ainda, a grande alegria das nossas vidas consagradas. E que o mundo do nosso tempo que procura, ora na angústia, ora com esperança, possa receber a Boa Nova dos lábios, não de evangelizadores tristes e desanimados, impacientes ou ansiosos, mas sim de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor, pois foram quem recebeu primeiro em si a alegria de Cristo, e são aqueles que aceitaram arriscar a sua própria vida para que o reino seja anunciado e a Igreja seja implantada no meio do mundo» (Paulo VI), para mostrar os surpreendentes mistérios de Cristo.

Nestes 25 anos vivi o ministério sacerdotal aqui em Bragança-Miranda (8 anos) em Roma (12 anos), especialmente no Pontifício Colégio Português e no Pontifício Ateneu de Santo Anselmo e outros serviços eclesiais, e desde 2011 novamente aqui em Bragança-Miranda, como servidor bispo do Evangelho da Esperança. Por todos os irmãos e irmãs que me continuam a ajudar nesta peregrinação da fé a celebrar Deus, fonte de toda a santidade misericordiosa.

Como Pedro quero continuar a dizer: «Tu sabes tudo. Tu bem sabes que sou deveras teu amigo» (Jo 21, 17), para dar a vida por todos, à imitação de Jesus, o bom, o belo e único Pastor, sabendo que só me foi dada a missão de pastorear e não me foi transferido o rebanho. Aqui reside o núcleo da graça da grandeza e da limitação no alegre seguimento de Jesus Cristo. Aqueles que receberam a graça de apascentar, isto é, nós os pastores, não deixamos de ser ovelhas e cordeiros de Cristo, porque sabemos que o Amor é tudo e Ele nos ama muito.

Por tudo, «nós Vos glorificamos, Pai Santo, porque sois grande, e tudo criastes com sabedoria e amor» (Oração Eucarística IV) e «e Vos damos graças porque nos admitistes à Vossa presença, para Vos servir nestes santos mistérios» (Oração Eucarística II).    

+ José Manuel Cordeiro

Fotografia: BLR/Comunicações Sociais Diocese.