Homilia de D. Nuno Almeida no Encerramento do Ano Jubilar | Diocese Bragança-Miranda
SAGRADA FAMÍLIA E ENCERRAMENTO JUBILEU 2025
Catedral de Bragança, 28.12.2025, 18.00h.
Homilia
Irmãos e irmãs!
1.Continuamos a celebrar a Solenidade do Natal do Senhor, que se prolonga durante oito dias (Oitava) até à Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, que se celebra no primeiro dia de janeiro.
Convocado pelo Papa Francisco através da bula ‘Spes non confundit’ (A esperança não engana), o Ano Santo encerra-se este domingo nas dioceses de todo o mundo. O 27.º Jubileu ordinário da história da Igreja Católica, iniciado na Noite de Natal de 2024, terá a sua conclusão a 6 de janeiro de 2026, no Vaticano, sob a presidência do Papa Leão XIV, com o fecho da Porta Santa na Basílica de São Pedro.
Nesta importante celebração, ilumina-nos a Primeira Leitura com um extrato sapiencial retirado do Livro de Ben Sira (ou Eclesiástico) (3,2-6.12-14), e que nos convida ao amor dedicado aos nossos pais, sempre e em todas as circunstâncias, para que o Senhor ponha sobre nós o seu olhar de bondade.
Na Segunda Leitura, o Apóstolo Paulo, na Carta aos Colossenses (3,12-21), exorta esposos, pais e filhos ao amor mútuo, mostrando ainda de que sentimentos nos devemos vestir por dentro e de que melodias devemos encher a nossa boca e o nosso coração. Salta à vista que a misericórdia, a bondade, a humildade, a mansidão, a longanimidade, o amor e o perdão são vestes importantes para a festa, mas não se compram nem vendem por aí nos saldos. De resto, vê-se bem que andamos todos bem vestidos por fora, mas andamos muitas vezes nus, desleixados e sujos … por dentro! E é para aqui que aponta a exortação de S. Paulo, acrescentando depois, a Palavra de Deus, como fonte de sabedoria muito necessária para instruir, aconselhar e dar graças.
2.O relato evangélico de Mateus que escutamos nesta festa guarda muitos tesouros. Desde pequenino, Jesus desce ao nosso chão e ao nosso coração, sofre as nossas raivas e violências, conhece a perseguição, o mundo dos exilados e dos refugiados, vive como clandestino e «descartado», como tantos dos nossos concidadãos de hoje e de todos os tempos.
Outra preciosidade é o facto de vermos Maria, José e Jesus a atuar sempre unidos: “Toma o Menino e Sua mãe”, e José “tomou o Menino e Sua mãe”. Estavam juntos no nascimento, no exílio, na casa de Nazaré. É assim que se enfrentam as provas da vida: unidos e em comunhão. Sozinhos surge a angústia. Em conjunto, ajudamo-nos, encorajamo-nos uns aos outros, reencontra-se a confiança.
E, acima de tudo, sentiam e experimentavam que Deus estava com eles, deixando-se guiar por Ele. O anjo do Senhor falava e encontrava Maria e José em atitude de escuta, prontos a obedecer à sua palavra, a fazer a vontade de Deus.
3.Hoje, mais do que falar de crise da família, apontemos para a crise do relacionamento conjugal entre homem e mulher que, atualmente, enfrenta inéditas e profundas dificuldades. Existe sim uma profunda crise do matrimónio. Por exemplo: sintoma eloquente desta crise são as vítimas de violência doméstica. Neste momento mais de 6000 vítimas usam o “botão de pânico” que podem acionar para avisar as autoridades em caso de perigo. Mais de 1000 reclusos encontram-se nas prisões por crimes de violência doméstica. De janeiro até ao final de setembro de 2025, houve 18 mortos em contexto de violência doméstica, dos quais 16 eram mulheres e dois homens. A polícia, neste mesmo período, registou 25.327 ocorrências de violência doméstica, o valor mais alto dos últimos sete anos.
Estamos perante uma inquietante “epidemia” dos nossos tempos, que a todos responsabiliza: Igreja, Estado e cada um de nós. Se tenho conhecimento de abusos ou violência doméstica não posso ficar indiferente. É preciso avisar as autoridades!
3.Tive a alegria de participar, em Roma, no Jubileu das Famílias, das Crianças, dos Idosos e dos Avós. Na homilia da Eucaristia, perante 200 mil pessoas, na Praça de S. Pedro, no dia 1 de junho de 2025, o Papa Leão XIV afirmou: “Assim que nascemos, tivemos necessidade dos outros para viver, já que sozinhos não teríamos conseguido: foi outra pessoa que nos ajudou, cuidando de nós, do nosso corpo e do nosso espírito. Assim sendo, todos nós vivemos graças a uma relação, ou seja, a um vínculo livre e libertador de humanidade e de cuidado recíproco.
É verdade que às vezes essa humanidade é traída. Por exemplo, cada vez que se invoca a liberdade não para dar a vida, mas para tirá-la; não para socorrer, mas para ofender. No entanto, mesmo diante do mal, que cria discórdia e mata, Jesus continua a interceder por nós junto ao Pai, e a sua oração age como um bálsamo nas nossas feridas, tornando-se para todos um anúncio de perdão e reconciliação. Essa oração do Senhor dá sentido pleno aos momentos luminosos do nosso querer bem aos outros, como pais, avós, filhos e filhas.”
A família é um mistério de amor: amor conjugal, maternal, paternal, filial, fraternal, amor dos avós pelos netos e dos netos pelos avós, dos tios pelos sobrinhos, etc. Nada mais constitui, liga, constrói e reconstrói a família senão o amor! É a arte cristã de amar que transforma a fé e o cristianismo, de um facto simplesmente religioso, devoto ou teórico, a que tantas vezes o reduzimos, em aventura quotidiana, transparente, libertadora, feliz e alegre, também e, sobretudo, na vida familiar!
4.Ao afirmarmos a beleza da família, sentimos mais do que nunca que devemos defendê-la. Não permitamos que seja inquinada pelo veneno do egoísmo, do individualismo, da cultura da indiferença e do descarte, e perca assim o seu “DNA” que é o acolhimento e o espírito de serviço. Vamos todos comprometer-nos (pais, filhos, Igreja, sociedade civil) a apoiar, defender, cuidar e proteger a família. A família que nasce do amor conjugal entre um homem e uma mulher é o nosso grande tesouro!
Como grande propósito deste Jubileu comprometamo-nos a tudo fazer para que a Igreja, em todas as suas comunidades, seja família de famílias! Este é sonho de Deus: uma única família humana, todos filhos amados e por isso irmãos, todos família!
Podemos contemplar a Sagrada Família — e nela cada família humana — como um verdadeiro laboratório de sinodalidade: um lugar onde se aprende a caminhar juntos, a escutar, a dialogar, a discernir e a decidir em comum: 1.Com a escuta empática; 2.Com o diálogo cordial; 3.Com a comunhão na diversidade.
Só é possível construir, artesanalmente, a família quando o “nós” prevalece sobre o “eu”, procurando decisões partilhadas, mesmo quando isso exige tempo, escuta, sacrifício e renúncia pessoais.
Peçamos ao Senhor que nos ajude a percorrer estes caminhos de esperança nas nossas famílias, nas nossas comunidades e na sociedade, com pequenos passos, gestos concretos de atenção, pedidos e ofertas de perdão, muita paciência e cuidado com os pequenos detalhes do amor.
Protege, Senhor Jesus,
as nossas famílias,
todos os casais, os filhos e os pais,
e enche de alegria, mais e mais,
todos os seus dias,
manhãs, tardes, noites e vigílias.
Vela, Senhor Jesus, por cada criança,
por cada mãe, por cada pai, por cada irmão,
a todos os velhinhos, Senhor, dá a mão,
e deixa em cada rosto um afago de esperança.
Senhor Jesus,
guia a nossa família, a nossa paróquia e diocese
pelo caminho severo da vida,
sugere os passos,
reúne os corações no silêncio
e na contemplação,
atentos e dóceis aos Teus sinais.
Dá-nos unidade e concórdia
para caminhar juntos
e partilhar a alegria e a dor
em solidariedade fraterna
e no amor. Ámen!
+Nuno Almeida, Bispo de Bragança-Miranda





