Homilia de D. Nuno Almeida na Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus | Diocese Bragança-Miranda

SANTA MARIA MÃE DE DEUS

59ºDIA MUNDIAL DA PAZ

(Catedral de Bragança, 01.01.2026 – 18.00h)

Homilia

 

Irmãos e irmãs!

1.Hoje, como no tempo de Moisés, Deus inclina o seu rosto sobre nós e ilumina os nossos caminhos, ilumina a nossa noite (cf. I Nm 6, 22-27). O Senhor, nosso refúgio e proteção, olha-nos desde o seu infinito amor e dá-nos a sua paz. Neste início de ano, podemos ser abençoados por Deus com uma vida nova.

As palavras de Paulo (cf. 2 Gl 4, 4-7) fazem-nos tomar consciência, no primeiro dia do ano, que não estamos abandonados. Não somos órfãos. Desde que Deus enviou o seu filho, nascido de uma mulher, fomos tornados filhos em Cristo. Agora somos filhos amados, temos uma vida nova, somos herdeiros da vida eterna. Sendo assim, para nós não há estrangeiros, nem estranhos, mas somente irmãos e irmãs!

E temos Mãe! A figura que enche este dia, e que motiva a nossa alegria, é a figura de Maria, na sua fisionomia mais alta, a de Mãe de Deus, como foi solenemente proclamada no Concílio de Éfeso, em 431, mas já assim luminosamente desenhada nas páginas do Novo Testamento.

No Evangelho deste Dia de Maria, Lucas pinta um quadro mariano de extraordinária beleza: «Maria guardava todos estes acontecimentos, compondo-os no seu coração» (Lc 2,18-19). O verbo guardar implica atenção cheia de ternura, como quem leva nas suas mãos uma coisa preciosa.

O verbo compor apresenta-nos Maria a redigir um poema, a compor uma sinfonia, a escrever uma canção, melodia que fica para a vida inteira surgindo sempre novos acordes de alegria.

Esta solicitude maternal de Maria, habitada por esta imensa melodia, harmonia e alegria que nos vêm de Deus, levou o Papa S. Paulo VI, a associar, desde 1968, à Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a celebração do Dia Mundial da Paz.

 

2.Celebramos hoje o 59º Dia Mundial da Paz e o Papa Leão XIV escolheu para lema e tema da sua mensagem: “A paz esteja convosco. Rumo a uma paz desarmada e desarmante”. A “paz desarmada” do presépio confronta diretamente a “paz armada” do mundo. A paz sustentada pelo medo da retaliação, pelo equilíbrio de arsenais nucleares ou pela sofisticação de ataques cibernéticos é uma paz falsa, uma quimera instável.

Como nos adverte o Papa, tal aparato bélico e militar consome recursos preciosos que deveriam ser destinados ao desenvolvimento integral dos povos, à saúde e à educação. A verdadeira paz não pode conviver com o terror; ela exige a confiança mútua, algo que as armas jamais poderão construir.

O Santo Padre é cirúrgico ao apontar que o desarmamento material deve ser precedido pelo desarmamento moral e do coração. Enquanto houver “armas” nos nossos pensamentos, nos nossos sentimentos, nos nossos discursos, nas nossas posturas ideológicas polarizadas, as armas continuarão a encontrar mãos dispostas a dispará-los. A paz desarmada exige a coragem de romper com a dialética do inimigo, vendo no outro — mesmo naquele que errou — não uma ameaça a ser eliminada, mas um irmão e uma irmã a ser resgatado e reintegrado.

 

3.Em segundo lugar, o Papa introduz a dimensão da “paz desarmante”. A bondade, a verdade e a beleza possuem uma autoridade intrínseca capaz de “desarmar” a agressividade alheia. Não se trata de rendição perante o mal e perante a violência, nem de passividade ou covardia; é uma atitude ativa e corajosa que retira do agressor a justificativa para a continuidade da violência. Uma paz desarmante é aquela que constrange o mal pela superabundância do bem. É preciso constantemente uma grande inundação de bondade, verdade e beleza na nossa sociedade. Inundação que hoje pode acontecer através das redes sociais usadas, por tantos, para difundir o ódio, a mentira e ideologias muito feias, tais como o racismo e a xenofobia.

Nos ambientes de trabalho, na escola, no desporto, na sociedade em geral, nas comunidades cristãs, nas famílias … somos chamados a ser uma presença desarmante e reconciliadora sempre que surge o conflito.

 

4.O Papa Leão XIV também nos alerta, com a sabedoria de quem perscruta os sinais dos tempos, sobre os novos desafios tecnológicos. A inteligência artificial e os algoritmos, se não forem submetidos a uma “algorética” humanista, podem criar sistemas de morte autónomos e amplificar o ódio nas redes sociais, criando “bolhas” de intolerância que transbordam para as ruas. Diante disso, a presença cristã deve ser “desarmante”: devemos humanizar a técnica, inserindo nela o “coração” que a máquina jamais terá. A nossa caridade social e a nossa unidade eclesial devem ser tão evidentes que “desarmem” o ceticismo e o cinismo a alastrar hoje na nossa sociedade.

 

5.Ao iniciarmos o ano civil de 2026, colhendo os frutos espirituais do Jubileu da Esperança, como Igreja de Cristo estamos convocados para a ser artesãos de paz, semeando a verdade, multiplicando gestos de bondade e difundindo a beleza. Que o Menino do Presépio nos inspire. A paz desarmada começa quando nos dispomos sempre a recomeçar a amar. A paz desarmante acontece quando o nosso perdão é maior que a ofensa recebida.

Que Maria, Rainha da Paz, que segurou em seus braços o Príncipe da Paz, interceda por nós. Que o luminoso magistério do Papa Leão XIV encontre solo fértil em nossos corações transmontanos, para que, depostas as armas do ódio, do medo e do egoísmo, possamos caminhar juntos na construção da civilização do amor, onde a justiça e a paz se abraçarão.

Com gestos e palavras de paz “desarmada e desarmante” procuremos globalizar a fraternidade, pois há um só Deus e uma só Humanidade de filhos e de irmãos!

Partilho convosco a letra de uma singela canção que escrevi há alguns anos:

 

Por trás de uma arma apontada

há mão a pedir auxílio

por trás de uma língua afiada

está um coração ferido

por trás de alguém que ameaça

existe uma mente em caos.

 

Por trás de uma voz que grita

há quem vive na solidão

por trás de quem calunia

está alguém que sofreu humilhação

por trás de quem diz sempre mal

existe alguém para ser elogiado.

 

Por trás de um destruidor

há quem deva ser educado

por trás de um egoísta

está alguém que deve ser amado

por trás de quem é injusto

existe quem tem de aprender a dar.

 

+Nuno Almeida

Bispo de Bragança-Miranda