50ª Peregrinação Nacional SM Boa Nova - Missionários alegres da Misericórdia | Diocese Bragança-Miranda

50ª Peregrinação Nacional SM Boa Nova

Fátima, 19 de junho de 2016

Missionários alegres da Misericórdia

 

1. A oração de Jesus

Sem oração não pode haver missão! No Evangelho, Jesus aparece frequentemente em atitude orante e silenciosa. Na Liturgia de hoje, a leitura do evangelho começa com a narrativa da oração de Jesus.

Rezar é como querer bem. O centro da oração não é o que eu faço, mas o que Deus realiza. «Não se reza para receber, mas para ser transformados» (Kierkegaard) e amar com o coração de Deus. Não basta o culto externo e o formalismo autossuficiente; é preciso a alegria da fé e da missão. A oração não consiste em falar com Deus, mas em escutar e estar com Deus. João Cassiano (século V) recomendava aos que queriam aprender a rezar e a rezar continuamente que recorressem a um pequeno verso da Bíblia e que o repetissem muitas vezes, como este: “Senhor, tende compaixão de mim, que sou pecador”. Aos jovens e sobretudo aos seminaristas e aos missionários recomendo outro: «eis-me aqui, envia-me» (Is 6,8).

 

2. Se alguém quiser ser Meu discípulo…

Na infância, comecei a crescer na fé com os Missionários da Boa Nova, na Missão de Santo António do Dumbi, na Diocese do Sumbe em Angola. Com oito anos vim para Portugal e guardo com muita alegria as belas recordações daquela Missão, onde recebi a graça do Batismo. Conhecer Jesus e segui-Lo é o desafio de todo o discípulo-missionário.

Às vezes, ouve-se dizer por aí que cada cristão pode ser discípulo-missionário como lhe apetece. Pelo que escutámos nesta Liturgia, nunca aparece essa ideia. O discípulo é discípulo como o Mestre determinou: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á».

Em Lucas, a confissão de Pedro está em íntima ligação com a profecia da paixão e com a figura do discípulo. A escolha do seguimento de Jesus não é uma decisão intelectual, mas é uma escolha que resulta da oração. O Mestre apresenta-se no dinamismo do sofrimento e da glória, ou seja, para se viver na alegria da Missão tem de se ter liberdade de escolha, acolhimento da cruz, fidelidade, seguimento e agir como Deus.

Jesus Cristo, o único, Belo e Bom Pastor apresenta-se com uma missão plena: «Eu vim para que tenham a vida e a vida em abundância» (Jo 10,10). Só Nele a nossa missão é plena e abundante para o Bem comum e para a promoção e defesa da dignidade da vida humana desde a sua conceção até à morte natural.

3. Missionários alegres da Misericórdia

Na exortação apostólica Evangelii Nuntiandi, o documento pós-conciliar mais importante, segundo o Papa Francisco, somos interpelados pelo Beato Paulo VI: «Conservemos o fervor do espírito, portanto; conservemos a suave e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando for preciso semear com lágrimas! Que isto constitua para nós, como para João Batista, para Pedro e para Paulo, para os outros apóstolos e para uma multidão de admiráveis evangelizadores no decurso da história da Igreja, um impulso interior que ninguém nem nada possam extinguir. Que isto constitua, ainda, a grande alegria das nossas vidas consagradas. E que o mundo do nosso tempo que procura, ora na angústia, ora com esperança, possa receber a Boa Nova dos lábios, não de evangelizadores tristes e descoroçoados, impacientes ou ansiosos, mas sim de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor, pois foram quem recebeu primeiro em si a alegria de Cristo, e são aqueles que aceitaram arriscar a sua própria vida para que o reino seja anunciado e a Igreja seja implantada no meio do mundo» (EN 80).

O próprio Papa Francisco faz-nos também sonhar ao escrever: «Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo actual que à auto-preservação. A reforma das estruturas, que a conversão pastoral exige, só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de “saída” e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade» (EG 27).

A missão ad gentes não tem fronteiras e por isso, com D. Hélder da Câmara, de viva memória somos igualmente interpelados: «Missão é partir, caminhar, sair de si. É quebrar as crostas do egoísmo que nos fecha no nosso eu! Missão é parar de dar voltas ao redor de nós mesmos como se fôssemos o centro do mundo, da vida. Missão é não deixar bloquear nos problemas do pequeno mundo a que pertencemos. A Humanidade é maior. Missão é sempre partir, mas não devorar quilómetros. É sobretudo abrir-se aos outros como irmãos, descobri-los e encontrá-los. E para os descobrir e amar é necessário atravessar mares e voar pelos céus, então, missão é partir até aos confins do mundo!»

Na vida missionária, como realça a 50ª peregrinação nacional da Sociedade Missionária da Boa Nova e na pastoral da Família, como se sublinha hoje com a presença da família Blasiana – o Instituto Secular das cooperadoras da Família, ao serviço da evangelização da Família, fundadas por uma testemunha da santidade, Venerável Mons. Alves Brás, somos provocados a ser discípulos missionários com coragem e confiança.

Peregrinamos ao santuário de Fátima e sentimo-nos acolhidos pela Virgem Maria que aqui nos transmite uma mensagem de paz, de graça e de misericórdia que nos centra no coração de Deus. O rosto deste coração é Jesus Cristo que veio para que tenhamos vida em abundância (cf. Jo 10,10).

Esta é a missão que nasce desta missa em Fátima e em toda a terra onde somos enviados a testemunhar a santidade misericordiosa de Deus.

+ José Manuel Cordeiro, Bispo de Bragança-Miranda

Fotografia: BLR/Comunicações Sociais Diocese