Homilia de D. Nuno Almeida na Solenidade de São Bento na Catedral | Diocese Bragança-Miranda
Solenidade de S. Bento
Padroeiro da Diocese de Bragança-Miranda
Catedral de Bragança, 11 de julho de 2026
Homilia
Criou comunidades. Formou pessoas. Educou consciências.
Irmãos e irmãs!
Às legiões romanas, que subjugaram ao império de Roma povos distantes, sucedeu um exército pacífico de monges, desprovidos de forças materiais, mas armados do poder que vem de Deus (cf. 2Cor 10,4), enviados pelo Sumo Pontífice a dilatar o reinado de Jesus Cristo até aos confins da Terra, não com a espada e o pavor do saque e da carnificina, mas com a cruz e o arado, com o amor e a verdade.
“Onde quer que chegasse este exército inerme de agricultores, de artistas, de teólogos, de sábios, de pregoeiros do Evangelho, marcava bem fundo o rastro das suas pisadas em oficinas que se erguiam, alegres de arte e de trabalho, em relhas que se multiplicavam, desabrochando o seio das florestas na promessa verde dos campos, em novos grupos de povos civilizados, arrancados aos costumes da selva pelo exemplo e pregação dos monges.[…]”-(Pio XII (1876-1958), Encíclica «Fulgens radiatur», de 21/03/1947).
A regra que S. Bento nos legou não poderia ser mais simples: “Ora e labora”, “Reza e trabalha”. Acrescentando-se a esse lema “Leia”, pois, para S. Bento, a leitura devia ter um espaço especial na vida do monge, principalmente a das Sagradas Escrituras. Desse modo, estabelecia-se o ritmo da vida monástica: o justo equilíbrio, do corpo, da alma e do espírito, para manter o ser humano em comunhão com Deus. Ainda, registou que o monge não deve ser “soberbo, nem violento, nem comilão, nem dorminhoco, nem preguiçoso, nem detrator, nem murmurador”.
Ao recordarmos a vida e a santidade de S. Bento, que nasceu em Núrsia (80 Km de Roma) no ano 470, compreendemos como a fé cristã pode iluminar a nossa mente, aquecer o coração e motivar-nos à ação:
1.S. Bento vive uma profunda intimidade com Deus na sua passagem por Subiaco e Montecassino, etapas de um caminho humano espiritual de abertura à luz e ação do Espírito Santo. S. Bento foi agraciado de uma visão celeste, não para satisfazer a sua curiosidade intelectual, mas para que o seu carisma tivesse a força de reproduzir no mosteiro a vida do céu e contribuir para restabelecer a harmonia da criação na sociedade.
Na primeira leitura, do livro dos Provérbios, escutámos: “Se invocares a inteligência e chamares a prudência; se a procurares como a prata e a buscares como um tesouro, então compreenderás o temor do Senhor e alcançarás o conhecimento de Deus” (Prov 2, 1-9).
Peçamos a intercessão de S. Bento para que a luz de Cristo ilumine a nossa mente, tão dispersa e fragmentada. Precisamos que a luz da fé, ilumine o nosso pensamento, para que nos salve da descrença, da indiferença religiosa, da tentativa de construirmos a vida sem Deus. Luz que nos liberte da idolatria do nosso eu, do dinheiro, do sucesso, ou do prazer. Luz que nos cure da superstição, hoje tão difusa e que leva à ilusão da procura de resolver os problemas de forma mágica, sem esforço, sem mudança de vida e sem conversão verdadeira ao Evangelho.
2.O carisma beneditino é um dos caminhos onde se experimenta o que escutámos no Evangelho: “Todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou terras, por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá como herança a vida eterna” (Mt 19, 27-29). É Deus que nos dá sempre e somente irmãos e irmãs!
Se para cada cristão seguir Jesus é passar a integrar um povo (chamado a ser comunidade), para S. Bento esta dimensão foi particularmente evidente. S. Bento concebeu o mosteiro como o lugar onde se realiza em plenitude, o mais possível sobre a terra, o reino dos céus. O tempo era dividido entre a oração e o trabalho. A lei fundamental que devia reinar entre os monges era a caridade fraterna. A raiz desta convivência estava na oração e na Palavra de Deus.
Peçamos a intercessão de S. Bento para que a luz de Cristo ilumine o nosso coração, tão ferido, dividido e insatisfeito. Ilumine os sentimentos, os afetos, as decisões e intenções mais profundas. Que esta luz nos liberte da impaciência, da frustração, da solidão, da desolação, do desespero, do azedume e do ressentimento e sempre nos reconcilie com a vida e uns com os outros!
3.Mas esta experiência de iluminação interior e de vida comunitária deveria ser farol e luz para a sociedade, não era para ficar fechada nas paredes de um mosteiro. O cristianismo assume, assim com S. Bento e os seus mosteiros, um papel público e ativo na construção da sociedade. A oração e o trabalho seriam o caminho para edificar espiritual e materialmente a nova sociedade sobre as ruínas do Império Romano que acabara definitivamente.
O carisma de S. Bento foi, no tempo que se seguiu à queda do Império Romano, uma verdadeira semente que, graças aos monges e mosteiros, permitiu o início de uma Europa com alma cristã. Por tudo isto, S. Bento foi declarado Padroeiro Principal da Europa por São Papa Paulo VI, em 1964.
Peçamos a intercessão de S. Bento para que a luz de Cristo ilumine o nosso olhar e o nosso agir e no dê sempre e só um olhar fraterno e mãos para repartir. A fé é como “um caminho do olhar, em que os olhos se habituam a ver em profundidade” (Papa Francisco, Lumen Fidei, 30). Mais ainda, a verdadeira fé, “não só olha para Jesus, mas olha a partir de Jesus, e com os seus olhos. A fé é uma participação no Seu modo de ver” (LF 18).
4.S. Bento, Abade, mandou dar um vaso de azeite a um pobre. O único e o último. Mas o monge encarregado da despensa não obedeceu. São Bento zangou-se e atirou o vaso pela janela, que caiu numa rocha e não partiu!
O importante para São Bento era confiar em Deus e não no dinheiro. O que conta é a força da oração que abre os nossos olhos para o irmão, torna as mãos mais generosas e os pés disponíveis para se fazer próximo. “Ora ut laborare possis”: Reza para que possas trabalhar, perdoar, amar …!
Mas mais do que recordar um grande santo do século VI, vale a pena perguntar: o que nos pode ensinar um monge que viveu há cerca de mil e quinhentos anos aos homens e mulheres do século XXI?
À primeira vista, quase tudo parece diferente. Não enfrentamos a queda de um império, mas assistimos ao enfraquecimento de muitas referências que durante séculos estruturaram a sociedade. Vivemos uma crise de confiança nas instituições, uma crescente polarização social e política, guerras às portas e dentro da Europa, incerteza económica, envelhecimento demográfico, desafios tecnológicos inéditos e uma cultura onde a velocidade, o consumo e o imediatismo parecem ocupar o lugar da reflexão e da esperança.
As circunstâncias são diferentes. A inquietação humana, porém, é surpreendentemente semelhante.
São Bento poderia ter optado pelo isolamento ou pela resignação. Em vez disso, escolheu construir. Enquanto muitos lamentavam o fim de uma civilização, ele lançou os alicerces de uma nova.
Enquanto o mundo parecia fragmentar-se, São Bento ensinava a viver em comunidade. Enquanto predominava a violência, educava para a paz. Enquanto muitos destruíam, ele cultivava a vida.
As diferenças entre os séculos VI e XXI são evidentes, mas continuamos a procurar sentido, paz, comunidade, esperança e verdade. S. Bento não tentou conquistar o poder político nem impor reformas através da força. Criou comunidades. Formou pessoas. Educou consciências. E, quase sem o procurar, ajudou a reconstruir a Europa.
5.Registamos três interpelações que nos deixa hoje S. Bento: 1.O desafio à intimidade e familiaridade com a Palavra de Deus e seja a alicerce da vida pessoal, familiar e comunitária; 2.Vivermos como discípulos missionários; 3.Neste tempo difícil, é importante que os cristãos, iluminados pela luz do evangelho, se comprometem na sociedade, na política, nas instituições, levando o sal do evangelho contra a corrupção e ajudando a construir um mundo novo, mais solidário.
Pedimos a intercessão de S. Bento para a nossa Diocese de Bragança-Miranda:
Que S. Bento nos ensine a não dispor de nós mesmos e a não termos uma agenda para defender, mas a entregarmos todas as manhãs ao Senhor o nosso tempo e capacidades, procurando ir ao encontro dos irmãos!
Que S. Bento nos ensine a sermos pessoas de paz e de reconciliação, sinal e instrumento da ternura de Deus, atentos a difundir o bem com paixão e alegria.
Que S. Bento nos ensine a amar Jesus Cristo e nos proteja do mundanismo espiritual que corrompe, levando-nos a abraçar a realidade quotidiana com a confiança de quem crê que nada é impossível a Deus.
Que S. Bento nos ensine a amar o nosso mundo, que reconhecemos visitado todas as manhãs pela presença amorosa de Deus. Ámen!
+Nuno Almeida
Bispo de Bragança-Miranda





