Comunicação de D. Nuno Almeida na Abertura do I Encontro do Acolhimento Familiar no Nordeste Transmontano | Diocese Bragança-Miranda
Centro D. Abílio Vaz das Neves, Macedo de Cavaleiros, 15 de maio de 2026
Saúdo o Sr. Presidente da Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros, Prof. Sérgio Borges; o Sr. Diretor do Centro Regional de Segurança Social do Distrito de Bragança, Dr. Jorge Fidalgo; a Irmã Emília Seixas, Superiora Geral da Congregação das Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado, a quem manifestamos gratidão pela organização deste encontro e pelo precioso trabalho de acolhimento familiar; cumprimento com amizade todas as pessoas e entidades presentes!
1.Não podiam ser mais certeiras as palavras de Tolstoi, em “Anna Karénina”, quando recorda: “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”
A família é um mistério de amor: amor conjugal, maternal, paternal, filial, fraternal, amor dos avós pelos netos e dos netos pelos avós, dos tios pelos sobrinhos, etc. Nada mais constitui, liga, constrói e reconstrói a família senão o amor! De facto, a família deverá ser tecida, “artesanalmente”, pelos fios da conjugalidade, parentalidade e fraternidade.
Na família é decisivo o amor forte, indissolúvel e estável. Um amor com estas características gera esperança e confiança. E a confiança pode gerar comunhão, que é um fator de coesão emocional para a comunidade familiar.
2.Porém, a construção da unidade familiar é uma parte da experiência a construir, pois a família deve igualmente habilitar os seus membros para a aventura da autonomia. A família é um ninho ou regaço, sim, mas deve ser também uma escola de voo. É um porto de abrigo, sem deixar de ser um impulso à navegação em mar aberto. Viver isso com naturalidade, sem ansiedade nem com o peso da culpa, é uma sabedoria que se vai adquirindo. No processo de aquisição desta sabedoria, há três pontos que convém nunca perder de vista. O primeiro é compreender que a família vive numa reconciliação permanente, o que implica uma descoberta e redescoberta permanentes. Não basta o saber do que era: é necessário a disponibilidade para reconhecer o que a cada momento é e que está a acontecer agora. Muito facilmente a família se torna irreconhecível de um dia para outro e os seus membros como que estranhos. A prática da hospitalidade radical que define o amor é, por isso, um trabalho interminável.
Não há alternativa à troca atenta de olhares de uns para com os outros e sempre de coração desarmado, para aprender do outro aquilo que só ele nos pode ensinar. Pensar que os pais conhecem os filhos de uma vez para sempre, ou vice-versa, é um erro grosseiro. O verdadeiro conhecimento é aquele que aceita confrontar-se com o desconhecido que imediatamente não vemos, mas que está lá.
3.É preciso desconfiar dos automatismos. Todas as famílias (felizes ou infelizes que se sintam) precisam de aprofundar competências. E esta exigência acompanha-as até ao fim. Por exemplo, a transferência das culpas é uma cortina que não permite perscrutar o nó do problema, nem detetar a armadilha dessa dor, que é, no fundo, a ilusão de que se sabe automaticamente resolver os desafios que se colocam à família. Não se sabe. E a consciência desta ignorância é mais fecunda do que se supõe. Desperta, por exemplo, a atitude da atenção e da escuta, nas quais está o primeiro passo para a resolução dos conflitos. Sensibiliza para a necessidade de procurar ajuda sempre que é necessário.
4.Há que valorizar o papel da esperança. Uma família é uma construção assumidamente colaborativa, fruto da cooperação dos seus membros, no sentido que depende de todos no aqui e no agora. Mas é uma história maior do que aquela que o presente histórico pode decidir. O modo original como cada geração interpreta as raízes ou a direção surpreendente que empresta ao próprio florescer mostram como a família é sobretudo um fruto da esperança. A felicidade da família depende sempre do investimento em esperança que está disposta a realizar.
A vida cristã está inevitavelmente “obrigada” a ser testemunho da Esperança e da Confiança.
É possível ser testemunhas de esperança e confiança se cultivarmos a “arte cristã de amar”.
5.Como Igreja e para sermos testemunhas e semeadores de esperança e de confiança, em cada dia, procuremos, antes de mais, contemplar com fé e gratidão Jesus Cristo e o seu modo de parar, olhar, falar, servir, descobrindo que o Seu primeiro olhar se dirige ao sofrimento, manifestando amor: como misericórdia que cura, perdão dos pecados, ternura que acompanha, diálogo que devolve dignidade, acolhimento de quem está à margem. A sensibilidade radical de Jesus para com o sofrimento humano carateriza o seu modo de viver, servir e amar até ao fim.
Para sermos testemunhas e semeadores de esperança e de confiança, a aprendamos de Jesus a viver um amor que está atento, que se inclina, se ocupa, carrega e se doa sem reservas até ao fim.
6.Temos uma imensa necessidade de pessoas servidoras; hoje mais que ontem. Estamos cada vez mais inundados por sofrimento psíquico, moral e espiritual, mas o terreno não consegue absorver esta água porque são demasiado poucas as pessoas capazes de compaixão, e menos ainda aquelas que servem com perseverança. São, no entanto, estas que mudam radicalmente a qualidade moral dos lugares onde vivem. Basta, por vezes, uma única pessoa realmente servidora para melhorar uma comunidade inteira.
7.Para que tudo isto aconteça é decisivo escutarmos juntos, e em todos os momentos da vida, a Palavra de Deus, principalmente nas ocasiões importantes da vida pessoal e familiar, deixando-nos “visitar”, como Maria, pela Palavra, (cf. Lc 1, 26-38) para que ela nos envolva e nos converta.
Trata-se de procurar ouvir a Palavra de Deus juntamente com os que fazem parte da nossa família, deixando que dê sentido à vida, para que sejam vividas com beleza as circunstâncias festivas e enfrentados com coragem os momentos de prova e sofrimento. Como é importante colocar-se ao redor da Palavra de Deus, para que como que como cristãos sejamos “profetas de sentido e inimigos do absurdo” (Paul Ricoeur), semeadores, anunciadores e testemunhas da Esperança!
Ao reunirmos para a escuta da Palavra e para que a Palavra se faça vida e a nossa vida se faça Palavra, descobrimos a verdade das afirmações do Papa Francisco: «A Palavra possui, em si mesma, uma tal potencialidade, que não a podemos prever. [...]. A Igreja deve aceitar esta liberdade incontrolável da Palavra, que é eficaz a seu modo e sob formas tão variadas que muitas vezes nos escapam, superando as nossas previsões e quebrando os nossos esquemas» (EG 22).
Conclusão
Permanecem incisivas e oportunas as palavras do Papa Francisco pronunciadas, em 2022, no Encontro Mundial das Famílias: “Ao afirmarmos a beleza da família, sentimos mais do que nunca que devemos defendê-la. Não permitamos que seja inquinada pelo veneno do egoísmo, do individualismo, da cultura da indiferença e do descarte, e perca assim o seu “DNA” que é o acolhimento e o espírito de serviço. Os traços próprios da família: o acolhimento e o espírito de serviço dentro da família”.
À Sagrada Família de Nazaré, confiamos a nossas famílias de acolhimento e aquelas que poderão vir a ser:
Protege, Santa Família de Nazaré, as nossas famílias,
Todos os casais, os filhos e os pais,
E enche de alegria, mais, mais e mais,
Todos os seus dias, manhãs, tardes, noites e vigílias.
Vela, Santa Família de Nazaré, por cada criança,
por cada mãe, por cada pai, por cada irmão,
A todos os velhinhos, Santa Família de Nazaré, dai a mão,
e deixai em cada rosto um afago de esperança. Amén!
+Nuno Almeida
Bispo de Bragança-Miranda





