Homilia de D. José Cordeiro na Missa Solene e Erecção em Priorado Simples do Mosteiro Trapista de Santa Maria Mãe da Igreja | Diocese Bragança-Miranda
Silêncio futurante
Anunciação do Senhor, Mosteiro Palaçoulo, 25.03.2026
- Luz pascal
Celebramos hoje a solenidade da Anunciação do Senhor, um raio de luz no deserto teológico quaresmal para nos fazer refletir, mais uma vez, sobre o mistério imenso do Deus que se faz homem para nossa salvação.
O autor do livro do Deuteronómio coloca Moisés a perguntar ao povo hebreu: «que grande nação tem um deus tão próximo de si como o Senhor, o nosso Deus, está próximo de nós sempre que o invocamos?». Esta passagem já revela a singularidade do nosso Deus: um Deus que escolhe um povo para si, para que este povo seja fermento, pelo seu modo de vida, para todos os outros povos.
Mas na Encarnação do Verbo, Deus dá um passo mais: Deus não está apenas próximo de nós; Ele está no meio de nós, Ele faz-se um de nós.
Esse acontecimento é anunciado a Maria, escolhida para mãe do Messias, e celebrar a Anunciação é celebrar um Deus que quer entrar na história humana, mas que não o faz de forma espetacular, porque escolhe uma jovem de uma pequena cidade, falando com ela na simplicidade de uma casa e no quotidiano de uma vida, nem de forma mágica, porque Deus não aparece do nada; antes escolhe nascer, crescer e aprender a viver, tal como aconteceu com qualquer um de nós. Torna-se em tudo igual a nós, exceto no pecado.
2. Fiat
Assim, o nosso Deus convive bem com tudo aquilo que é humano, quer sejam as nossas capacidades, quer sejam as nossas fragilidades, porque não as evitou, convivendo até com a nossa dúvida, tal como aconteceu com Maria, «como será isto, se eu não conheço homem?», dando-nos tempo para aprendermos a confiar e podermos dizer “faça-se em mim segundo a tua palavra”.
A atitude de Maria faz dela o exemplo do discípulo: Ela aceita deixar de lado os seus planos, sair da rotina, deixar aquilo que é seguro, para se abrir àquilo que Deus tem pensado para Ela.
Há um provérbio popular que sabiamente diz: «se queres fazer rir Deus, conta-lhe os teus planos». Deixar-se guiar por Deus, abandonar-se aos seus planos e confiar, é aquilo que Maria nos ensina e que somos convidados a imitar. Por vezes, não percebemos bem onde Deus nos chama; noutras ocasiões, o que Ele pede pode parecer imenso. Contudo, em nenhum momento Ele nos deixa desamparados.
Por isso, «Maria é a flor aberta, por isso o Senhor veio, pintou e bordou, fez nela as maravilhas» (Adélia Prado).
3. Sem o silêncio não há realização plena
A presença mariana mostra-se aqui no esperançoso Mosteiro Trapista de Santa Maria, Mãe da Igreja. Há dez anos que começo este “sonho de Deus”, com uma peregrinação da querida Diocese de Bragança-Mirada a Roma, por ocasião do Ano Santo da Misericórdia e com uma ida ao Mosteiro de Vitorchiano.
Na conclusão da anunciação a Maria, o mensageiro celeste retira-se em silêncio. Este silêncio é futurante em Maria para toda a humanidade, como escreveu o P. David Maria Turoldo: «Como podemos cantar-Te, ó Mãe, sem perturbar a tua santidade, sem ofender o teu silêncio? (...) Eu acredito que o ser humano não pode realizar-se plenamente sem o silêncio e a oração». Então, podemos dizer que o mosteiro de Santa Maria, Mãe da Igreja, de Palaçoulo é uma “catedral do silêncio”
O silêncio contemplativo é criativo e sinal grande de sabedoria: «quem por ela madruga não terá grande trabalho, pois encontrá-la-á junto à porta da sua casa» (Sb 6, 14). De facto, como transmitiu um Monge trapista: «que mais procuro senão este silêncio, esta simplicidade, este viver juntamente com a sabedoria?» (Thomas Merton).
Neste lugar único aprende-se a Páscoa, celebrando e mostrando os mistérios de Jesus Cristo, nossa Páscoa e nossa Paz. Aqui é um oásis de silêncio. De facto, experimentamos um silêncio ativo, orante, humilde e futurante.
Não sejamos escravos do urgente, mas servidores criativos da prioridade de Deus em cada dia.
+José Manuel Cordeiro
Arcebispo Metropolita de Braga





