«O escândalo de um Deus “imperfeito”» | Opinião do Pe. Manuel Ribeiro | Diocese Bragança-Miranda
Os “defeitos” de Jesus como caminho de plenitude
Há frases que parecem blasfémia e são, afinal, revelação. Dizer que Jesus era “cheio de defeitos” é uma delas. Não defeitos morais, não falhas de carácter, mas a fragilidade escolhida de quem recusou esconder-Se atrás da omnipotência. O verdadeiro escândalo cristão não é que Deus Se tenha feito homem. É que, feito homem, não tenha fugido à dor, ao medo, ao cansaço, à lágrima. A fé começa aqui: num Deus que não teve vergonha da nossa condição.
Inventámos um Deus perfeito para não termos de O encontrar na vida real. Liso, distante, inatingível. Um Deus sem feridas, para não termos de tocar as nossas. Mas o Deus do Evangelho tem mãos marcadas, voz cansada, joelhos dobrados no pó. A perfeição que Lhe atribuímos afastou-O. A humanidade que Ele assumiu tornou-O próximo. Deus não desceu à terra para nos impressionar. Desceu para nos acompanhar.
Jesus não foi invencível. Chorou diante do túmulo do amigo. Suou sangue na noite do medo. Gritou o abandono na cruz. Conheceu a solidão, a incompreensão, o fracasso aparente. E foi aí, onde tudo parecia quebrar, que Deus Se revelou inteiro. A força de Cristo não foi vencer a fragilidade. Foi habitá-la até ao fim.
O primeiro “defeito” de Jesus foi amar sem medida. Num mundo que negocia afectos, Ele ofereceu-Se sem garantias. Tocou o impuro. Sentou-Se à mesa com quem não merecia. Perdoou antes do arrependimento. Acreditou mesmo sabendo que seria traído. O Seu amor não é prudente. É perigoso. Porque quem ama assim perde o controlo. E é nessa perda que nasce a esperança.
O segundo “defeito” foi obedecer. Num tempo que idolatra a vontade própria, Ele pronunciou as palavras mais difíceis: “faça-se a Tua vontade”. Não resignação, mas entrega lúcida. Não submissão, mas confiança. A liberdade de Cristo não foi fazer o que queria. Foi querer o que O conduzia à vida, mesmo quando doía. Obedecer não O diminuiu. Tornou-O plenamente livre.
O terceiro “defeito” foi parar. Quando todos corriam, Ele retirava-Se. Quando todos falavam, Ele fazia silêncio. Quando todos exigiam resultados, Ele rezava. Oração não como fuga, mas como resistência. No deserto, longe dos aplausos, Jesus reconfigurava o mundo por dentro. Hoje, numa civilização intoxicada de ruído, quem não sabe parar já não sabe amar.
Outro “defeito” foi cuidar dos pequenos. Não construiu palcos. Construiu encontros. Não procurou multidões. Procurou pessoas. Tocou feridas que ninguém queria ver. Restituiu rosto aos invisíveis. O Reino não nasceu nos centros de poder, mas nos lugares descartados. E continua a nascer aí.
Mas o maior “defeito” de Jesus foi amar sem defesa. Lavou pés que fugiriam. Amou inimigos que O matariam. Perdoou no instante em que era ferido. A cruz não foi acidente. Foi consequência. Quem ama assim torna-se vulnerável. E, paradoxalmente, é essa vulnerabilidade que salva.
Os “defeitos” de Jesus são o julgamento silencioso do nosso tempo. Vivemos na liturgia da performance, na obsessão da imagem perfeita, na idolatria do controlo. Queremos corpos sem falhas, carreiras sem tropeços, relações sem risco, espiritualidades sem lágrimas. Cristo oferece o contrário: compaixão em vez de eficiência, entrega em vez de autopromoção, silêncio em vez de ruído, fragilidade em vez de blindagem. A Sua imperfeição desmascara a nossa mentira.
Talvez não nos falte fé. Falta-nos coragem para sermos humanos. Preferimos máscaras. Deus escolheu rosto. Preferimos invulnerabilidade. Deus escolheu ferida. Preferimos distância. Deus escolheu proximidade.
No fim, compreender os “defeitos” de Jesus é perceber que o escândalo dos imperfeitos é, afinal, a verdadeira perfeição. Não a perfeição rígida, impecável e distante que inventámos para nos proteger, mas a perfeição viva de quem aceita ser humano até ao fim. Cristo não veio mostrar-nos como ser impecáveis. Veio mostrar-nos como ser inteiros.
A humanidade de Jesus não foi obstáculo à redenção. Foi o seu método. Foi na carne vulnerável, na emoção exposta, na relação aberta, no cuidado concreto, que Deus revelou o melhor de nós mesmos. Ao assumir a fragilidade, Cristo tornou possível a emergência do melhor eu, a construção de uma identidade reconciliada, de um carácter amadurecido, de uma liberdade que não foge da responsabilidade.
Se Deus não teve medo de ser frágil, porque continuamos nós a fugir da nossa fragilidade?
Talvez porque ser frágil exige verdade. E a verdade exige conversão. Metanoia. Mudança de mente, de coração, de direcção. Não uma mudança superficial, mas a lenta aprendizagem de sermos mais humanos, mais presentes, mais abertos ao bem, mais disponíveis ao outro. É aí que nasce o coração capaz de construir comunidade. É aí que começa uma sociedade com rosto humano.
O mundo não será transformado por heróis de vitrina, mas por pessoas que ousam viver sem armadura, amar sem cálculo, cuidar sem reserva, esperar mesmo feridas. Pessoas que fazem da sua fragilidade lugar de encontro, e não de fuga. Pessoas que, tocadas pelo modo humano de Deus, se tornam presença luminosa no meio do real.
No escândalo de um Deus imperfeito, descobrimos o caminho da nossa própria plenitude. E compreendemos, enfim, que só quem aceita ser humano até ao fim pode ajudar o mundo a tornar-se mais humano.





