Nota Pastoral «Dom da Caridade e mistério de eterna Vida» | Diocese Bragança-Miranda
Dom da caridade e mistério de eterna Vida
«Eu sou a ressurreição e a vida ... Acreditas nisto?» (cf. Jo 11, 1-44).
Introdução
A terceira e última etapa do nosso projecto pastoral trienal - Por Cristo, com Cristo e em Cristo - é dedicado à Eucaristia, dom da Caridade e mistério de vida eterna. «Acreditas nisto?» (Jo 11, 26).
Assim, estamos convidados a fixar os nossos olhos em Jesus Cristo, a verdadeira vida eterna. Com efeito, «A vida eterna é esta: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo» (Jo 17,3).
A grande Tradição da Igreja ensina-nos: «Reuni-vos todos, em particular e em comum, na graça e na única fé em Jesus Cristo, descendente de David segundo a carne, filho do homem e filho de Deus, para obedecerdes em harmonia de sentimentos ao bispo e ao presbitério, partindo o mesmo pão, que é remédio de imortalidade, antídoto para não morrermos, mas nos faz viver, em Jesus Cristo, para sempre» (S. Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 20, 2).
A frase bíblica que nos serve de guião é: «Eu sou a ressurreição e a vida... Acreditas nisto?» (cf. Jo 11, 1-44), dita por Jesus no acontecimento da ressurreição de Lázaro e rezada no prefácio do V Domingo da Quaresma no Ano A: «Como verdeiro homem Ele chorou pelo seu amigo Lázaro; como Deus eterno, ressuscitou-o do túmulo; compadecido da humanidade, fez-nos passar da morte à vida, mediante os sacramentos pascais». «Acreditas nisto?» (Jo 11, 26).
Tudo converge para a expressão “Eu sou” de Jesus Cristo, que nos dois anos anteriores vimos como mistério da água, “fonte de água viva”, e como mistério da luz, “luz do mundo” e agora como “Vida eterna”. «Acreditas nisto?» (Jo 11, 26).
O Mistério da vida eterna é a vida do Eterno. Por isso, tão bem escreve Santo Agostinho no livro das Confissões: «Então, como Vos hei-de procurar, Senhor? Quando Vos procuro, meu Deus, busco a vida eterna. Procurar-Vos-ei, para que a minha alma viva. O meu corpo vive da minha alma e esta vive de Vós».
É igualmente de enorme incentivo a exortação do Papa Francisco em ordem à JMJ 2022 em Lisboa: «Se tu perdeste o vigor interior, os sonhos, o entusiasmo, a esperança e a generosidade, Jesus apresenta-se diante de ti tal como se apresentou diante do filho morto da viúva e, com todo o seu poder de Ressuscitado, exorta-te: “Jovem, Eu te ordeno, levanta-te!” (Lc 7, 14)».
Durante este ano litúrgico e pastoral realizar-se-á o 52º Congresso Eucarístico Internacional em Budapeste, de 13 a 20 de setembro de 2020. O Congresso tem como tema: «Todas as minhas fontes estão em Ti» (Sl 87,7). A Eucaristia, fonte da vida e da missão da Igreja.
A partir do Salmo 87, que canta com entusiasmo a grandeza de Jerusalém, mãe de todos os povos; o misterioso prodígio da fonte, que é “dançado e cantado” conduz-nos, ao mesmo tempo, ao território bíblico largamente desértico, onde a água faz a diferença entre a vida e a morte. Por isso, as fontes são o sinal da presença de Deus.
A Liturgia, sobretudo a Eucaristia, é apresentada no Concílio Vaticano II como «fonte e vértice da vida da Igreja» (SC 10). E, S. João XXIII gostava de aplicar à Liturgia a imagem da fonte: «ela é como que a fonte da aldeia, na qual todas as gerações vêm beber a água sempre viva e fresca». É também um ponto culminante, porque toda a actividade da Igreja tende para a comunhão de vida com Cristo, sendo na Liturgia que a Igreja manifesta e comunica aos fiéis a obra da Salvação, realizada por Cristo de uma vez para sempre.
O Papa Francisco impele a Igreja para uma cultura eucarística, onde se evidenciem as atitudes: da comunhão, do serviço, da misericórdia: «capaz de inspirar os homens e as mulheres de boa vontade nos âmbitos da caridade, da solidariedade, da paz, da família, do cuidado da criação». A Eucaristia, dom da caridade e mistério de vida eterna santifica a Igreja, ou melhor, “a Eucaristia faz a Igreja e a Igreja faz a Eucaristia”. «Acreditas nisto?» (Jo 11, 26).
1. Eucaristia, dom da caridade e mistério de vida eterna
Jesus deixou-nos três mandamentos inseparáveis: «fazei isto em memória de Mim» (Lc 22,19), «ide, fazer discípulos entre todas as nações e baptizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo» (Mt 28,19) e «amai-vos uns aos outros. Assim como Eu vos amei, também vós deveis amar-vos uns aos outros» (Jo 13,34). A Eucaristia, dom da caridade e mistério de vida eterna, encontra aqui a sua íntima interligação, ou seja, o mandato litúrgico, o mandato missionário e o mandato da caridade completam-se harmonicamente. Palavra e Eucaristia impelem à missão e à caridade. A relação celebração-evangelização-vida é dinâmica e conciliatória.
O dinamismo pascal, «depois da gloriosa ascensão de Cristo ao Céu, a obra da salvação continua a realizar-se sobretudo na celebração da liturgia, a qual não sem motivo é considerada o momento último da história da salvação» (Preliminares das Missas da Virgem Santa Maria, 11). É verdade que a Igreja faz a Eucaristia e a Eucaristia faz a Igreja. Celebrar a Eucaristia é, com efeito, reconhecer a centralidade do Senhor quando parte e reparte o pão e para juntos fazermos o mesmo.
A origem da Eucaristia situa-se na última ceia de Jesus com os seus discípulos. Jesus tomou o pão, deu graças a Deus, partiu o pão e deu-o aos seus discípulos, dizendo que o tomassem e comessem, porque aquilo era o seu corpo. Do mesmo modo, depois da ceia, tomou o cálice, deu graças, deu-o aos seus discípulos, dizendo que o tomassem e bebessem, porque aquele era o cálice da aliança no seu sangue. Por fim, Ele disse: «Fazei isto em memória de Mim» (Lc 22,19; 1Cor 11,25b-26). Deste modo, a Eucaristia é a obediência ao mandato de Cristo e a realização daquilo que Ele mesmo fez no cenáculo em Jerusalém.
As narrações do Novo Testamento referentes à Eucaristia na última ceia, descrevem as ações de Jesus que a Igreja deve seguir: 1) tomou o pão; 2) deu graças; 3) partiu-o; 4) deu-o; 5) dizendo...); 6) tomou o cálice; 7) deu graças; 8) deu-o; 9) dizendo.... Este tornou-se o modelo da celebração eucarística.
O pão e o vinho, os elementos constitutivos desta ceia ritual, são especificados pelas duas orações que o acompanham, isto é, a bênção para o pão e a ação de graças para o cálice. Estas orações recitadas por Jesus na ceia são o modelo da oração eucarística ou anáfora da Igreja. Por consequência, «a partir destes dois textos de ação de graças nasceu um desenvolvimento textual, muito complexo, que nos conduz até aos atuais textos anafóricos em uso nos missais das várias Igrejas» (E. Mazza).
No Evangelho de S. João não se narra a instituição da Eucaristia como nos outros evangelhos, mas nos discursos de Jesus durante a última ceia, no gesto do lava-pés aos discípulos e na entrega do mandamento novo do amor «que vos ameis uns aos outros; como vos amei, que também vós vos ameis uns aos outros» (Jo 13, 34) revela o Seu amor total de eterna vida.
Desde os primeiros testemunhos, esta Liturgia foi chamada ‘Eucharistía’, termo grego que significa ‘ação de graças’ e que designa tanto a oração de ação de graças que é recitada, à imitação de Jesus, como o pão e o vinho.
O ponto central e culminante de toda a celebração da Eucaristia é a Oração eucarística, também chamada anáfora ou cânone. É uma oração solene que abrange toda a parte central da Missa desde o diálogo «O Senhor esteja convosco...Corações ao alto...» até à doxologia «Por Cristo, com Cristo e em Cristo...Ámen», antes do Pai-Nosso. Por outras palavras, a anáfora é «uma oração de ação de graças e de consagração» (Instrução Geral do Missal Romano 78 = IGMR). É, portanto, uma oração de ação de graças e louvor ao Pai e, ao mesmo tempo, é uma súplica pronunciada sobre o pão e o vinho, dentro da qual se repete e reatualiza o que Jesus mandou fazer.
Neste momento da liturgia eucarística, «O sacerdote convida o povo a elevar os corações para o Senhor, na oração e na ação de graças, e associa-o a si na oração que ele, em nome de toda a comunidade, dirige a Deus Pai por Jesus Cristo no Espírito Santo. O sentido desta oração é que toda a assembleia dos fiéis se una a Cristo na proclamação das maravilhas de Deus e na oblação do sacrifício» (IGMR 78).
Os elementos em que se articula a Oração eucarística são dez: 1) Diálogo inicial; 2) Ação de graças (Prefácio), onde se enunciam as grandes obras de Deus, motivo da nossa gratidão; 3) Aclamação (Santo); 4) Primeira Epiclese (Invocação do Espírito Santo sobre os dons do pão e do vinho, para que sejam transformados em sacramento de salvação); 5) Narração da ceia (palavras e gestos de Cristo na última ceia, origem da celebração eucarística); 6) Anamnese (memória da paixão, morte, ressurreição e ascensão de Cristo, eventos fundamentais do mistério da salvação); 7) Oblação (oferecimento de Cristo e dos fiéis); 8) Segunda Epiclese (uma invocação para a unidade e a santificação daqueles que comungam; 9) Intercessões (comunhão com toda a Igreja do Céu e da terra, recordando todos os homens); 10) Doxologia final (glorificação de Deus trino concluída com o ámen).
No Prefácio da Liturgia no rito romano concentra-se toda a Eucaristia, ou seja, a ação de graças. Eucaristia é a atitude peculiar do cristão, como exorta S. Paulo: «...sempre e por tudo dando graças a Deus, o Pai, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo» (Ef 5,20). O texto do Prefácio, na sua parte introdutória, evoca este mesmo sentir: «Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte».
Com a reforma litúrgica operada pelo II Concílio do Vaticano, a Liturgia romana passou a contar com quatro orações eucarísticas ou anáforas, enumeradas de I a IV; uma V anáfora, com um texto fixo e uma parte variável, subdividida em quatro (A a D), aprovada em 8 de Agosto 1974 para o Sínodo da Suíça; duas anáforas da Reconciliação (Ano Santo de 1975) e três anáforas para a Missa com as crianças, promulgadas a 1 de Novembro de 1974.
A Oração eucarística I, conhecida por Cânone romano, insiste na ideia do oferecimento dos dons e no pedido feito a Deus para que os aceite em nosso benefício. Os diversos elementos que a compõem têm características especiais, não sendo facilmente percetível a unidade e a sequência lógicas das ideias. Esta oração existia já no princípio do século V e, com o tempo, chegou a ser o único cânone da Igreja latina até à reforma litúrgica.
A anáfora II é a mais breve e aquela que apresenta os conceitos mais simples. O seu estilo inspira-se na anáfora da Traditio Apostólica, datada do século III.
A anáfora III é clara na sua estrutura, concebida de modo a poder ser usada com qualquer dos prefácios.
A anáfora IV apresenta uma síntese da história da salvação, segundo o modelo da tradição da Igreja de Antioquia. O texto desta oração eucarística é o mais teológico de todo o missal romano.
Todas as anáforas culminam com a doxologia, que é sempre a mesma «Por Cristo, com Cristo, em Cristo, a Vós, Deus Pai todo poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória agora e para sempre». Esta proclamação trinitária, glorificando o Nome divino, resume todos os temas da anáfora. Tudo é dirigido ao Pai. A honra e a glória devem-se ao mistério cristológico. Na unidade do Espírito Santo, porque todo o culto é em Espírito e verdade e, ainda, porque a unidade de Deus em nós se realiza mediante o mesmo Espírito. A força das preposições «por, com, em», salientam o cristocentrismo total da celebração sacramental e da vida cristã.
2. Eucaristia e Igreja, Sacramentos da Comunhão.
A Igreja não vive a partir de si mesma, mas a partir da Eucaristia, que gera a comunhão: «A Igreja, ou seja, o Reino de Cristo já presente em mistério, cresce visivelmente no mundo pelo poder de Deus. Tal começo e crescimento exprimem-nos o sangue e a água que manaram do lado aberto de Jesus crucificado (cf. Jo 19,34), e preanunciam-nos as palavras do Senhor acerca da Sua morte na cruz: “Quando Eu for elevado acima da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32). Sempre que no altar se celebra o sacrifício da cruz, na qual “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado” (1 Cor 5,7), realiza-se também a obra da nossa redenção. Pelo sacramento do pão eucarístico, ao mesmo tempo é representada e se realiza a unidade dos fiéis, que constituem um só corpo em Cristo (cf. 1 Cor 10,17). Todos os homens são chamados a esta união com Cristo, luz do mundo, do qual vimos, por quem vivemos, e para o qual caminhamos» (Lumen Gentium 3).
Santo Agostinho, ao definir a Eucaristia como sinal de amor e vínculo da unidade, fez história e encontra-se em toda a tradição posterior, incluindo São Tomás de Aquino, que a constituição sobre a sagrada Liturgia confirmou: «O nosso Salvador instituiu na última Ceia, na noite em que foi entregue, o Sacrifício eucarístico do seu Corpo e do seu Sangue para perpetuar pelo decorrer dos séculos, até Ele voltar, o Sacrifício da cruz, confiando à Igreja, sua esposa amada, o memorial da sua morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é concedido o penhor da glória futura» (Sacrosanctum Concilium 47).
A narração da última ceia ligada ao lava-pés encontra-se apenas no evangelho de João. Todavia, o contexto da última ceia e o sublinhar do exemplo de humildade e de amor serviçal dado por Jesus reenvia-nos ao evangelho de Lucas e à exortação do próprio Jesus acerca do poder e do serviço: «24Levantou-se entre eles uma discussão sobre qual deles devia ser considerado o maior. 25Jesus disse-lhes: “Os reis das nações imperam sobre elas e os que nelas exercem a autoridade são chamados benfeitores. 26Convosco, não deve ser assim; o que fôr maior entre vós seja como o menor, e aquele que mandar, como aquele que serve. 27Pois, quem é maior: o que está sentado à mesa, ou o que serve? Não é o que está sentado à mesa? Ora, Eu estou no meio de vós como aquele que serve”» (Lc 22, 24-27).
São João atribui expressamente ao lava-pés realizado por Jesus o significado da humildade a imitar pelos discípulos (cf. Jo 15, 12 e 13). Mas o fundamento de tudo é o amor: «Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo» e ainda mais claramente a seguir Jesus deixa o mandamento novo: «é este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei» (Jo 15,12).
O lava-pés não é, com efeito, «um sacramento particular, mas significa a totalidade do serviço salvífico de Jesus: o sacramentum do seu amor, no qual Ele nos imerge na fé e que é o verdadeiro lavacro de purificação do homem» (Bento XVI). Jesus é mestre no servir e interpela-nos a fazer o mesmo. «Jesus não fala, quando se ajoelha diante dos discípulos para lhes lavar os pés. O seu acto vale pela palavra: o seu acto faz corpo com a sua palavra ou a sua palavra faz corpo com o seu acto. O seu acto é palavra» (José A. Mourão).
A Igreja recebeu a Eucaristia do Senhor Jesus Cristo como o dom por excelência, porque é dom d’Ele mesmo e, por isso, é verdadeiramente o mistério da fé e o sacramento do mistério da Páscoa. Em S. Paulo (cf. Ef 1, 4-12; 3, 1-13), o mistério de Cristo indica o plano divino da salvação, cujo ponto central é o mistério da Páscoa.
Esta mesa de peregrinos conduz-nos ao banquete do Reino: «felizes os convidados para a ceia do Senhor». Assim o repetimos em cada celebração da Eucaristia lugar onde somos alimentados pelo corpo de Cristo e onde se manifesta visivelmente a unidade do Povo de Deus.
S. Cirilo de Jerusalém, no séc. IV, numa catequese mistagógica, dizia ao explicar a comunhão: «Depois disto, o pontífice diz: As coisas santas aos santos. As coisas santas são as oferendas colocadas no altar e que receberam a vinda do Espírito Santo. Santos sois também vós, julgados dignos do Espírito Santo. As coisas santas convêm, portanto, aos santos. Em seguida, dizeis: Um só é o Santo, um só o Senhor, Jesus Cristo. Na verdade, Ele é o único santo por natureza; nós, ao contrário, não o somos por natureza, mas por participação, pelas obras e pela oração. Ouvis, em seguida, a voz do cantor, convidando-vos, com uma melodia divina, à comunhão dos santos mistérios e dizendo: provai e vede como o Senhor é bom».
O sentido originário é, como diz santo Ambrósio: «Beijamos a Cristo com o ósculo da comunhão... Não se trata do ósculo dos lábios, mas do coração e da alma».
A fonte da santidade e da comunhão dos santos é a Trindade, o Deus três vezes santo; como rezamos na Oração eucarística II: «Vós, Senhor, sois verdadeiramente santo, sois a fonte de toda a santidade». A Liturgia é capaz de narrar num espaço celebrativo concreto o espaço prometido. O espaço, o tempo, o corpo, os gestos e as palavras traduzem a santidade de Deus no aqui e agora da história e chamam-nos à comunhão possível até que um dia seja plena.
3. O Pai-Nosso, oração para a eterna vida
No percurso da Iniciação Cristã, a entrega do Pai-Nosso significa o novo nascimento para a vida divina e é mais que uma oração, porque é o «resumo de todo o Evangelho» (Tertuliano).
Também, todas as vezes que celebramos a Eucaristia, rezamos a oração dominical, porque foi o Senhor nos ensinou (cf. Lc 11,1), situada entre a Oração eucarística e o rito da comunhão. Inspirando-nos no catecumenado, propomos a redescoberta e o aprofundamento da oração do Pai-Nosso.
De facto, a nossa autenticidade de filhos de Deus induz-nos e compromete-nos a «nada fazer, dizer, pensar que quebre a unidade fraterna; tudo fazer, suportar, sofrer para promover a comunhão» (A. M. Cànopi, OSB).
A nossa ousadia filial ao dizer “Pai-Nosso” manifesta a confiança e a certeza de sermos amados. Na grande novidade de Jesus ao revelar e chamar a Deus, Pai, inspira-nos o desejo e a vontade de nos parecermos com o Pai, tendo um coração humilde e confiante.
Santo Isidoro de Sevilha, referindo-se à conformação do sacramento da Eucaristia com a oração do Pai-Nosso, dizia: «esta oração, como escreveram os Santos Padres, tem sete petições: nas três primeiras pedem-se coisas eternas; nas quatro a seguir, coisas temporais, mas que se pedem, no entanto, para alcançar as eternas».
A Eucaristia torna-se a recordação ou anamnese do dom da fé, da esperança e da caridade, isto é, o mistério da Morte e Ressurreição de Cristo e profecia da sua última vinda, como se aclama na liturgia: «Anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição. Vinde Senhor Jesus», confirmando o mistério da vida eterna.
Conclusão
Para este ano litúrgico e pastoral, gostaríamos de sublinhar algumas sugestões que já foram feitas no Ano da Eucaristia 2004/2005, com estas propostas pastorais práticas:
- celebrar bem, com arte e com alma, a Eucaristia; a Eucaristia dominical tenha o lugar central que lhe pertence na vida de fé e oração dos fiéis e das comunidades paroquiais das Unidades Pastorais;
- promover a participação das Pessoas com Deficiência na Igreja diocesana, propiciando a relação pessoal com Jesus Cristo na catequese e na celebração dos sacramentos;
- verificar e incrementar a regularidade e dignidade do levar a Comunhão aos doentes;
- dar a conhecer a doutrina da Igreja sobre o Viático;
- nde for necessário, reordenar de modo estável os lugares da celebração (altar, ambão, presbitério) e da reserva da Eucaristia (sacrário, capela de adoração);
- dotar dos livros litúrgicos os lugares de culto que ainda estão em falta;
- cuidar a autenticidade, a limpeza e a beleza dos sinais (vestes, vasos sagrados, utensílios);
- fortalecer a equipa litúrgica paroquial e da Unidade Pastoral;
- cuidar a formação dos ministros extraordinários da sagrada Comunhão, do grupo coral...;
- programar em certos períodos do ano, por exemplo, no Tempo pascal, na Quaresma..., encontros formativos específicos sobre a Eucaristia na vida da Igreja e do cristão. Uma ocasião muita propícia, para adultos e adolescentes, poderia ser o tempo de preparação para a Primeira Comunhão;
- conhecer e aprofundar a Instrução Geral do Missal Romano;
- educar como “comportar-se na igreja”: o que fazer, quando se entra nela; genuflexão ou inclinação profunda diante do Santíssimo Sacramento; clima de recolhimento; indicações para favorecer a participação interior durante a Missa, especialmente em certos momentos (tempos de silêncio, de oração pessoal depois da Comunhão) e para educar à participação exterior (modo de aclamar ou pronunciar juntos as partes comuns);
- comemorar convenientemente o aniversário da dedicação da santa igreja catedral e de cada igreja, conforme o Calendário Próprio da nossa Diocese;
- redescobrir a igreja catedral e a igreja paroquial, conhecendo o sentido do que habitualmente se vê nela: leitura guiada do altar, ambão, tabernáculo, iconografia, vitrais, portais, etc. O visível da Igreja favorece a contemplação do Invisível;
- promover, inclusive indicando as modalidades práticas, o culto eucarístico e a oração pessoal diante do Santíssimo Sacramento: visita, adoração do Santíssimo Sacramento e bênção eucarística, Vinte e Quatro Horas na Quaresma, procissões eucarísticas; valorizar, de forma conveniente, o prolongar-se da adoração eucarística depois da Missa da Ceia do Senhor na Quinta-Feira Santa;
- propor, em circunstâncias especiais, iniciativas específicas de adoração do mistério eucarístico (adorações diurnas e noturnas);
- Consolidar a lectio e a adoratio divinas com os adolescentes e os jovens;
- Festejar e consciencializar a celebração da primeira comunhão das crianças no percurso da Iniciação Cristã, qual fundamento de uma vida nova, pessoal e comunitária.
A Eucaristia, dom da Caridade e mistério de vida eterna, interpela diretamente também os santuários, lugares já por si chamados a oferecer abundantemente aos fiéis os meios da salvação, anunciando com zelo a Palavra de Deus, favorecendo convenientemente a vida litúrgica, especialmente com a celebração da Eucaristia e a celebração da Penitência, bem como cultivando formas aprovadas de piedade popular. Sendo a celebração eucarística o suporte da múltipla ação dos santuários (catequese, culto, caridade e cultura), será frutuoso: levar os peregrinos – partindo da peculiar devoção do santuário – a um profundo encontro com Cristo; cuidar da celebração exemplar da Eucaristia; encorajar e cuidar a prática do sacramento da Penitência, assegurando, segundo as possibilidades, a disponibilidade de confessores em horários úteis para as pessoas.
A celebração da Eucaristia prolonga-se na vida e na adoração eucarística com o culto eucarístico fora da Missa. Porque não promover em cada domingo a adoração eucarística comunitária nas nossas comunidades eclesiais? Porque não criar um lausperene eucarístico diocesano com todas as Paróquias e comunidades nas Unidades Pastorais?
Da celebração à adoração e à caridade gratuita na vida é o percurso da nossa fé, como costumava dizer um jovem que morreu aos 24 anos, o Beato Pier Giorgio Frassati (1901-1925): «Jesus visita-me todas as manhãs na comunhão e eu retribuo do mísero modo que posso, visitando os pobres».
Damos graças por todos vós: «Recordamos a actividade da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança em Nosso Senhor Jesus Cristo, na presença de Deus, nosso Pai» (1 Tes 1, 3) e o Senhor vos abençoe na Sua Paz e interceda por todos a Bem-Aventurada Virgem Maria da Assunção nos caminhos da vida eterna.
Vila Flor, 30 de novembro de 2019, Festa de S. André, Apóstolo.
+ José Manuel Garcia Cordeiro
Bispo de Bragança-Miranda
------------------------------
Fotografia: Bruno Luís Rodrigues/SDCS.





