Missa Vespertina da Ceia do Senhor | Diocese Bragança-Miranda

Catedral, 25.03.2016

1. Eucaristia, o sacramento dos sacramentos

O Tríduo Pascal da Paixão e da Ressurreição do Senhor, ponto culminante de todo o Ano litúrgico, inaugura-se com esta Missa da Ceia do Senhor, tendo o seu centro na Vigília Pascal e termina com as Vésperas e a eucaristia do Domingo da Ressurreição, aqui na Catedral.

            O significado teológico dos três dias é realçado pelo Catecismo da Igreja Católica, nestes termos: «Partindo do Tríduo pascal, como da sua fonte de luz, o tempo novo da Ressurreição enche todo o ano litúrgico da sua claridade. Ininterruptamente, dum lado e doutro desta fonte, o ano é transfigurado pela liturgia. É realmente “ano da graça do Senhor”» (n. 1168). E, a seguir, acrescenta: «É por isso que a Páscoa não é simplesmente uma festa entre outras; é a “festa das festas”, “solenidade das solenidades”, tal como a Eucaristia é o sacramento dos sacramentos (o grande sacramento). Santo Atanásio chama-lhe “o grande Domingo”, tal como a semana santa é chamada no Oriente “a semana maior”» (nn. 1168-1169).

2. Memória, anúncio e serviço

A Liturgia de hoje apresenta-nos três narrativas acerca da Eucaristia: a ceia pascal do Êxodo da libertação dos filhos de Israel, a primeira carta aos Coríntios, o texto mais antigo sobre a Eucaristia; e o episódio do lava-pés dos apóstolos por Jesus, o Mestre e Senhor que se faz servidor da humanidade.

A Eucaristia ocupa o primeiro lugar na liturgia dos sacramentos, porque ela «é imitação da última ceia e esta é figura e anúncio da paixão: trata-se de dois dados constantes nas orações eucarísticas da Igreja das origens. Os mesmos dados conduziram a reflexão dos padres da Igreja dos primeiros quatro séculos» (E. Mazza).

A memória é uma estrutura celebrativa de fundamento bíblico que passou à celebração cristã. O modelo da Eucaristia recorre a esta categoria de memorial – «fazei isto em memória de mim» (Lc 22,19; 1Cor 11,25b-26) – surgindo como o elemento estrutural da narração da instituição realizada por Jesus na noite da última ceia e dadas como um mandamento aos seus discípulos. Ao agregar estas palavras à narração da ceia, a Oração eucarística torna-se uma declaração de querer realizar o que Jesus disse para fazer, uma menção explícita à sua memória, qual presença sacramental permanente de Cristo.

Hoje, quando visitamos a Terra Santa, vamos ao lugar do cenáculo, quer dizer, a sala da ceia ou a sala de jantar, onde terá acontecido a última ceia e a vinda do Espírito Santo sobre Maria e os Apóstolos.

A Eucaristia é, pois, a obediência ao mandamento de Cristo de fazer o que Ele mesmo fez, conforme as quatro tradições neotestamentárias (Mc 14,22-24; Mt 26,26-28; Lc 22,17-20; 1Cor 11,23-25), tornando-se a anamnese do mistério da fé, isto é, o mistério da morte e Ressurreição de Cristo, como se aclama na liturgia: «Anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição. Vinde Senhor Jesus».

S. Paulo acrescenta a dinâmica evangelizadora da Eucaristia: «Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha». 

3. A nova e eterna Misericórdia

O gesto do lava-pés é um serviço que tem de ser interpretado pelas próprias palavras de Jesus: «Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também». Jesus diz que temos de ser servos uns dos outros e que ninguém se torne senhor dos outros. No âmago deste gesto de nova e eterna misericórdia está o sentido do amor a todos, especialmente aos que mais sofrem e até aos inimigos.

A partir deste ano e pelo decreto da Congregação para o Culto Divino e a Disciplinas dos Sacramentos, de 06.01.2016, altera-se a prática habitual do gesto do lava-pés, nestes termos: «…pareceu adequado ao Sumo Pontífice Francisco mudar a regra que se lê no Missale Romanum (p. 300, n° 11) que diz: “Os homens designados, conduzidos pelos ministros…” na forma seguinte: “As pessoas escolhidas entre o povo de Deus, conduzidas pelos ministros,…” (e, consequentemente, no Caeremoniale Episcoporum, n° 301 e n° 299b: “assentos para as pessoas designadas”). Deste modo os pastores poderão escolher um pequeno grupo de fiéis que sejam representantes da variedade e da unidade de cada porção do povo de Deus. Tal grupo poderá ser constituído por homens e mulheres, e de modo conveniente, por jovens e idosos, pessoas sãs ou doentes, clero, consagrados ou leigos». 

Hoje, assim faremos nesta celebração. Depois de ter lavado, esta tarde, os pés aos presos na cadeia, realizo agora o mesmo gesto da caridade com algumas famílias da nossa cidade. Permitamos que Jesus nos lave os pés e façamos o mesmo aos irmãos, como peregrinos na santidade.

+ José Manuel Cordeiro