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Homilia de D. Nuno Almeida na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo [1]Qui, 04/06/2026 - 21:42

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1 Dt 8, 2-3.14b-16ª; 1 Cor 10, 16-17; Jo 6, 51-58   Pereira (12h) e Catedral de Bragança (18h)   Homilia Da Eucaristia nasce uma sociedade nova Irmãos e Irmãs! 1.Estamos unidos e reunidos à volta do nosso único Senhor, Jesus Cristo, que por nós parte e reparte a sua vida. Neste dia, da Escuta da Palavra passamos à mais alta contemplação, para a seguir caminharmos, lado a lado e fraternalmente, pelas ruas da nossa terra, guiados pela presença amorosa de Jesus Eucaristia. Faz-nos bem recordar que a Eucaristia não é algo, é Alguém; não é um ritual, mas encontro com Jesus Cristo Vivo. Não é só efeito da obra salvadora de Cristo, mas o próprio Cristo salvador, salvando aqui e agora pelo sacramento. No sacramento, está presente o Cristo total, na totalidade da sua pessoa e na plenitude do Seu mistério pascal. 2.A passagem do Evangelho que temos a graça de escutar neste Dia Grande do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo é retirada do capítulo 6 de João (Jo 6,51-58). A afirmação de Jesus: «Eu sou o pão que desceu do céu», «esse pão é a minha carne», e «dá a vida», contém todos os elementos que importa considerar. Fica claro que «comer o pão descido do céu» é «comer a carne do Filho do Homem», e que as duas expressões são equivalentes de «comer a pessoa» de Jesus, a sua identidade, o seu modo de viver. Só assim, a vida verdadeira, a vida eterna, entra em nós e transforma a nossa vida, configurando-a com a de Jesus. 3.Escutámos também o grande texto de Paulo aos Coríntios 10,16-17, porventura a mais antiga e singela evocação da Eucaristia, que então se chamaria eulogía, isto é, «Bênção». «O cálice da Bênção que Bendizemos não é comunhão (koinônía) no sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão no corpo de Cristo?» (1 Cor 10,16). O texto é singelo, condensado, fortíssimo. A bênção, hebraico berakah, é unitiva. Une, reúne, põe em comunhão. Por aqui se vê bem a energia nova e irreprimível que «bendizer», «dizer bem», comporta. A Eucaristia é, na verdade, esta união ou comunhão entre Deus e o Homem, e de todos os membros da Assembleia cristã e orante entre si. O contrário de «bendizer» é «maldizer», «dizer mal». Bendizer une. Maldizer divide! Como são importantes as advertências do Papa Leão XIV na encíclica Magnifica Humanitas, 214: “O primeiro contributo que podemos dar para uma civilização mais humana é prestar atenção às nossas palavras. «Desarmemos as palavras e contribuiremos para desarmar a Terra». O poder das palavras é enorme e experimentamo-lo na comunicação quotidiana, quando alguém nos diz algo que altera o nosso estado de espírito, para melhor ou para pior. «A paz começa em cada um de nós: na forma como olhamos para os outros, ouvimos os outros, falamos dos outros; e, neste sentido, a forma como comunicamos é de importância fundamental: devemos dizer “não” à guerra das palavras e das imagens, devemos rejeitar o paradigma da guerra».Todos devemos, portanto, fazer um exame de consciência sobre as palavras que usamos, sobre os preconceitos de que estão impregnadas e sobre a agressividade, patente ou latente, que nelas habita. Temos uma possibilidade real de contribuir para o bem sempre que dizemos a verdade, quando damos um conselho sábio, quando apoiamos quem precisa de conforto, quando denunciamos uma injustiça, quando damos voz a quem a não tem.” 4.Como acolher e viver o dom da Eucaristia? Devemos tomar, comer e deixarmo-nos transformar em Jesus. Viver não para nós próprios, mas para que Jesus possa estar, viver e agir em nós e entre nós. No dia a dia, a comunhão deve tornar-se concreta nos relacionamentos sociais, na partilha espiritual, de ações, de bens. Somos chamados a ser “eucaristia”, agindo como pessoas que não se impõem a si próprias, mas se fazem um com todos, sofrem com os que sofrem, alegram-se com os que se alegram, participam na vida, nos problemas, nas lutas, nas alegrias dos outros. Numa contínua doação de amor, somos chamados a fazer ponte entre Jesus e a humanidade a quem Ele continua a dirigir o convite: “Tomai e comei, isto é o meu corpo!”. 5.Voltemos ao Papa Leão XIV, na “Magnifica Humanitas”, que escreve: “O “Amém” que dizemos na liturgia, o Corpo que comungamos e o Sangue que bebemos dão forma a toda a nossa vida. A Eucaristia «é o encontro pessoalíssimo com o Senhor, e, no entanto, não é nunca apenas um ato de devoção individual». Nela manifesta-se que «somos a Igreja de Cristo, somos os membros do seu corpo. N’Ele, somos irmãos e irmãs. E, em Cristo, apesar de muitos e diferentes, somos uma só coisa: In Illo uno unum». A Eucaristia abre-nos à justiça e à partilha, com uma atenção preferencial para com quem carrega o fardo da pobreza e da marginalização. E, enquanto as novas redes económicas e tecnológicas podem gerar exclusão, isolamento e dependências, a Igreja alimentada pela Eucaristia é chamada a mostrar outro critério, preservando os vínculos, devolvendo voz aos que se não veem e orientando os processos para a dignidade das pessoas” (MH 235). Portanto, a Eucaristia deve gerar uma nova sociedade. Os cristãos e as comunidades que, na celebração, vivem uma experiência singular de comunhão com Deus e com os irmãos, sentem-se comprometidos a irradiá-la nos vários âmbitos da convivência humana através: da experiência de fraternidade, do espírito da paz e reconciliação, das atitudes de acolhimento e hospitalidade, do sentido da partilha e solidariedade, do repouso interior, do encontro familiar, da força da esperança, da dimensão festiva da vida. São atitudes humanas profundas que caracterizam uma espiritualidade eucarística e ajudam a construir a civilização da beleza e do amor. Dá-nos, Senhor, um coração novo, capaz de conjugar em cada dia os verbos fundamentais da Eucaristia: RECEBER, BENDIZER e AGRADECER, PARTILHAR e DAR, COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR. Dá-nos, Senhor, um coração sensível e fraterno, capaz de escutar e de recomeçar. Mantém-nos reunidos, Senhor, à volta do pão e da palavra e ajuda-nos a discernir os rumos a seguir nos caminhos sinuosos deste tempo, por Ti semeado e por Ti redimido. Ensina-nos, Senhor, a saber colher o Teu amor, semeado e redentor, única fonte de sentido que temos para oferecer a este mundo de que és o único Salvador. (António Couto)   +Nuno Almeida Bispo de Bragança-Miranda   Fotografia: André Lopes

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