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Homilia de D. Andrés Carrascosa no 25.º aniversário da Dedicação da Catedral [1]Qui, 08/10/2026 - 22:21

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Homilia de D. Andrés Carrascosa, Núncio Apostólico em Portugal no 25.º aniversário da Dedicação da Catedral (Catedral de Bragança, 7 de outubro de 2026)   Queridos irmãos e irmãs, É para mim uma grande alegria estar hoje convosco, nesta Igreja Catedral de Bragança-Miranda, para celebrar os vinte e cinco anos da sua Dedicação. Quero, antes de mais, saudar muito cordialmente o Senhor Bispo, D. Nuno Almeida, e agradecer-lhe o convite e a possibilidade de viver estes dias convosco. Saúdo também os Bispos aqui presentes, os sacerdotes e diáconos, os membros da vida consagrada, os seminaristas, as autoridades civis e militares, os representantes das instituições e, de modo muito especial, todo o povo santo de Deus desta Diocese. Trago-vos a saudação e a proximidade do Santo Padre Leão XIV. O Papa acompanha com a sua oração e a sua solicitude as Igrejas particulares e todos os seus filhos. Nesta celebração, quero fazer chegar a cada um de vós a sua bênção e o seu encorajamento. Hoje não celebramos simplesmente o aniversário de um edifício. Celebramos uma Igreja viva. Há vinte e cinco anos, esta Catedral foi dedicada ao Senhor. Desde então, quantas pessoas aqui entraram! Quantas Eucaristias foram celebradas! Quantos Batismos, Confirmações, Matrimónios, Exéquias e ordenações! Quantos momentos de oração, de silêncio, de adoração e de reconciliação! Quantas lágrimas aqui foram confiadas ao Senhor e quantas alegrias foram apresentadas diante do altar! Esta Catedral guarda, de algum modo, a história espiritual desta Diocese ao longo destes vinte e cinco anos. Mas a Palavra de Deus convida-nos hoje a olhar mais fundo. A verdadeira Igreja não é feita principalmente de pedras: é feita de pessoas. Somos nós as pedras vivas com que Deus constrói a sua Igreja. São Pedro diz-nos na segunda leitura: «Aproximai-vos do Senhor, pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus. E vós também, como pedras vivas, entrai na construção de um edifício espiritual». Eis a pergunta que este aniversário nos coloca: que Igreja estamos a construir? É justo agradecer aqueles que sonharam esta Catedral, aqueles que a construíram, aqueles que a cuidaram e todos os que, ao longo destes anos, lhe deram vida. Mas a Palavra de Deus não nos permite ficar apenas nas pedras. Esta Catedral aponta para outra construção: a comunidade cristã. Uma Catedral é verdadeiramente bela quando nela há homens e mulheres que vivem como irmãos; famílias que rezam e se amam; jovens que encontram uma comunidade que os acolhe e lhes confia uma missão; idosos que se sentem acompanhados e valorizados; pobres que encontram uma casa; pessoas que procuram Deus e encontram uma porta aberta; aqueles que se afastaram e podem regressar sem se sentirem julgados; pessoas que sofrem e encontram consolo. É então que a Catedral se torna verdadeiramente casa de Deus e casa de comunhão. Por isso, celebrar estes vinte e cinco anos não é apenas olhar para o passado. É também perguntar ao Senhor: que Diocese queres que construamos nos próximos vinte e cinco anos? E a resposta começa na nossa vocação baptismal. Todos recebemos no Batismo a mesma dignidade fundamental: fomos incorporados em Cristo, feitos filhos de Deus e membros do seu Corpo, que é a Igreja. Temos vocações diferentes, ministérios diferentes, responsabilidades diferentes, carismas diferentes. Uns são chamados ao sacerdócio, outros à vida consagrada; outros vivem a sua vocação no matrimónio, no celibato ou através do seu trabalho e do serviço à sociedade. Mas todos somos discípulos. Todos somos chamados à santidade. Todos somos enviados. Todos somos pedras vivas. Gostaria, por isso, de deixar hoje três palavras ao coração desta Diocese, que estão no centro da vida da Igreja universal: comunhão, participação e missão. A primeira é comunhão. A Igreja não é uma soma de indivíduos que acreditam cada um por sua conta. Somos um povo, um corpo, uma família. As pedras são diferentes, mas só juntas formam uma construção. Precisamos uns dos outros. Precisamos dos sacerdotes e os sacerdotes precisam do povo de Deus. Precisamos das famílias e as famílias precisam da comunidade. Precisamos dos consagrados e os consagrados precisam das paróquias. Precisamos dos jovens e os jovens precisam de adultos que os acompanhem. Precisamos dos idosos, da sua experiência e da sua sabedoria, e eles precisam da presença e do carinho das novas gerações. Cristo não nos salva isoladamente: reúne-nos no seu Corpo. E este é um desafio particularmente importante no nosso tempo. Vivemos numa sociedade em que podemos estar ligados digitalmente e, ao mesmo tempo, profundamente sós; ter muitos contactos e poucas relações verdadeiras; falar muito e escutar pouco. Por isso, a Igreja é chamada a ser uma resposta à solidão: uma comunidade onde cada pessoa é reconhecida, acolhida e amada. A Diocese recorda-nos que esta Catedral deve ser “casa e escola de comunhão e missão”. Que belo programa para os próximos vinte e cinco anos! Que ninguém possa dizer: «Na Igreja não há lugar para mim». Que ninguém possa sentir: «Ninguém me conhece». Que ninguém possa pensar: «A minha presença não é necessária». Pelo contrário, que cada batizado possa dizer: «Esta é a minha casa; esta é a minha família; esta é a minha Igreja; aqui posso servir o Senhor e os irmãos.» A segunda palavra é participação. São Pedro não diz: “Vós sois pedras vivas para assistir à construção”. Diz: «Vós também, como pedras vivas, entrai na construção de um edifício espiritual.» Não somos espectadores. O Batismo não nos torna simples destinatários da vida da Igreja. Torna-nos participantes da sua missão. Por isso, cada cristão pode perguntar-se: Qual é o meu lugar na Igreja? Qual é o dom que Deus me deu? Onde posso servir? A quem posso anunciar Cristo? Talvez alguém pense: «Eu não tenho grandes capacidades». Mas Deus não pergunta se temos grandes capacidades. Pergunta se estamos disponíveis. Convido-vos a pensar: Uma palavra de consolo pode mudar uma vida. Uma visita a um doente pode ser uma verdadeira obra de misericórdia. Uma catequista que acompanha uma criança está a construir a Igreja. Um pai e uma mãe que ensinam os filhos a rezar estão a construir a Igreja. Um jovem que oferece o seu tempo aos outros está a construir a Igreja. Um sacerdote que celebra a Eucaristia e acompanha o seu povo está a servir a Igreja. Uma religiosa que reza silenciosamente pela Diocese está a servir a Igreja. E aquele que trabalha honestamente, perdoa, ajuda e não se deixa vencer pelo egoísmo também está a edificar o Reino de Deus. Todos têm um lugar. Todos têm um dom. Todos podem participar. E isto é muito importante para o caminho sinodal da Igreja: não se trata simplesmente de organizar mais atividades, mas de discernir juntos o que o Espírito Santo pede hoje à Igreja de Bragança-Miranda. Caminhar juntos significa escutar, discernir e servir juntos. E daqui nasce a terceira palavra: missão. A Palavra de Deus apresenta-nos a imagem da água que sai do templo e, por onde passa, leva vida. Que imagem tão bonita para a Igreja! A água não fica dentro do templo. Sai. Corre. Chega longe. Dá vida. Também nós celebramos dentro da Catedral para sermos enviados para fora dela. Rezamos aqui para levar a oração à vida. Escutamos a Palavra para a anunciar. Recebemos a Eucaristia para nos tornarmos, também nós, alimento para os outros. Recebemos a misericórdia para sermos misericordiosos. Somos enviados. Uma Diocese como Bragança-Miranda conhece bem o desafio da missão: um território extenso, grandes distâncias, comunidades pequenas e dificuldades concretas. Mas é precisamente aí que uma Igreja missionária se torna ainda mais necessária. Uma Igreja que não desiste de nenhuma aldeia, que não desiste dos idosos, das famílias ou dos jovens, que não desiste daqueles que se afastaram, que vai ao encontro daqueles que talvez nunca entrem pela porta desta Catedral. A água do Evangelho tem de chegar a todos. Por isso, o futuro pastoral desta Diocese não pode consistir apenas em conservar aquilo que existe. É preciso também gerar vida nova. A pergunta não pode ser apenas: «Como podemos manter as nossas estruturas?» Temos de perguntar: «Como podemos anunciar hoje Jesus Cristo?» No Evangelho, a mulher samaritana pergunta a Jesus onde se deve adorar a Deus: naquele monte ou em Jerusalém. E Jesus responde: «Os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade». O lugar é importante, mas não é suficiente. Temos esta bela Catedral, os altares, o sacrário, as imagens e os espaços de oração. Mas Deus não quer apenas templos de pedra. Quer o nosso coração. Quer uma Igreja que celebre com verdade e cristãos cuja vida corresponda àquilo que professam. Quer uma fé que passe da Catedral para a casa, da Eucaristia para o trabalho, da oração para as relações humanas, do domingo para cada dia da semana. Esta é a coerência da vocação baptismal. Não podemos dizer aqui: «Senhor, Senhor» e viver como se Ele não existisse lá fora. Não podemos receber a Eucaristia e alimentar divisões. Não podemos rezar pelo perdão e recusar perdoar. Não podemos chamar-nos irmãos e permanecer indiferentes perante quem sofre. Aquilo que celebramos deve transformar aquilo que somos. É aqui que comunhão, participação e missão se encontram. Não são três tarefas separadas. São três dimensões da mesma vida baptismal. Quem vive em comunhão participa. Quem participa assume a missão. E quem vive a missão regressa à comunidade para celebrar, agradecer e receber novamente do Senhor a força para continuar. Queridos irmãos e irmãs, Gosto muito da imagem utilizada pela Diocese para falar desta Catedral como um “regaço materno”: um lugar que acolhe os seus filhos e depois os envia, alimentados pela caridade, pelo perdão, pela Palavra e pelo Pão. É esta a dinâmica da Igreja: acolher e enviar; reunir e partir; celebrar e servir; receber e dar. A Catedral acolhe-nos hoje. Mas, no final desta Eucaristia, seremos enviados. A bênção final não significa apenas: «A celebração terminou». Significa: «Agora começa a missão.» Depois da Eucaristia, a Igreja continua na rua. Continua nas nossas casas, nas escolas, nos locais de trabalho, nos hospitais e nos lares, nas nossas aldeias e cidades. Continua onde houver uma pessoa que precise de esperança. Por isso, este aniversário pode renovar em todos nós uma pergunta muito simples: Que Diocese queremos ser daqui a vinte e cinco anos? Uma Diocese preocupada apenas em conservar ou uma Diocese que evangeliza? Uma Diocese fechada sobre si mesma ou uma Diocese que sai ao encontro? Uma Diocese onde poucos trabalham por muitos ou uma Diocese em que cada batizado descobre o seu lugar? Uma Diocese em que cada comunidade luta pela sua sobrevivência ou comunidades que se ajudam mutuamente e vivem verdadeiramente em comunhão? A resposta depende de todos nós. E hoje, nesta Catedral dedicada a Nossa Senhora Rainha, colocamos este caminho pastoral sob o olhar de Maria. Ela sabe o que significa acolher Deus na própria vida. Sabe o que significa confiar. Sabe o que significa levantar-se e partir em missão. Maria recebe o anúncio do Anjo e responde: «Faça-se em mim segundo a tua palavra.» E depois parte apressadamente ao encontro de Isabel. Primeiro, acolhe. Depois, levanta-se, parte e serve. Que Nossa Senhora Rainha ajude esta Diocese a viver assim. Que ajude os sacerdotes a serem homens de comunhão. Que ajude os consagrados a serem testemunhas da esperança. Que ajude as famílias a serem verdadeiras igrejas domésticas. Que ajude os jovens a descobrir que a Igreja precisa deles. Que ajude os idosos a reconhecer que a sua oração e o seu testemunho são um tesouro. E que ajude cada batizado a descobrir a beleza da sua vocação. Queridos irmãos e irmãs, Há vinte e cinco anos foi dedicada esta Catedral. Hoje, Deus pergunta-nos não apenas: «O que fizestes com esta Catedral?» Mas, sobretudo: «O que fizestes com o dom do vosso Batismo?» A Catedral está construída. Agora precisamos de continuar a construir a Igreja. As pedras estão aqui. Somos nós: diferentes, frágeis, mas preciosos aos olhos de Deus. Unidos a Cristo, a pedra viva, podemos formar uma verdadeira casa espiritual. Que o Senhor faça desta Diocese uma Igreja cada vez mais viva, mais fraterna, mais participativa e mais missionária. Que o Espírito do Senhor leve vida onde houver cansaço, esperança onde houver desânimo, reconciliação onde houver divisão e fé onde houver indiferença. Que ninguém nesta Diocese se sinta simples espectador. Que cada batizado possa dizer: «Eu pertenço à Igreja.» «Eu tenho um lugar na Igreja.» «Eu tenho um dom para oferecer.» «Eu tenho uma missão.» E que, daqui a outros vinte e cinco anos, aqueles que celebrarem o cinquentenário possam dizer: «A Catedral continua de pé, mas, sobretudo, a Igreja está viva, porque os seus filhos aprenderam a viver a sua vocação baptismal em comunhão, participação e missão.» Só firmemente unidos a Cristo podemos ser aquilo que somos chamados a ser: um povo santo, um povo sacerdotal, um povo missionário, chamado a anunciar as maravilhas daquele que nos chamou das trevas para a sua luz admirável. Ámen.       D. Andrés Carrascosa Núncio Apostólico  

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