[1]Qui, 02/04/2026 - 14:44
Quinta-Feira Santa. Missa Crismal, Bragança, 02.04.2026
Isaías 61,1-3.6.8-9; Salmo 89; Apocalipse 1,5-8; Lucas 4,16-21
A nossa vocação é amar
Caríssimos Irmãos: D. António Montes, Senhor Vigário-geral, Vigário Episcopal do Clero, Presbíteros, Diáconos, Religiosas, Seminaristas, Acólitos e todos vós, Irmãos e Irmãs!
Em nome pessoal, do Presbitério e de toda a Diocese, dirijo uma saudação de particular congratulação aos aniversariantes. Neste ano, alegramo-nos com a celebração dos 25 anos de Ordenação Episcopal de D. António Montes, nosso Bispo Emérito; com os 25 anos de Ordenação Sacerdotal do Padre José Rocha; com os 50 anos de Consagração da Ir. Emília Faustino e da Ir. Sameiro Vieira.
Manifestamos ainda redobrado júbilo pelos 100 anos de vida e 75 de Ordenação Sacerdotal do Pe Telmo Ferraz.
Na comunhão dos santos temos presentes os sacerdotes que não puderam vir por motivo de saúde e grata recordação daqueles que partiram para a casa do Pai.
1.«O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu», diz Isaías (Is 61,1), reconhecendo nesta unção a nova e bela missão da graça, de liberdade, da alegria e da consolação que Deus agora lhe oferece.
«O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu», repete Jesus na sinagoga de Nazaré (Lc 4,18), assumindo sobre si a unção e a nova e bela missão de Isaías. Jesus levantou-se para fazer a leitura litúrgica, e sentou-se para fazer a homilia. E «os olhos de todos», informa o narrador, «estavam fixos nele!», num misto de espanto, de encanto e de esperança (Lc 4,20). É breve e intensa a homilia de Jesus, que disse somente: «Hoje cumpriu-se esta Escritura» (Lc 4, 21).
Se repararmos bem, se tivermos os olhos bem abertos, veremos então que, na condensada homilia de Jesus, a Palavra salta do plano da folha de papiro ou de papel, e começa a ganhar relevo, forma-se um corpo, desenha-se um rosto, pulsa um coração, ouve-se uma voz. O corpo, o rosto, o coração e a voz firme e serena de Cristo!
2.Unidos e reunidos pelo mesmo Espírito em unum presbyterium, para nos dizermos, temos de receber de Jesus as mesmas palavras que Ele próprio pediu emprestadas e a que deu sentido pleno, corpo, rosto e voz, fazendo-as sair da superfície plana da folha de papiro.
«O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu» (Lc 4,18) constitui, de facto, a maneira mais bela e profunda de o presbitério de uma Diocese poder afirmar em uníssono a sua identidade diaconal, e não patronal. É mesmo a única maneira de podermos dizer quem verdadeiramente somos. Afirmar a grandeza e a dignidade da nossa vocação e missão: ungidos e enviados para anunciar o Evangelho aos pobres!
É bom recordar a advertência do Papa Francisco: “A unção, caros irmãos, não é destinada a perfumar-nos a nós mesmos, nem muito menos para que a conservemos num vaso, porque o óleo se tornará rançoso … e o coração amargo.” (Papa Francisco, Missa Crismal de 1013). A unção que está em nós é para todos, sobretudo para os mais afastados, para aqueles que precisam de consolação, de conforto e de esperança.
Aprendemos, mais uma vez, que a nossa identidade presbiteral é relacional e o nosso ministério é sinodal, é tudo menos solitário. Só pode ser profunda e radicalmente solidário! No nosso ministério nunca estamos sós. Bispos, pastores e padres formamos um presbitério, uma família, uma fraternidade sacerdotal. A resposta ao Senhor é pessoal, mas não é solitária, é coral, sinfónica e solidária!
3.Somos presbitério de Ungidos, desde o bispo, aos sacerdotes, aos diáconos, ao povo de Deus crente e fiel. Ungido diz-se em hebraico Mashîah, e em grego Christós, termos que, em português, soam Messias e Cristo. O Ungido por excelência é, então, Cristo, Jesus Cristo, Jesus Ungido, e d’Ele todos sabemos que, enquanto Ungido com o Espírito Santo, passou pelo meio de nós fazendo o bem e curando e libertando e amando até ao fim, intensa e plenamente, porque Deus estava com Ele (At 10,37-38). Só configurados com Cristo, cristificados, podemos viver e agir in persona Christi Capitis ou in persona Christi Servitoris, na pessoa de Cristo Cabeça do seu Corpo, que é a Igreja, ou na pessoa de Cristo Servo do seu Corpo, que é a Igreja. É assim que dizemos hoje, nesta Quinta-Feira Santa, a nossa identidade Sacerdotal e Diaconal.
“Ungidos e enviados” pois a nossa vocação é amar. A nossa vida sacerdotal é feita para amar. “Amar é tudo dar” - dizia Teresa do Menino Jesus. Porque acreditamos e confiamos, amamos e damo-nos. E há fecundidade!
4.Numa sociedade violenta e fraturada, a unidade da fraternidade sacerdotal interpela as consciências. Jesus orou pelos seus discípulos para que sejam um (cf. Jo 17, 22). A unidade vem da oração entre o Pai e o Filho no Espírito. A unidade fraternal do corpo presbiteral deve ser alimentada de amor, do amor de Deus. Neste estaleiro desafiante da fraternidade sacerdotal haverá sempre lentidões e cansaços, porque vivemos com a nossa humanidade. Estes obstáculos não nos devem paralisar. Pelo contrário, eles encorajam-nos a encontrar a força da unidade e do amor não em nós mesmos e nas nossas forças, mas no amor de Deus. Partindo só do nosso amor, a fraternidade sacerdotal será frágil; partindo do amor de Deus, ela será forte.
Há poucos dias, através da Rede Mundial de Oração, o Papa Leão XIV afirmou que “os presbíteros não são funcionários nem heróis solitários, mas filhos amados, discípulos humildes e estimados, e pastores amparados pela oração de seu povo". Por isso, pediu especiais orações “pelos sacerdotes que atravessam momentos de crise, quando a solidão pesa, as dúvidas obscurecem o coração e o cansaço parece mais forte do que a esperança.”
O Papa acrescentou: “Pai bom, ensina-nos, como comunidade, a cuidar dos nossos presbíteros: a escutá-los sem julgar, a agradecer sem exigir perfeição, a partilhar com eles a missão batismal de anunciar o Reino com gestos e palavras, e a acompanhá-los com proximidade e oração sincera. Que saibamos amparar aqueles que tantas vezes nos amparam.”
5.O óleo do Crisma que vamos consagrar, e os óleos dos enfermos e dos catecúmenos que vamos benzer, constituem, no meio de nós, um autêntico manancial ou programa de vida. Igual ao de Cristo. Outros Cristos, Ungidos no coração, para levar o anúncio do Evangelho a todos os nossos irmãos.
Sem ingenuidade e sem artifícios, pois somos chamados a ser pastores e não atores, é necessário difundir o movimento da bênção à nossa volta. Essa bênção não se reduz a um gesto litúrgico. Ela é um projeto de vida e de felicidade para os crentes e buscadores de sentido num mundo que tantas vezes entra em hibernação espiritual.
Se somos outros Cristos, Ele está connosco, em nós (Gl 2, 20), no meio de nós. A vinha, a seara, a messe e a plantação são d’Ele. A Ele a honra, a glória e o louvor para sempre. Ámen!
+Nuno Almeida
Bispo de Bragança-Miranda

