[1]Seg, 16/03/2026 - 19:13
Eis-nos de novo na Quaresma.
Na sua mensagem o Papa Leão XIV oferece-nos três palavras: Escutar, Jejuar e Juntos.
A Escuta remete-nos para a Palavra. Mas esta não se esgota em si mesma, não é estanque e
trespassa as vinte e quatro horas do dia, ‘torna-se carne’, incarna-se respondendo de mangas
arregaçadas diante do sofrimento e da injus4ça.
A escuta da Palavra leva-nos à escuta das necessidades de quem sofre, dos mais necessitados,
dos que vivem nas periferias e misérias incontáveis, leva-nos a experienciar a proximidade feita
dor libertadora.
O Papa, na sua mensagem cita a sua Exortação apostólica Dilexi te recordando que «a condição
dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a
nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas polí4cos e económicos e, sobretudo, a Igreja».
Escutar interpela-nos mesmo e tem consequências?
Escutar a Palavra implica ação. «Bem-aventurados os que ouvem a Palavra de Deus e a põem
em prá4ca» (Cf. Lc 11,28).
Ainda estamos a viver os dramas que assolaram algumas regiões do nosso país. Vivemos mil e
um dramas. Mas onde chegou a nossa prá4ca?
Ou limitámo-nos a ficar pelos pios lamentos, pelos comentários acusatórios à responsabilidade
do clima, do estado e outras en4dades?
É certo que não falta a mobilização diante de eventos extremos. E diante da miséria escondida?
Qual a nossa escuta diante das dores abafadas dos imigrantes, das formas de violência gratuita,
da exploração laboral e das múltiplas escravaturas, das palavras ofensivas de teor racista, e não
só?
A escuta da Palavra é um rio de amor concreto que nos leva a desaguar no mar da misericórdia
e da proximidade que «chora com quem chora» e «pensai sempre em pra4car o bem diante de
todos os homens» (Rm 12,15;17).
Não podemos ficar indiferentes e surdos diante da pobreza, e as tragédias climá4cas que nos
assolaram carregam gritos clamando respostas a quem ficou sem telhado, sem casa, a quem
perdeu o sustento porque os locais de trabalho ficaram destruídos, a quem viu as águas
invadirem a sua dignidade e bens.
A escuta é companheira de viagem do diálogo transforma4vo que escasseia nas nossas casas, no
mundo laboral e entre as estruturas do poder. É urgente uma consciência que saiba discernir o
circunstancial do essencial.
Também as intempéries e catástrofes naturais requerem a nossa proximidade para colhermos o
seu grito e o «novo céu e a nova terra» que o Apocalipse nos fala será um amanhã feito caminho
no tempo presente.
A escuta da realidade é uma voz que nos fala, é a voz de Deus que emerge das realidades mais
profundas.
A segunda palavra do Papa leão é o Jejum, uma das prá4cas mais associadas à Quaresma.
Do que falamos quando falamos de jejum e abs4nência? É apenas a ligeireza costumeira
circunstancial de hábitos culturais?
O Jejum fica-se por um ou outro aspeto da nossa vida que cobre e jus4fica outros desmandos?
Ou a4nge, como diz o Papa Leão, e «é ú4l para discernir e ordenar os “ape4tes”» e tem também
consequências, mantendo-nos vigilantes diante da fome e da sede de jus4ça?
Ou passamos ao lado, encolhemos os ombros desde que não nos incomode?
Somos cumpridores escrupulosos da letra, os novos fariseus, que quando interrogados “onde
está o teu irmão?” respondemos afoitos “o que tenho a ver com isso?”.
Certamente que o jejum nos deve levar a perfumar a cabeça para que a humildade no coração
nos ajude a viver no meio do mundo. Por isso o jejum e a abs4nência podem incarnar-se em
cada um naquilo que lhe é mais comum, nos julgamentos fáceis, nas palavras sem freios e, por
vezes, ofensivas, despejadas nas redes sociais, nas calúnias de quem está ausente, no preto e
no branco das nossas apreciações conforme as cores polí4cas, clubís4cas ou paroquiais; lado a
lado com outros, podemos abrir caminhos de esperança e de paz.
O terceiro pilar da mensagem do Papa é “Juntos”, é a dimensão comunitária. É na par4lha
comunitária que nos es4mulamos reciprocamente na caminhada quaresmal, num es4lo de vida
sóbrio, na par4lha de novas formas de viver a Palavra e a transmi4r, do enorme desafio atual
que é a reconciliação – entre nós e sacramental –, é acreditar que as palavras de Jesus ditas a
Pedro, Tiago e João “Levantai-vos, não tenhais medo”, con4nuam válidas para nós.
Juntos é o desafio, a experiência do caminho sinodal que nos impele a cul4varmos um outro
modo de estar, uma outra proximidade feita de comunhão que, pelo amor recíproco, gera a
presença de Deus entre nós e nos conduz à Pascoa.
Depois das tragédias climá4cas que vivemos entre nós, percebemos o ódio transformado em
guerras para onde quer que olhemos. Não bastava a guerra na Ucrânia, a guerra civil em
Myanmar, os conflitos em Moçambique e noutros países de África, a tragédia da Terra Santa
envolvendo Israel e a Faixa de Gaza, espoleta a Guerra do Irão envolvendo, direta ou
indiretamente, cada vez mais países.
Precisamos de um ‘nós’ capaz de vencer a guerra, de no nosso coração passarmos uma
declaração de inu4lidade da guerra e no meio da escuridão bélica oferecemos uma luzerna para
a paz?
A nossa Quaresma vive ensopada na fé de que a proximidade e a solidariedade são mais fortes
do que as catástrofes e as guerras?
Os propósitos pessoais valem, certamente, mas devem entrar na harmonia sinfónica de uma
Igreja que não exclui ninguém, onde todos têm lugar e nos faz trautear melodias novas deste
Povo de Deus que caminha até à Páscoa.
Eis-nos de novo na Quaresma, assim começamos esta reflexão. O “de novo” não pretende
significar outra vez, repe4ção, mas uma oportunidade nova, diferente do passado seja ele qual
for. É que este caminho quaresmal – feito de escuta, jejum e juntos –, deve ter o sabor da graça,
que passa pelo arrependimento, para vivermos com cada próximo uma aurora de paz e
fraternidade.
Lisboa, março de 2026

