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«A felicidade não se calcula» | Opinião do Pe. Manuel Ribeiro [1]Sáb, 06/12/2025 - 12:11

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Quando tudo se mede, só o sentido dá medida à vida. Vivemos tempos em que tudo se mede. Contamos passos, calorias, horas, rendimentos, seguidores. Tornámo-nos peritos em calcular, mas esquecemo-nos de pensar. E quando a vida se resume a números, já não é caminho, mas tarefa; já não é projeto, mas rotina. Freud recordou-nos que, na raiz, somos animais. Procuramos prazer como quem busca um abrigo rápido contra a dor. Mas cedo percebemos que o prazer, quando elevado a bússola da existência, engana. É chama que aquece por instantes, mas queima por dentro. A dopamina, esse lampejo químico que nos agita, é imagem desta ilusão: dá-nos intensidade, mas não dá plenitude; excita os sentidos, mas deixa vazia a alma. Adler apontou-nos outra via: a felicidade como poder. O poder de decidir, de influenciar, de ocupar o nosso lugar no mundo. Mas também aqui o deserto espreita: quem se alimenta apenas de poder nunca sacia a sua fome. Há sempre um degrau acima, alguém mais forte, mais visível, mais reconhecido. O poder promete segurança, mas instala inquietação. É como beber água do mar: quanto mais bebemos, mais sede temos. Do prazer ao poder, percebemos a mesma armadilha: a promessa de plenitude transforma-se em vazio. E, no entanto, há uma terceira possibilidade. Viktor Frankl, médico e prisioneiro dos campos de concentração, descobriu-a em meio ao horror. Observou que sobreviviam não os que tinham mais prazer ou mais poder, mas os que tinham um sentido. Uma razão para se levantar a cada manhã. Uma pessoa a amar, uma missão a cumprir, uma esperança a guardar. Frankl ensinou-nos que a felicidade não é uma emoção passageira, mas uma direção. Não é intensidade, mas fidelidade. Ser feliz é encontrar um porquê que nos ajude a suportar qualquer como. É aqui que cada um de nós é chamado a construir a sua melhor versão. Não na acumulação de estímulos, não na ânsia de controlar, mas na coragem de perguntar: qual é o meu sentido? Que vida quero entregar ao mundo? Que marca quero deixar nos outros? A felicidade não é um cálculo — é uma resposta. Não se mede — descobre-se. Não se consome — constrói-se. Talvez seja este o apelo mais urgente do nosso tempo: levantar-nos do ruído das métricas, da pressa dos prazeres e da vertigem do poder, para reencontrar o silêncio em que a vida nos pergunta, com simplicidade desarmante: Serás capaz de escolher viver com sentido? Padre Manuel Ribeiro, Diocese de Bragança-Miranda

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