[1]Qua, 31/05/2023 - 11:33
O Imaculado Coração de Maria e o triunfo do amor
É com íntima e imensa alegria que venho até vós como vosso irmão bispo visitar este querido Santuário dedicado a Nossa Senhora de Fátima, aqui em Cerejais, e que se tonou centro de peregrinação no nordeste transmontano. Também eu venho como peregrino para venerar com comoção espiritual a Virgem Mãe, para celebrar convosco nesta vigília da noite o amor do seu Imaculado Coração e para interceder junto dela pela Igreja e pela nossa humanidade ferida por tantos conflitos, sofrimentos e misérias. A todos vós aqui presentes saúdo de todo o coração, particularmente o reitor do santuário a quem agradeço o cordial convite.
Deus vela pelo seu povo
A Palavra de Deus que ouvimos ajuda-nos a compreender a atualidade da mensagem que Nossa Senhora confiou em Fátima a três pastorinhos.
Na primeira leitura acabámos de ouvir a história linda de uma jovem mulher, já viúva, de nome Judite, modelo exemplar de fé e confiança em Deus. Graças à sua fé e coragem, Deus escolheu-a para animar e salvar o seu povo abatido, numa situação em que que parecia tudo perdido perante a ameaça de destruição por um inimigo poderoso. Por isso Deus a abençoa e o povo a exalta. Esta história dá-nos a certeza de que Deus vela pelo seu povo mesmo nos momentos de angústia mais desesperada. Mostra-nos que a nossa história – a pequena história pessoal de cada um e a grande história universal – está sempre nas mãos de Deus.
Na história de Judite, a Igreja vê já prefigurada a missão de Maria a favor do povo de Deus. A própria liturgia dedica a Maria as palavras de louvor e bênção dirigidas a Judite: “Tu és a glória de Jerusalém; tu és a alegria de Israel; tu és a honra do nosso povo”. E exorta a louvar Deus porque manifestou o seu olhar de misericórdia através do seu coração materno de Maria que cuida de todos os filhos como cuidou de Jesus. “Guardava tudo no seu coração”.
Em Fátima, Nossa Senhora foi portadora de uma mensagem de esperança, de conforto e consolação para a humanidade dividida por ódios entre os povos, ameaçada de destruição pelas guerras mundiais e para a Igreja perseguida por regimes totalitários e ateus. A mensagem continua atual quando hoje a humanidade vive sob o pesadelo de uma nova guerra mundial. E o primeiro pedido que Nossa Senhora faz é a conversão dos corações a Deus fonte de vida e amor. E fá-lo através do seu coração de Mãe.
O Imaculado Coração de Maria e o triunfo do amor
Uma das heranças espirituais mais preciosas que as aparições marianas em Fátima nos deixaram é a devoção ao Imaculado Coração de Maria.
Aparecendo aos três pastorinhos pela terceira vez, em 13 de Julho de 1917, a Virgem revela-lhes um “segredo” que se desenvolve em três partes. Depois de ter mostrado a tremenda possibilidade da perdição eterna dos homens (o inferno), Nossa Senhora disse que Deus – precisamente para salvá-los desta sorte trágica – pretende instaurar no mundo a devoção ao seu Coração Imaculado.
Através do símbolo do Coração Imaculado, fala aos filhos usando a linguagem mais acessível e mais entranhada de coração a coração. Como já dizia S. Francisco de Sales, só “O coração fala ao coração” e é capaz de estabelecer uma relação viva, terna, de intimidade. É uma linguagem que toda a gente entende. Quando falamos de coração entendemos imediatamente a proximidade, o afeto, a ternura, numa palavra o mistério do amor e da compaixão. Sim, o mistério do amor só entra através do coração.
A mãe fala-nos com aquele coração que recebeu Jesus pela fé antes de o receber no seio. Maria apresenta-se assim diante de toda a humanidade como a testemunha mais alta da inabitação de Deus, como o “templo vivo da sua glória” no mundo. Eis porque a devoção ao Coração Imaculado de Maria pode indicar-nos o caminho para Deus, para nos tornarmos também nós “templo do Senhor”, sua morada, sua casa, lugar em que ele vem habitar e repousar.
Na sua peregrinação a Fátima, Bento XVI explicitou de um modo belo: “veio do céu a nossa bendita Mãe oferecendo-se para transplantar no coração de quantos se lhe entregam o Amor de Deus que arde no seu. Então eram só três, cujo exemplo de vida irradiou e se multiplicou em grupos sem conta por toda a superfície da terra”. Foi com este amor materno que confortou os três pastorinhos quando disse à Lúcia: “não desanimes. Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus”. Isto mesmo nos diz a cada um de nós hoje! Maria dá-nos, pois, olhos e coração para contemplar a ternura de Deus, a sua compaixão e a sua misericórdia como força e limite divino face ao poder do mal no mundo.
As aparições de Nossa Senhora em Fátima mostram-nos também o seu coração doloroso e ofendido pelos pecados cometidos nos confrontos de Jesus e de sua mãe, pelas ofensas à dignidade humana e pela guerra entre os homens e povos. Com o símbolo do seu Coração Imaculado cercado de espinhos, a mãe celeste mostra que sente as dores dos filhos e vem em seu auxílio com o conforto da misericórdia divina. Podemos pensar no coração de Maria como um coração misericordioso e compassivo. Foi a dor dos filhos que fez gritar o coração da mãe! Ou, como disse S. João Paulo II, “É a dor da mãe que a faz falar; está em jogo a sorte dos filhos” a sua salvação ou perdição.
Ao mesmo tempo, a mensagem vem acompanhada de uma séria advertência: o apelo à conversão do coração, à oração e à reparação, a reparar o que o pecado dos homens estraga, corrompe ou destrói nos corações e nas relações com Deus, com os outros e entre os povos.
Na terceira aparição, em 13 de Julho de 1917, Nossa Senhora proclamava solenemente esta promessa: “Por fim, o meu Coração Imaculado triunfará... e será concedido ao mundo um período de paz”. O Papa Bento XVI, na sua peregrinação a Fátima, interpretou assim esta promessa consoladora: “No final, o Senhor é mais forte do que o mal e Nossa Senhora é para nós a garantia visível, materna da bondade de Deus que é sempre a última palavra na história”. Promete o triunfo do amor nos dramas da história e suscita a confiança na misericórdia divina mais poderosa que o poder do pecado e do mal no mundo.
Como acontece nas nossas famílias sempre que somos advertidos pela mãe quando andamos mal na vida, assim também na mensagem de Fátima somos chamados à atenção pela melhor de todas as mães para acolher e levar a sério as suas advertências e responder docilmente aos seu pedidos.
Através da devoção ao Coração Imaculado de Maria (da recitação e meditação do rosário, da comunhão e da adoração eucarísticas, do dom do perdão na confissão, da reparação na oração e ação), peçamos com grande humildade e confiança ao Pai que faça do nosso coração o templo da sua presença, o lugar onde guardamos a sua Palavra viva e onde dizemos o nosso “sim” à semelhança do coração de Maria. Assim, Deus continuará incansavelmente a amar, a curar e renovar o coração de todos os homens e a dar a paz e salvação ao mundo. Digamos, com todo o nosso coração, como o Papa S. João Paulo II: “Totus tuus! Totus tuus!”.
Confiemos a Nossa Senhora do Rosário de Fátima, a nossa doce mãe, “a mais terna entre todas as mães” as nossas preocupações, anseios e necessidades. Digamos-lhe: Intercede por nós, Santa Mãe de Deus, para que nós abramos as portas do nosso coração a Cristo como tu abriste as portas do teu Coração Imaculado; reza por nós pecadores para que sintamos a necessidade de Cristo como redentor da nossa vida e do nosso mundo; intercede pela humanidade deste terceiro milénio para que abra de par em par as portas do seu coração à plenitude da redenção divina e ao dom da paz. Ámen!
† Cardeal António Marto, Bispo emérito de Leiria-Fátima
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Fotografia: Santuário do Imaculado Coração de Maria

