«Ser Padre, manso e humilde de coração» | Homilia Ordenação Presbiteral de Duarte Gonçalves | Diocese Bragança-Miranda

Catedral de Bragança, 09 de julho de 2017

 

1. Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra

Jesus reza e na oração confessa e bendiz ao Pai, apresentando-lhe até o insucesso da sua missão, preparando os seus discípulos de ontem e de hoje para a realidade da vida quotidiana da Igreja peregrina e missionária. De facto, Jesus responde em oração à incredulidade e autossuficiência das cidades da Galileia: Corazim, Betsaida e Cafarnaum; que não aceitaram os milagres e a pregação e não se converteram. Por isso, Jesus mostra as crianças como o modelo dos que acolhem os sinais e se convertem.

 

2. Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei.

Jesus é um Mestre que não humilha com a sua inteligência, mas reconhece os pequeninos e os pobres e perde tempo com eles, partilhando a alegria e esperança e também o sofrimento e a cruz.

A Igreja peregrina e missionária presente na Diocese de Bragança-Miranda é uma realidade muito desafiante. Ao olhar a nossa realidade, perguntamos de imediato: «como é possível que um Padre, sem arruinar a sua saúde física, psíquica e espiritual, seja Pároco de uma imensidão de Paróquias numa Unidade Pastoral, como está a acontecer cada vez mais, dada a escassez de sacerdotes?»

O Papa Francisco disse abertamente aos Padres durante a missa crismal de 2015: «o povo ama, deseja e precisa dos seus pastores! O povo fiel não nos deixa sem atividade direta, a não ser que alguém se esconda num escritório ou passe pela cidade com vidros escuros. E este cansaço é bom, é um cansaço saudável. É o cansaço do sacerdote com o cheiro das ovelhas, mas com o sorriso de um pai que contempla os seus filhos ou os seus netinhos... Se Jesus está apascentando o rebanho no meio de nós, não podemos ser pastores com a cara azeda ou melancólica, nem – o que é pior – pastores enjoados. Cheiro de ovelhas e sorriso de pais...».

3. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração

Pela imposição das mãos e a oração de ordenação – o elemento essencial da ordenação – é conferido aos candidatos o dom do Espírito Santo para o ministério sacramental dos presbíteros. Recorde-se as palavras da fórmula sacramental pertencentes à natureza da ordenação e exigidas para a validade do acto:

«nós Vos pedimos, Pai todo-poderoso, constituí estes vossos servos na dignidade de presbíteros; renovai em seus corações o Espírito de santidade; obtenham, ó Deus, o segundo grau da Ordem sacerdotal que de Vós procede, e a sua vida seja exemplo para todos». A fórmula é epiclética. O Pai é quem manda o Espírito, por isso, a epiclese dirige a Deus Pai quatro pedidos: para que conceda a dignidade do presbiterado; que renove no coração dos eleitos o Spiritus Sanctitatis; que conceda o segundo grau da ordem sacerdotal; que o exemplo da vida seja modelo para todos.

Que bom ter assim um Mestre. Há um ícone antigo egípcio, que se conserva no museu do Louvre, onde se vê Jesus Cristo que põe o seu braço sobre o ombro do discípulo. Talvez não exista melhor imagem do significado do ‘jugo’, que este braço que mostra a amizade e a coragem no cansaço da missão no caminho da vida.

O que ser um Padre manso e humilde de coração? A mansidão e a humildade são o carácter dos fortes. S. Bento narra 12 graus da humildade, para concluir que o fim da humildade é a caridade. Para o Padre, a caridade pastoral, torna-o, antes de mais, consciente de construir a vida sobre o que é e não alguns centímetros ou metros acima do ‘humus’, do mistério para o ministério, questionando-o constantemente: para quem sou padre?

Da própria ordenação presbiteral decorrem: o primado do dom a reviver em cada dia; o serviço crente à Palavra de Deus; a celebração dos sacramentos; a pastoral da caridade; o ministério da oração; o seguimento de Cristo; a comunhão com o Bispo e com o presbitério.

O Padre manso e humilde é aquele que é capaz de acreditar na força transformadora do Evangelho e da amizade com Cristo e com os outros irmãos de todo o coração e em todo o coração.

O coração de Jesus Cristo e por consequência o coração do cristão Padre, é mais que o órgão central do sistema circulatório, que recebe e bombeia o sangue por meio de movimentos ritmados de dilatação e contração, sendo a interioridade mais santa onde nasce a alegria de evangelizar cordialmente, isto é, de todo o coração e em todo o coração.

 

+ José Manuel Cordeiro

Fotografias: BLR/SDCS.