Secretariado Nacional de Liturgia lança «O Novo Testamento e a Ceia do Senhor» | Diocese Bragança-Miranda

O Secretariado Nacional de Liturgia prossegue a sua colaboração para uma autêntica educação litúrgica do Povo de Deus, oferecendo a todos, especialmente a quantos desejam aprofundar o espírito da Liturgia, as reconhecidas investigações, a partir das fontes bíblicas, patrísticas, históricas, canónicas, litúrgicas, pastorais e espirituais.

Desde o Concílio Vaticano II, a Liturgia aparece como uma cadeira principal no curriculum do estudo da Teologia: «A disciplina da sagrada Liturgia deve ser considerada, nos seminários e casas de estudo dos religiosos, como uma das disciplinas necessárias e mais importantes, e nas faculdades de teologia como disciplina principal; além disso é preciso ensiná-la nos seus aspectos quer teológico e histórico, quer espiritual, pastoral e jurídico. Acima de tudo, procurem os professores das outras disciplinas, principalmente de teologia dogmática, Sagrada Escritura, teologia espiritual e pastoral, fazer ressaltar, a partir das exigências intrínsecas de cada disciplina, o mistério de Cristo e a história da salvação, de modo que se veja claramente a sua conexão com a Liturgia e a unidade da formação sacerdotal» (SC 16).

A vasta obra do nosso muito estimado Enrico Mazza testemunha um imenso contributo à história da Liturgia e à fé da Igreja com luminosa clareza em relação à história da celebração da Eucaristia, o sacramento dos sacramentos.

Monsenhor Enrico Mazza é um grande mestre e uma pessoa muito afável e humilde. Temos a graça da sua amizade cordial, desde 2004 no Pontifício Instituto Litúrgico, e de partilhar da sua honestidade intelectual, do seu diálogo interdisciplinar, da sua seriedade científica, do seu método exigente e da sua sapiência teológica e litúrgica.

Para Mons. Enrico, «ao longo dos séculos a liturgia eucarística nunca caminhou sozinha: foi sempre acompanhada pelas interpretações que nas várias épocas lhe foram dadas, ao ponto que, muitas vezes a celebração foi transformada para corresponder melhor à interpretação. A interpretação, ou seja, a teologia sacramental nasce do rito, mas transforma-se no tempo, reflecte-se no rito e reforma-o» (La celebrazione eucarística. Genesi del rito e sviluppo dell’interpretazione, 2003).

O grande teólogo Lonergan (†2004) escreveu que «o método não é um conjunto de regras propostas para que um estúpido as siga meticulosamente. É uma estrutura em vista de uma criatividade em colaboração». É evidente que não basta um método ou até querer ou ser inteligente para acreditar, é preciso fazer a experiência do encontro com Cristo, porque Deus não se aprende nos livros.

A recente obra de Mazza – Il Nuovo Testamento e la Cena del Signore – e na continuidade de tantos seus estudos acerca das Orações eucarísticas e da Eucaristia, em especial o livro de 2014 – Dal’Ultima Cena all’Eucaristia della Chiesa – conforme o método histórico-crítico, publicada em língua italiana em 2017 e agora traduzida em língua portuguesa, dispõe-se a «acrescentar aos estudos sobre a Ceia do Senhor o tema das «Refeições com o Senhor», um sector até agora muito negligenciado mesmo por quem se ocupa das origens da Eucaristia» (pág. 7) e «sondar para ter um conhecimento directo das refeições de Jesus com os discípulos; ao mesmo tempo dei amplo espaço à Última ceia, que mereceu dois capítulos em seis. (...) Foi nestas refeições que Ele [Jesus] manifestou a sua messianidade» (pág. 10).

E. Mazza parte da origem da celebração eucarística, a narrativa da Última ceia, seguindo o método histórico-crítico aprofunda os termos técnicos das “palavras interpretativas”, das “palavras consecratórias” e das “palavras explicativas”, bem como a “instituição da Eucaristia”, as refeições com Jesus, a data da Última ceia nos evangelhos sinópticos e no evangelho de S. João.

Efectivamente, o estudo apresentado dos textos do Novo Testamento permite mostrar «que as celebrações das Igrejas de hoje deverão ser, também elas, uma manifestação da messianidade de Jesus, uma mesa na qual Jesus a todos acolhe, (...) porque a mesa do Senhor é uma mesa com um alimento diferente, adaptado a todos, aberto também ao fariseu e à pecadora: é o corpo e o sangue de Cristo» (pág. 10).

Os problemas históricos aqui estudados continuam como problemas actuais e o método científico usado tem por fim sublinhar a celebração da Eucaristia, cuja origem é a Última ceia, como sacramento da unidade da Igreja e «banquete escatológico da Sabedoria» (pág. 252).

+ José Manuel Garcia Cordeiro
Bispo de Bragança-Miranda
Presidente da Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade

 

 

Introdução

 

Creio que tem razão John Williamson Nevin (1803-1886) – um teólogo do século XIX, grande expoente da Mercersburg Theology – ao escrever que a questão da Eucaristia é uma das mais importantes questões da história das religiões e que, de certo modo, é central em todo o sistema cristão. De facto está na base da própria união viva dos crentes com a pessoa de Cristo, e este grande facto concentra-se particularmente no mistério da Ceia do Senhor.[1]

Dispus-me a escrever esta monografia para acrescentar aos estudos sobre a Ceia do Senhor o tema das «Refeições com o Senhor», um sector até agora muito negligenciado mesmo por quem se ocupa das origens da Eucaristia. Para todos, de facto, na origem da Eucaristia está a Última ceia descrita pelos evangelhos sinópticos e por Paulo, que contêm as palavras sacramentais: «Isto é o meu corpo» e respectivamente: «Este é o cálice do meu sangue». O Evangelho de João fala de uma Última ceia de Jesus na iminência da Páscoa mas não se encontram aí citadas as palavras sacramentais. Por este facto conclui-se que o Evangelho de João não conhece a instituição da Eucaristia, ainda que este evangelho tenha muitas referências ao rito eucarístico. Se fala da Eucaristia e não conhece a sua instituição, pode acontecer que a instituição da Eucaristia seja entendida de maneira diferente daquela a que estamos habituados. Veremos isso no capítulo quinto.

Por detrás do nosso modo de construir a teologia eucarística, está a ideia de que as palavras sacramentais, acima citadas, são as palavras com as quais Jesus instituiu o sacramento da Eucaristia. Trata-se de uma doutrina que foi amplamente teorizada na Idade Média ocidental quando, por exemplo, Tomás de Aquino estabeleceu que Jesus instituiu a Eucaristia criando a «forma», ou seja, dotando aquelas palavras de uma «força» particular, que as tornasse capazes de consagrar. No capítulo primeiro abordaremos esta doutrina. A propósito do uso do termo «forma», devemos dizer que as antigas liturgias latinas não romanas introduziam a narração da Última ceia afirmando que Jesus tinha transmitido a forma da Eucaristia quando instituiu a «forma do sacrifício».[2] Com o termo «forma», porém, estas antigas famílias litúrgicas entendiam o rito da celebração eucarística e não a «fórmula» da consagração. Esta é, por outro lado, uma concepção que pertence a todas as liturgias antigas, tanto do Oriente como do Ocidente. Ou melhor, esta é a forma arcaica do relato da instituição que só no século IV se tornará relato da Última ceia.

Inconscientemente, os autores medievais caíram neste erro interpretativo – identificando a «forma» da celebração com a fórmula consecratória –, e fizeram-no chegar até nós. Jesus, então, teria instituído a Eucaristia criando as palavras consecratórias?

Em rigor, lendo o texto da Última ceia de modo filologicamente correcto, resulta que Jesus disse aos discípulos aquelas palavras como explicação do gesto que estava a fazer, ao dar-lhes o pão a comer e o cálice a beber. Por isso hoje aquelas palavras sacramentais são justamente chamadas «palavras explicativas».

Quando estudamos a narração da Última ceia, referida pelos sinópticos e por Paulo, damo-nos conta de que se trata de um texto que teve uma génese muito complexa. Contudo aquele relato transmite o evento da Última ceia, que foi um acontecimento decisivo na história dos discípulos de Jesus, quer por ter sido o primeiro acto da paixão de Cristo, quer por ele ser recordado como a última vez em que Jesus tomou uma refeição com os discípulos, e tratar-se de uma ceia de despedida como esclarece muito bem o Evangelho de João. Depois da sua morte e ressurreição, Jesus apareceu aos discípulos e comeu diante deles, mostrando assim que o seu corpo era um corpo real – que não era um fantasma –, e que era o mesmo Jesus que costumava comer com eles.

Os testemunhos concordam em que na Última ceia foram ditas palavras explicativas sobre o pão; certamente aquelas palavras eram demasiado importantes para serem esquecidas e tornaram-se uma tradição. Através de uma fonte pré-marciana passaram a Paulo por tradição. É em 1Cor 11,24-26 que aparece o mandato de reiterar aquela Ceia e, a partir daqui, o mandato passa para Lucas. Em Marcos não há mandato algum e em Mateus também não; portanto foi Paulo que deu boa e devida forma a esta tradição e estabeleceu a Última ceia como modelo de referência a fim de que a ceia dos discípulos pudesse ser a Ceia do Senhor. Veremos tudo isto no capítulo segundo; depois, no capítulo terceiro, examinaremos os vários relatos da multiplicação dos pães que, sistematicamente, referem os gestos de Jesus que, ao tomar aqueles pães, depois de dar graças os distribuiu ou fez distribuir à multidão. Estes gestos tornaram-se característicos: eram evidentemente típicos de Jesus, uma vez que, na aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos, esses mesmos gestos serviram para O identificar. Veremos, no capítulo sexto, que os discípulos de Emaús perceberam que o seu hóspede era Jesus, precisamente por aqueles gestos, embora o aspecto do seu corpo fosse diferente, dado ser um corpo ressuscitado: viam-n’O mas não O reconheciam. Além disso, neste capítulo, dar-nos-emos conta de que há algumas características que são comuns a todos os banquetes com o Senhor.

Os discípulos continuavam a reunir-se uns com os outros mesmo depois da morte do Senhor e permaneciam na expectativa de algo que pudesse acontecer; comiam juntamente continuando assim a tradição das refeições com Jesus. Ao procederem assim, por um lado repetiam a experiência dos Onze e por outro imitavam o estilo dos banquetes daqueles que nunca tinham conhecido Jesus, sobretudo nas Igrejas da diáspora. Paulo teve de intervir, fazendo apelo à tradição que tinha recebido, estabelecendo que o banquete dos cristãos devia ser uma comemoração do Senhor e um anúncio da sua morte e que, para obter este resultado, se devia ter como modelo a narração da Última ceia: «Fazei isto em memória de Mim». Paulo deu assim uma estrutura à tradição, institucionalizando-a. Alguém devia fazê-lo, mais tarde ou mais cedo: Paulo apercebeu-se de que, sobretudo para a diáspora, tinha sido dado um passo em frente. Devemos compreender, porém, que esta instituição paulina é muito menos «institucional» do que nós pensamos e, ao mesmo tempo, é muito mais profunda do que a teologia das várias Igrejas se atreve a dizer. São poucas palavras numa carta, mas suficientes para enquadrar a questão.

Por estas razões, não escrevi uma obra sobre a Eucaristia nas Escrituras, mas dediquei-me a sondar o Novo Testamento para ter um conhecimento directo das refeições de Jesus com os discípulos; ao mesmo tempo dei amplo espaço à Última ceia, que mereceu dois capítulos em seis. Não desvalorizei, portanto, de modo algum, a Última ceia, embora procurasse ter em consideração também as refeições de Jesus, dado que a refeição ritual dos discípulos, e da Igreja das origens, está em continuidade com este uso de se reunirem à volta da mesa de Jesus, juntamente com Ele. Foi nestas refeições que Ele manifestou a sua messianidade.

Se estas refeições estão em relação com a Última ceia, e esta está em relação com a Eucaristia da Igreja, segue-se que as celebrações das Igrejas de hoje deverão ser, também elas, uma manifestação da messianidade de Jesus, uma mesa na qual Jesus a todos acolhe, na qual Se dá a conhecer, Se torna objecto de confiança e de esperança; aqui se acredita n’Ele, e Ele, como Filho do homem, salva do julgamento, mesmo sem Lhe ser pedido, como no caso daquela mulher que era pecadora na cidade – narrado em Lc 7,48) –, porque a mesa do Senhor é uma mesa com um alimento diferente, adaptado a todos, aberto também ao fariseu e à pecadora: é o corpo e o sangue de Cristo.

 

Enrico Mazza

 

[1]        J.W. NEVIN, The Mystical Presence and the Doctrine of the Reformed Church on the Lord’s Supper, ed. Linden J. DeBie (The Mercersburg Theology Study Series 1), Wipf and Stock, Eugene, OR 2012, 47 (ed. or.: The Mystical Presence: A Vindication of the Reformed or Calvinistic Doctrine of the Holy Eucharist, S.R. Fisher & Co., Philadelphia 1846).

[2]        Não pretendo repetir o que já escrevi e remeto para o meu Dall’Ultima Cena all’Eucaristia della Chiesa (Studi e ricerche di liturgia 29), EDB, Bologna 2014.

 

Enrico Mazza

(Parma, 23 Abril 1940)

Sacerdote da diocese de Régio Emília-Guastala, em Itália, estudou teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, especializando-se depois em liturgia e teologia dos sacramentos no Pontifício Instituto Litúrgico do Ateneu de S. Anselmo de Roma. Docente de liturgia e teologia dos sacramentos no Instituto Teológico Interdiocesano de Régio Emília desde 1968, desde 1987 é docente de história da liturgia na Universidade Católica do Sagrado Coração de Milão e orientou cursos e seminários em várias instituições académicas (Faculdade Teológica da Itália Setentrional de Milão; Pontifício Instituto Litúrgico de Roma; Instituto Superior de Liturgia – Faculdade de Teologia do Instituto Católico de Paris).

Entre as suas publicações anotamos: Le odierne preghiere eucaristiche (2 vol., EDB, Bolonha 21991; trad. inglesa); L’anafora eucaristica. Studi sulle origini (C.L. V. – Edizioni Liturgiche, Roma 1992; trad. inglesa); La mistagogia. Le catechesi liturgiche della fine del quarto secolo e il loro metodo (C.L.V. Edizioni Liturgiche, Roma 21996; trad. inglesa); Continuità e discontinuità. Concezioni medievali dell’eucaristia a confronto con la tradizione dei Padri e della liturgia (C.L.V. – Edizioni Liturgiche, Roma 2001); La celebrazione della penitenza. Spiritualità e pastorale (EDB, Bolonha 22007); La celebrazione eucaristica. Genesi del rito e sviluppo dell’interpretazione (EDB, Bolonha 32010; trad. francesa e inglesa). La liturgia della penitenza nella storia (EDB, Bolonha 2013); Dall’Ultima cena all’eucaristia della Chiesa (EDB, Bolonha 2014), Le odierne preghiere eucaristiche (EDB, Bolonha 2014); Il Nuovo Testamento e la Cena del Signore (EDB, Bolonha 2017); Il Logos, software della creazione (EDB, Bolonha 2018).