«Mendigos da Luz de Cristo» - Nota Pastoral para o Ano Litúrgico e Pastoral 2018/2019 | Diocese Bragança-Miranda

Jesus Cristo é o autêntico Dom da Esperança e o grande mistério da Luz. Na noite da Páscoa cantamo-Lo: Luz de Cristo e no Credo professamo-Lo: Luz da Luz. Na verdade, também assim O celebramos: «vós que fostes batizados em Cristo, estais revestidos da luz». O próprio documento do Concílio Vaticano II sobre a Igreja abre com esta aclamação: «a luz dos povos é Cristo» (Lumen Gentium 1).

O Ano Litúrgico e Pastoral diocesano 2018/2019 é dedicado ao sacramento da Confirmação, no horizonte do projeto pastoral Por Cristo, com Cristo e em Cristo. As palavras do cego de nascença que Jesus curou: «O Senhor ungiu os meus olhos» (cf. Jo 9, 1-41) guiar-nos-á para podermos responder à pergunta: porque Jesus é o Salvador?

A cura do jovem cego de nascença, que não pertencia a ninguém, testemunha o caminho da Iniciação Cristã, passando a pertencer a Cristo, a si mesmo e aos outros. No tempo de Jesus, muitos pensavam que a doença era resultado do pecado do próprio ou, neste caso, dos seus pais. Jesus recusa tal ligação e num gesto comparável ao da criação, comunica vida nova. Esta narrativa do encontro de Jesus com este mendigo da luz evoca todo o seguimento batismal com o crisma e a Eucaristia.

No dinamismo da narração, os verbos ver e acreditar: «pôs-me lama nos olhos, lavei-me e comecei a ver!» (Jo 9,15), suscitam a pergunta no homem curado: «E quem é, Senhor, para eu crer nele?» (Jo 9, 36). Jesus responde: «Já o viste. É aquele que está a falar contigo» (Jo 9,37) e o homem exclama: «Eu creio, Senhor!» (Jo 4,38). Esta pessoa faz um percurso da fé em Jesus Cristo, semelhante ao caminho da Iniciação Cristã: 1) «não sei» (Jo 9,12); 2) «é um profeta» (Jo 9, 17); 3) «vem de Deus» (Jo 9, 33); 4) «eu, creio, Senhor!» (Jo 9, 38).

Ainda este ano, e em comunhão com as outras Dioceses de Portugal, queremos colocar-nos na atitude proposta pela Conferência Episcopal Portuguesa: «Todos, tudo e sempre em Missão», «acolhendo com alegria a proposta do Papa Francisco de um Mês Missionário Extraordinário para toda a Igreja, nós, Bispos portugueses, propomo-nos ir mais longe e celebraremos esse mês como etapa final de um Ano Missionário em todas as nossas Dioceses, de outubro de 2018 a outubro de 2019».

A missão não é só dos bispos, presbíteros, diáconos, consagrados, mas compromete todos os cristãos. A comunidade cristã é o lugar onde o Espírito Santo se manifesta (1Cor 14) com a riqueza dos carismas.

1. O sacramento da Confirmação

O rito da Confirmação ou “crisma” desenvolve a íntima relação da Confirmação com o Batismo e a Eucaristia. Habitualmente, o sacramento da Confirmação celebra-se «dentro da Missa, para que se torne mais clara a conexão fundamental deste sacramento com toda a iniciação cristã, que atinge o seu ponto culminante na comunhão do Corpo e do Sangue de Cristo. Deste modo os confirmados participam na Eucaristia, com a qual se completa a sua iniciação cristã».

A Sacrosanctum Concilium considera a Confirmação de modo especial na sua relação com o Batismo: «Para fazer ressaltar a íntima união do sacramento da Confirmação com toda a Iniciação Cristã, reveja-se o rito deste sacramento; pela mesma razão, é muito conveniente, antes de o receber, fazer a renovação das promessas do Batismo. A Confirmação, se parecer oportuno, pode ser conferida durante a missa» (n. 71).

Os preliminares da celebração da Confirmação começam, também, com uma frase ilustrativa da Iniciação Cristã: «Os batizados prosseguem o itinerário da Iniciação Cristã pelo sacramento da Confirmação. Por este sacramento recebem a efusão do Espírito Santo que, no dia do Pentecostes, o Senhor enviou sobre os Apóstolos». A originalidade da Confirmação está, portanto, na relação direta com o acontecimento do Pentecostes.

Igualmente a fórmula epiclética da oração da consagração do crisma na Missa Crismal, que celebramos na manhã de Quinta-feira santa na Catedral, realça esta inter-relação sacramental: «... convertei este crisma em sacramento de salvação e vida perfeita para aqueles que hão-de ser renovados no santo Batismo; recebida a unção santificante, e superada a corrupção do primeiro nascimento, sejam templos da vossa majestade e exalem o perfume de uma vida santa; segundo o mistério do vosso plano salvador, recebam a dignidade real, sacerdotal e profética e sejam revestidos da graça e da imortalidade; para os que renascerem da água e do Espírito Santo, seja este óleo crisma de salvação, e os torne participantes da vida eterna e da glória celeste».

Quanto aos efeitos da Confirmação, os preliminares exprimem: «pelo Espírito Santo que lhes é dado, os fiéis são mais perfeitamente configurados com Cristo, e são fortalecidos pela sua virtude para darem testemunho de Cristo em ordem à edificação do seu corpo na fé e na caridade. Neles se imprime um carácter ou marca do Senhor, de tal modo que o sacramento da Confirmação não pode ser repetido». O significado desta afirmação não respeita só ao testemunho, mas também à realização dos gestos do sacerdócio de Cristo.

O Espírito Santo desce sobre cada um e manifesta-se nos seus frutos, como os elenca S. Paulo: «amor, alegria, paz, paciência, benevolência, bondade, fé, mansidão e domínio de si» (Gl 5,22).

Interessa, ainda, ver o que o Pontifical diz sobre os efeitos da Confirmação: «o dom do Espírito Santo, que ides receber, vai marcar-vos com um sinal espiritual que vos tornará mais conformes com Cristo e mais perfeitamente membros da sua Igreja». A conformidade com Cristo faz depender a Confirmação do Baptismo que Jesus recebeu no Jordão, como se evidencia no texto: «o próprio Cristo, ungido pelo Espírito Santo no Baptismo, que recebeu de João, foi enviado a realizar a obra do seu ministério de difundir sobre a terra o fogo do Espírito».

O Catecismo da Igreja Católica sublinha a eficácia sacramental da celebração da Confirmação: «ressalta desta celebração que o efeito do sacramento da Confirmação é a infusão do Espírito Santo em plenitude, tal como outrora aos Apóstolos, no dia de Pentecostes. Daí que a Confirmação venha trazer crescimento e aprofundamento da graça batismal: enraíza-nos mais profundamente na filiação divina, que nos permite dizer “Abba! Pai!” (Rm 8,15); une-nos mais firmemente a Cristo; aumenta em nós os dons do Espírito Santo; torna mais perfeito o laço que nos une à Igreja; dá-nos uma força especial do Espírito Santo para propagar e defender a fé, pela palavra e pela acção, como verdadeiras testemunhas de Cristo, e para nunca nos envergonharmos da Cruz». Daqui se compreende como a Confirmação seja o sacramento do testemunho da fé ou sacramento da missão.

Após um exame dos textos bíblicos e uma bem documentada parte histórica, o Papa S. Paulo VI determinou: «A fim de que a revisão do rito da Confirmação possa abranger convenientemente também a própria essência do rito sacramental, com a Nossa autoridade apostólica, decretamos e estabelecemos que, daqui para o futuro, na Igreja Latina seja observado quanto segue: o sacramento da Confirmação é conferido pela unção do Crisma na fronte, que se faz com a imposição da mão, e pelas palavras: recebe, por este sinal, o Espírito Santo, o Dom de Deus».

O sacramento da Confirmação ou Crisma envolve uma série de problemas de ordem teológico-litúrgico e pastoral, ainda não completamente resolvidos, como a questão do rito essencial da celebração e a questão da idade.

A propósito da idade o Código de Direito Canónico afirma: «O sacramento da confirmação administre-se cerca da idade da discrição, a não ser que a Conferência Episcopal determine outra idade, ou exista perigo de morte, ou, a juízo do ministro, causa grave aconselhe outra coisa» (cân. 891). Em Portugal, por determinação da Conferência Episcopal Portuguesa, a idade para a Confirmação é normalmente apontada por volta dos 14 anos: «Considerando que, nos casos normais, a recepção da Confirmação dos fiéis baptizados na infância deve integrar-se no crescimento da fé e ser precedida de uma preparação séria e adequada, conforme o exigem os cân. 889 §2 e 890, a Conferência Episcopal Portuguesa, em conformidade com o cân. 891, determina que, nas circunstâncias actuais, e tendo em conta as excepções previstas no direito, o Sacramento da Confirmação se celebre ordinariamente por volta dos 14 anos de idade».

No entanto, o aspeto mais relevante nos documentos do II Concílio Ecuménico do Vaticano e da reforma litúrgica é a unidade celebrativa da Iniciação Cristã e o seu fundamento nos eventos da salvação.

2. A celebração da Confirmação

Confirmar, significa consolidar ou reforçar o batizado, completando o que já foi realizado no Batismo. Entre nós, ainda que a Confirmação seja celebrada com muita distância temporal em relação ao Batismo, «não se pode teologicamente diminuir o Batismo para valorizar a Confirmação» (L-M. Chauvet).

A unidade entre o Batismo e a Confirmação remete para a Eucaristia. Embora estes sacramentos estejam separados na ação pastoral, constituem uma unidade celebrativa e até uma sequência no plano teológico. De facto, «é preciso não esquecer jamais que somos batizados e crismados em ordem à Eucaristia. Este dado implica o compromisso de favorecer na ação pastoral uma compreensão mais unitária do percurso de iniciação cristã» (Bento XVI). Mas, será que as nossas comunidades têm consciência da noção do vínculo íntimo e da unidade litúrgica e sacramental entre Batismo, Confirmação e Eucaristia?

A especificidade da Confirmação deriva, por conseguinte, da sua relação original com o Espírito Santo, da responsabilidade evangelizadora dos batizados e da sua relação especial com o Batismo, dando a plenitude do Dom. Assim, a Confirmação está para o Batismo, como o Pentecostes está para a Páscoa, que a conclui e completa.

Após a escuta da Palavra está prevista uma breve homilia. A homilia ritual exprime a teologia adotada pelo rito da Confirmação. Os grandes temas são de carácter bíblico, partindo dos Apóstolos que receberam o Espírito Santo no dia de Pentecostes «segundo a promessa do Senhor, e tinham por isso o poder de completar aquilo que fora começado no Batismo, dando o mesmo Espírito Santo, como lemos no livro dos atos dos Apóstolos».

A liturgia do sacramento da Confirmação desenrola-se nos seguintes atos:

a) a renovação das promessas batismais;

b) o convite à oração; a imposição das mãos sobre os confirmandos acompanhada pela oração de invocação do Espírito Santo;

c) a crismação.

2.1. Renovação das promessas batismais

A renovação da fé batismal dialogada indica que a fé requer um itinerário longo e esta, depois de recebida, é proclamada. Os confirmandos, fazem, agora, da fé uma decisão própria. A renovação das promessas batismais implica também a renúncia a satanás. A profissão de fé retoma a forma prevista para o ritual do Batismo, embora com acrescentos: «credes no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e que hoje, pelo sacramento da Confirmação, de modo singular vos é comunicado, como aos Apóstolos no dia de Pentecostes?».

A problemática em torno da imposição das mãos no rito da Confirmação tem sido objeto de vários estudos a nível teológico e litúrgico. O recurso às fontes litúrgicas permitiu uma melhor perspetiva acerca do significado deste elemento importante, mas não essencial no atual programa celebrativo da Confirmação, o qual se desenvolveu a partir do rito da Iniciação Cristã, originariamente único. Segundo os preliminares, a imposição das mãos que se faz sobre os confirmandos acompanhada pela oração própria é um momento importante do rito litúrgico, «embora não requerida para assegurar a validade do sacramento, seja tida em grande conta para assegurar a integridade do rito e uma compreensão mais plena do sacramento».

O Bispo é o ministro originário da Confirmação, sublinhando a sucessão apostólica com o acontecimento do Pentecostes. Rodeado pelo presbitério, o bispo exorta a assembleia a rezar pelos confirmandos, «para que, sobre estes seus filhos adotivos, que pelo Batismo já renasceram para a vida eterna, derrame agora o Espírito Santo, que os fortaleça com a abundância dos seus dons e, pela sua unção espiritual, os torne imagem perfeita de Cristo, Filho de Deus». Retoma-se nestas palavras a teologia da homilia ritual onde se afirma a vinculação mais perfeita à Igreja, o enriquecimento com uma força especial do Espírito Santo e a configuração a Cristo com a obrigação da difusão da fé por palavras e obras como suas verdadeiras testemunhas.

2.2. Oração e imposição das mãos

O invitatório e a oração, propriamente dita, sublinham o dom do Espírito como confirmação da vida iniciada no Batismo e a configuração a Cristo, o ungido do Espírito (Cf. Lc 4, 18-21).

A oração de invocação do Espírito Santo, de inspiração bíblica, articula-se nas dimensões trinitária, batismal e pneumatológica: «Deus todo-poderoso, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, pela água e pelo Espírito Santo, destes uma vida nova a estes vossos servos e os libertastes do pecado, enviai sobre eles o Espírito Santo Paráclito; dai-lhes, Senhor, o espírito de sabedoria e de inteligência, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de ciência e de piedade, e enchei-os do espírito do vosso temor».

A estrutura trinitária revela-se na introdução que cumpre também a anamnese do Batismo e dos seus efeitos. O primeiro efeito – «... pela água e pelo Espírito Santo, destes uma vida nova a estes vossos servos» – recorre à revelação de Jesus a Nicodemos (Jo 3,5); e o segundo efeito – «e os libertastes do pecado» – vem expresso em muitos textos do Novo Testamento, sobretudo em S. Paulo (cf. Rm 6,3-4.6-7.11). Esta oração juntamente com o rito da imposição da mão são já atestados pelos sacramentários antigos para a invocação dos sete dons do Espírito Santo, isto é: sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus. Conforme o texto, o que confere o dom do Espírito é a imposição da mão do bispo com a oração. A petição enumera o Espírito septiforme, evocando o poema messiânico (Is 11,2.3) do livro do Profeta Isaías.

A imposição da mão/mãos é um gesto presente em toda a história da salvação. A imposição da mão é um gesto ritual sacrificial (Cf. Lev 1,4.10;4,4.24.29.33) e a imposição das mãos significa uma transferência de qualquer coisa (cf. Ex 29,10.15.19; Lev 3,2.8.13;4,15;8,14.18.22;16,21;24,14; Num 8,10.12;27,18.23; Dt 34,9.) e de bênção (Mc 10,16; Mt 19,13.15). A imposição das mãos, na Igreja antiga, estava ligada ao dom do Espírito Santo. Com o gesto da imposição das mãos continua-se a tradição apostólica: «rezaram pelos samaritanos que somente haviam sido baptizados em nome do Senhor Jesus a fim de que recebessem o Espírito Santo... Então começaram a impor-lhes as mãos, e eles recebiam o Espírito Santo» (Act 8,15-17).

Por causa dos diferentes significados com que o gesto da imposição das mãos aparece na Sagrada Escritura, reconhece-se a insuficiência da simples imposição das mãos para expressar a graça e o efeito da Confirmação. A solução apresentada pelo atual rito é um compromisso entre as fontes litúrgicas e o posterior desenvolvimento do rito ao longo da história. O rito oferece assim um duplo significado. Por um lado, pela imposição das mãos, exprime o gesto bíblico pelo qual se invoca o Espírito Santo; por outro lado, a unção do crisma e as palavras que a acompanham expressam os efeitos do dom do Espírito Santo.

2.3. Crismação

A essência do rito sacramental da Confirmação consiste na unção do Crisma e na imposição da mão: «o sacramento da Confirmação é conferido pela unção do Crisma na fronte, que se faz com a imposição da mão, e pelas palavras: Recebe, por este sinal, o Espírito Santo, o Dom de Deus».

Esta decisão dogmática acerca da unção, que constitui o rito essencial sacramental da Confirmação, «pela primeira vez na tradição latina» faz com que o rito da imposição das mãos, tradicional na história do Rito latino, apareça menos saliente. Consequentemente, a imposição das mãos serve só para introduzir e integrar melhor o rito a fim de favorecer uma mais plena inteligência do sacramento. Com tal decisão torna-se evidente que a imposição das mãos é diferente da imposição da mão na crismação.

O sacramento da Confirmação, conferido por meio da unção e da fórmula própria, colocou algumas questões à teologia sacramental, dado que a tradição do rito romano contemplou sempre dois ritos: «a imposição das mãos do bispo com uma invocação do Espírito Santo e a signação na fronte com o santo crisma».

O dom que se recebe é o Espírito Santo. Percebe-se claramente uma renovação teológica, ao privilegiar a crismação em relação à imposição das mãos e, ao mesmo tempo, uma vontade de diálogo ecuménico.

Segundo a Tradição, «a testa é ungida, porque se acreditava que ela era o lugar da vergonha, quando nos enchemos de rubor. Somos ungidos ali, para que possamos entrar na praça pública e confessar a nossa fé se pejo e timidez. Ser marcado (Ef 1,1) significa que somos assinalados como pertencendo a Cristo».

O grande Bispo, D. Bartolomeu dos Mártires, cujo lema era «arder e iluminar», escreveu no seu livro que se tornou clássico, O Estímulo dos Pastores: «há feridas, cuja cura se não consegue lancetando-as, mas curam-se untando-as com bálsamo de azeite». Esta mistura de bálsamo com o azeite é o Santo Crisma, azeite e perfume, que consagrado na Missa Crismal, serve para a celebração dos sacramentos do Batismo, da Confirmação, da Ordem dos Presbíteros e dos Bispos e para a dedicação da Igreja e do Altar. Aqui, o azeite é como «o sacramento do Espírito Santo» (St. Agostinho). Pode até dizer-se ‘o sacramento do azeite’, enquanto o azeite remete para a unção, ou seja, para Cristo, o ungido do Pai.

O azeite é o fruto da oliveira e atenua os sofrimentos e quando aplicado com misericórdia é símbolo da mesma misericórdia, a que podemos até chamar de ‘sacramento do azeite’. É o que acontece na parábola do bom samaritano que cuida do homem que caiu nas mãos dos salteadores (cf. Lc 10, 34). Além de temperar os alimentos, o azeite cura com o seu bálsamo as feridas. A unção com azeite significa bênção, consagração, cura e amor de Deus.

Nos adros de muitas igrejas e capelas da Diocese de Bragança-Miranda, ou em seu redor como uma coroa, existem oliveiras verdejantes, que levam o povo a cantar: «benditas oliveiras da nossa terra amada, sois vós que alimentais a lâmpada sagrada». O mesmo acontece na escadaria da Catedral! Também aqui é expressiva a admiração do Profeta Jeremias: «verdejante oliveira de belos frutos» (Jr 11,16). Não sem razão, a liturgia para a Bênção de um altar propõe a seguinte antífona: «Como rebentos de oliveira, assim os filhos da Igreja, em volta da mesa do Senhor».

A flor da oliveira é chamada em muitos lugares da Diocese, a espiga da oliveira, que se expõe ao vento para ser limpa e a flor que consegue resistir desenvolve-se em azeitona, o fruto da oliveira.

Alguns autores na representação da Anunciação do Senhor, colocam um ramo de oliveira nas mãos do Anjo que fala com Maria, como que a dizer: «O Senhor é contigo». A oliveira é sinal de confiança total como escreve o salmista: «Eu, porém, como oliveira viçosa na casa de Deus, confio para sempre na sua misericórdia» (Sl 15, 10).

A oliveira, por causa da sua folha perene e do seu fruto que desafiam os rigores do inverno, pode também inspirar os crentes a uma confiança na Graça de Deus, fonte de vida plena, semente de eternidade. Esta confiança acende-se no meio das tribulações deste mundo, suportada pela esperança e pela caridade.

O azeite é também símbolo do amor que vence a espera, como na parábola das dez virgens (cf. Mt 25, 1-13), exortação à fidelidade e à prudência, luz da fé, nas noites onde as evidências de Deus são envolvidas de escuridade.

O azeite, o sumo da azeitona da oliveira, onde cai, marca. Santo Agostinho aponta até «a alegria do azeite» que faz brilhar o rosto dos baptizados que vivem de Cristo. De facto, o Salmo 132 refere esta alegria e beleza do azeite, para cantar a fraternidade: «Vede como é bom e agradável que os irmãos vivam unidos! É como azeite perfumado derramado sobre a cabeça, a escorrer pela barba, a barba de Aarão, a escorrer até à orla das suas vestes».

Uma antiga oração do século III reza assim: «Assim como, santificando este azeite, com o qual ungistes reis, sacerdotes e Profetas, concedeis, ó Deus, a santidade aos que com ele são ungidos e aos que o recebem, assim também ele dê alívio àqueles que vierem a prova-lo e saúde aos que dele se servirem» (Tradição Apostólica 5).

Por isso, ousamos dizer: «Deus de bondade e fonte da vida, criastes o universo para encher de bênçãos todas as criaturas e a muitas alegrar na claridade da vossa luz (...). Formastes o homem à vossa imagem e lhe confiastes o universo, (...). E quando, por desobediência, perdeu a vossa amizade, não o abandonastes ao poder da morte, mas, na vossa misericórdia, a todos socorrestes, para que todos os que Vos procuram Vos encontrem» (Oração Eucarística IV).

3. Propostas espirituais, pastorais e missionárias

De acordo com o nosso projeto pastoral trienal e no plano pastoral deste ano, elaborado em caminho sinodal em encontro de encontros que juntos estamos a percorrer, gostaríamos de destacar:

  • (re)descobrir os caminhos bíblicos, litúrgicos, pastorais, espirituais e da Piedade popular para cada um responder no próprio caminho quotidiano à pergunta orientadora: porque Jesus é o salvador?
  • (re)encontrar uma catequese mistagógica e de proximidade: «a finalidade última da catequese é pôr as pessoas não apenas em contacto, mas em comunhão, em intimidade, com Jesus Cristo» (S. João Paulo II);
  • (re)acreditar a fé contida no Credo;
  • (re)valorizar a celebração da Semana Santa, o Tríduo Pascal e o Tempo Pascal;
  • Celebrar o sacramento da Confirmação com os Jovens e os Adultos em todas as Unidades Pastorais;
  • Fortalecer o entusiamo da missão;
  • Revisitar, na alegria da caridade e em ‘visita pastoral’ pelo Bispo Diocesano, todas as Instituições da Diaconia da Caridade: Cáritas Diocesana, Fundações Canónicas, Centros Sociais Paroquiais, Santas Casas da Misericórdia e outras casas da Caridade;
  • reunir a comunidade arciprestal, família de famílias, no dia arciprestal, em redor da renovação das promessas batismais e a entrega do Símbolo dos Apóstolos.

Somos mendigos da Luz de Cristo como quem encontra de comer: «Os missionários são mendicantes que encontram outros mendicantes e lhes dizem onde encontraram de comer» (D. Tonino Bello). Este é o tempo que nos chama a sermos autênticos discípulos missionários em comunhão. Este é o tempo para uma séria conversão espiritual, pastoral e missionária de todos e de cada um de nós.

Cada um de nós é uma missão: «é algo que não posso arrancar do meu ser se não me quero destruir. Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo» (Papa Francisco, Evangelii Gaudium 273)

Abraço-vos cordialmente com a Bênção Pastoral na comunhão crente e orante e, «o Deus da Esperança vos encha plenamente de alegria» (Rom 15,13).

Sob a proteção de Nossa Senhora do Caminho, sigamos no Dom da Esperança e no Mistério da Luz.

Mogadouro, 1 de dezembro de 2018, Abertura do Ano Litúrgico e Pastoral.

+ José, Bispo de Bragança-Miranda

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Fotografia: BLR/SDCS.