Homilia da Trasladação de D. Abílio Augusto Vaz das Neves - 08.06.2019 | Diocese Bragança-Miranda

D. Abílio Augusto Vaz das Neves

26 anos de episcopado em Bragança-Miranda (1939-1965)

125º aniversário do nascimento (8.6.1894 - 8.6.2019)

 

1. A Vocação faz-se Missão

No texto do evangelho de hoje, o serviço da missão dos discípulos no momento da Ascensão de Jesus começa com a bênção do Ressuscitado e com o louvor no templo, ou seja, o bendizer a Deus e de Deus com a inteligência, o coração e a vida toda.  Assim, o Evangelho de S. Lucas termina onde começou, no Templo. Sem o Espírito Santo, sem a oração, sem a doação inteira do enviado não há missão.

A ideia da missão universal inaugura-se em cada um de nós que acolhe o Evangelho e deste encontro nasce o dinamismo para o anunciar e testemunhar na simplicidade do quotidiano. Fazer discípulos entre todas as nações não quer dizer que todos se devam converter, mas que o povo de Deus esteja entre todas as gentes.

O objetivo da missão é fazer discípulos, não apenas para oferecer uma mensagem ou uma doutrina, mas sim para estabelecer uma relação com Cristo. O cristão é um discípulo missionário em comunhão. A vocação e a missão andam de mãos dadas, ou melhor só há vocação-missão. Pela Iniciação cristã somos chamados à vida em Deus e no dia a dia vivemos a missão. A Boa notícia leva-nos ao seguimento de Jesus Cristo. Só O pode seguir quem ama. Esta comunicação da fé deve ser simples e olhar o essencial, valorizando os tesouros da Tradição para as pessoas de hoje.

A alegria da fé tem de nos levar à coerência da vida segundo o Espírito Paráclito, que sempre nos defende. Para ser defensor é porque há um acusador. O acusador é o espirito do mal, do egoísmo, do orgulho e do narcisismo refinado que existe na Igreja.

Como exorta o Papa Francisco são necessários evangelizadores com espírito: «evangelizador com espírito quer dizer evangelizadores que se abrem sem medo à acção do Espírito Santo. No Pentecostes, o Espirito faz os Apóstolos saírem de si mesmos e transforma-os em anunciadores das maravilhas de Deus, que cada um começa a entender na própria língua. Além disso, o Espirito Santo infunde a força para anunciar a novidade do evangelho com ousadia (parresia), em voz alta e em todo o tempo e lugar, mesmo em contracorrente» (Evangelii Gaudium 259). A acção missionária é o paradigma de toda a Igreja.

 

2. Missionário Bispo no Oriente e no Ocidente

O mote episcopal de D. Abílio foi: «omnia possum in Eo qui me confortat. —Tudo posso n’Aquele que me conforta» é da carta de S. Paulo aos Filipenses 4,13. Este excerto é cheio de ternura e gratidão por parte do grande missionário apostólico à comunidade de Filipos, que o apoiou em tudo. Todavia, Paulo narra que soube viver na penúria e na abundância.

Desde os 11 anos, com o desejo missionário, partiu de Ifanes (Miranda do Douro) para Lisboa e dois anos mais tarde para Cochim (Índia), onde foi formado no Seminário de Meliapor sob orientação dos Jesuítas; aos 25 anos foi ordenado Presbítero; aos 40 anos foi Bispo de Cochim e com 45 anos reentra na nossa amada Diocese para continuar o espírito da missão e da missão com espírito.

«Quando olho para trás e penso neste quarto de século passado entre vós, ao vosso serviço, fico pensando: como Deus é misericordioso, como Deus é bom, como Deus é grande e nós pequenos! Um quarto de século entre os meus! Meu Deus de misericórdia!» (18.2.1965).

D. Abílio deixou, na capela da atual casa episcopal, um belo quadro que mostra Moisés diante da sarça ardente, descalço e ajoelhado, porque a terra que pisa é sagrada. Quem lá entra, a começar pelas crianças, diz, quase sempre, que a pintura é o Bom Pastor, que dá a vida pelo rebanho. E bem! A missão é ter a coragem de estar sempre diante do fogo ardente da Palavra e dos Sacramentos; é acreditar que o deserto é fértil; é andar caminhos não andados e testemunhar o dom da Luz da vida a todos e a cada um, por montes e vales.

O missionário é aquele que testemunha com o coração ardente a vida boa que o habita na harmonia da interioridade e exterioridade e a cordialidade e a corporeidade, para que sejam “todos, tudo e sempre em missão”.

 

3. Catedral, casa da Igreja em Missão

«Acerca da Sé Nova de Bragança muito tinha a dizer, porque, desde a minha entrada na Diocese, a tenho tido em mente. Mas, para ser breve, porque a entrevista já é longa, repito o que disse acima, e que é o meu grande argumento: a Sé Nova de Bragança é uma necessidade urgentíssima que não pode esperar mais: sente-se, há duzentos anos, desde a transferência do Cabido e o Bispo da Diocese de Miranda para Bragança. A sua realização no prazo dos próximos 6 anos, de 1964 até 1970, em que ocorrem os dois centenários, respetivamente, da transferência do Cabido para Bragança, em 1764, e da aprovação da Santa Sé, em 1770, depende da boa vontade e brio dos Bragançanos e da continuação da boa vontade do Estado; esperamos que, longe de diminuírem, aumentem cada vez mais. Da minha parte, não posso contar que levarei a cabo tão grande empresa, como é evidente, todavia, enquanto puder, quero dar-lhe toda a minha fé, esforço e boa vontade» (Mensageiro de Bragança - 20.2.1964).

«Temos fé em Deus e nos habitantes de Bragança. Continuaremos a viver na esperança de ver realizada a obra mais urgente e necessária desta cidade — um Templo condigno, uma Sé Nova que dê glória a Deus e honre os Bragançanos» (Bragança, 8 de março de 1964).

Todavia, em 20.2.1965 é aceite o pedido da sua resignação. «Deixo a pastoreação da Diocese com muita saudade e com a mágoa que não posso nem devo esconder». A Catedral terá sido a causa do seu sofrimento.

Pelo dom e o mistério da vida episcopal de D. Abílio é justa e necessária esta celebração de memória grata e esperança cristã!

Como família diocesana, com as Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado, com a Fundação Mensageiro de Bragança, com a Fundação Casa de Trabalho-Patronato de Santo António, com a Fundação Casa da Criança Mirandesa, com o Carmelo da Sagrada Família, obras iniciadas durante ministério episcopal de D. Abílio, e com outros Institutos de vida consagrada e instituições acolhidas no mesmo tempo, – seja este dia de gratidão e de esperança, nos caminhos sempre novos da vocação que se faz missão.

+ José Manuel Garcia Cordeiro

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Fotografia: BLR/SDCS