Celebração Exequial de D. António José Rafael | Diocese Bragança-Miranda

Homilia de D. José Cordeiro na Celebração Exequial de D. António José Rafael:

 

Catedral, 30 de julho de 2018

A Liturgia cristã dos funerais é celebração do mistério pascal de Cristo. Antes de mais, o que é pascal, é a morte do cristão, porque esta é uma páscoa. Se no Baptismo, o cristão foi imerso na morte de Cristo, agora na sua morte física, ele está realmente morto em Cristo para viver com Cristo para sempre. Por consequência, o primeiro celebrante desta liturgia fúnebre é o próprio defunto, que celebra a sua participação no mistério pascal de Cristo e não mais no mistério sacramental, mas na verdade plena.

A liturgia é, com efeito, o lugar decisivo do anúncio da fé cristã.

Hoje, agradecemos em louvor coral a Deus pelo dom e pela vida do mistério e ministério pastoral de D. António José Rafael. Queremos agradecer ainda à sua família, especialmente à sua fiel irmã e amiga, qual anjo da guarda, a Dª Antónia Rafael; damos graças a Deus pela Diocese de Lamego, da qual recebemos D. Rafael e D. Manuel de Jesus Pereira, seu antecessor; louvamos a Deus por esta Igreja de Bragança-Miranda que peregrina no Nordeste Transmontano a quem serviram de coração inteiro; agradecemos às direções e colaboradores do Instituto Diocesano do Clero e da Fundação Betânia, que tão paciente e amavelmente cuidaram do nosso bispo, desde 2014; a nossa gratidão a todos e a cada um de vós.

1. A graça verdadeira por Jesus (cf. Jo 1,17)

A graça e a verdade de Cristo: «busquei esse rosto, e julgo tê-lo encontrado no prólogo do Evangelho de S. João, quando o evangelista apresenta Jesus “cheio de graça e verdade”» (Saudação e mensagem 19.03.1977, publicada no MB)

O lema preferido para o ministério episcopal todo exercido ao serviço da porção do povo de Deus presente em Bragança-Miranda durante 24 anos, 1 ano e 6 meses como Bispo Auxiliar de D. Manuel de Jesus Pereira (1977-1978); 6 meses como Vigário capitular e 22 anos de Bispo Diocesano (1979-2001) – expressa a sua vida e o mistério do ministério aqui no Nordeste Transmontano.

«Somos centenas de minúsculas e isoladas povoações. Mas precisamos de ser um grande Povo – um «Povo de Deus» feito de centenas de «povoações de Deus». (...) Temos em cada localidade, pelo menos uma Cruz a dar a direção do Alto, e a apontar os horizontes da Aldeia, e a proclamar que aquele chão é possessão do nosso Deus e Senhor. Mas nós somos todo um Nordeste que quer ser e viver cada vez mais para Deus, segundo Cristo» (26.06.1983).

2. A sabedoria livrou do sofrimento os seus fiéis

D. António Rafael era como «uma força da natureza». E, como sabemos, as forças da natureza são incontroláveis. Só a graça e a verdade por Jesus as pode cativar e encantar. Na verdade, D. Rafael faz parte dos grandes homens de um reino maravilhoso, o de Trás-os-Montes, como escreveu M. Torga: «...estes homens não têm medo senão da pequenez. Medo de ficarem aquém do estalão por onde, desde que o mundo é mundo, se mede à hora da morte o tamanho de uma criatura».

Ler Bragança, conhecer Bragança, estudar Bragança, foram os seus slogans preferidos e atitude assumida, bem fundamentado nas obras do Mons. José de Castro e do P. Francisco Alves, o Abade de Baçal. Estava persuadido que «não aceitarmos vir do passado é cortarmos as raízes do futuro».

3. Fiz-me tudo para todos para a todos salvar

É de D. Rafael, a vontade firme da pastoral pontifical: «ora, que é, que deve ser o bispo, senão um pontífice? E que é o pontífice, senão um homem de “Deus e dos homens” com a missão de fazer ponte que sobreleve e supere todos os separatismos e divisões ou desunião, como quem diz, todo levantar “pontes” de transcendência entre o tempo e a eternidade, “pontes” de fraternidade entre os homens, que superem todos os separatismos e divisões ou desuniões, como quem diz, que desfaçam todo o pecado? Pontes de tudo o que é humano para todos os homens, sem exceção de um só, para ganhar a todos para a verdade e para a paz. (...) Mas, meus irmãos, meus irmãos: não pode haver pontes sem margens que a aceitem e onde se apoie» (19.03.1977).

O seu zelo apostólico levou-o a questionar: «Poderá evangelizar-se um distrito que é, sobretudo, berço e tumba, terra da 1ª e 3ª idade?»

4. O terceiro ‘Bispo da catedral’

No dia da dedicação, 7 de Outubro de 2001, D. Rafael disse com emoção na homilia: «Bragança, aqui tens a tua catedral». E ao despedir-se escreveu no Mensageiro de Bragança: «Até sempre! Na nossa catedral, para sempre nos encontraremos!»

D. António José Rafael realizou o sonho do projecto de D. Abílio Augusto Vaz das Neves e de D. Manuel de Jesus Pereira. Com ele vivi algumas das fases da construção da Catedral e aceitei a nomeação para a campanha de sensibilização e angariação de fundos para a construção da Catedral em 1995, à qual dêmos o nome “Catedral, casa de todos”, e ainda para a Assistente litúrgico e Mestre das celebrações litúrgicas no dia da dedicação (07.10.2001).

O sentido da convicção do terceiro “Bispo da Catedral” era que: «Diocese sem Catedral seria como árvore sem raiz ou como rio sem nascente».

Em 1987, a Diocese já tinha lares da 3ª idade (como se dizia) com o mínimo de condições em Bragança, Miranda, Macedo de Cavaleiros e Mirandela. Com D. Rafael e também fruto do seu impulso, seguido de D. António Montes Moreira, hoje tem a responsabilidade de mais de 70% das respostas sociais e de justiça entre gerações na Cáritas Diocesana, nas Fundações canónicas, nas Santas Casas da Misericórdia, nos Centros Sociais Paroquiais.

Diante do seu estilo frontal, lutador e corajoso ninguém ficou indiferente na pastoral da justiça e da paz. Pensava a Europa como um lugar de Paz e de solidariedade olhando ao seu patrono – S. Bento – com o mote ora et labora et lege. Era um entusiasta da Europa, mesmo antes de 1985 e não invocando argumentos económicos, mas culturais. Possuía uma cultura geral invulgar. Transformou as dificuldades em oportunidades.

Convosco, dou graças a Deus pelo dom e pela vida de D. António Rafael. Recebi da imposição das suas mãos o sacramento da Ordem nos três graus. Tive a graça de contar com os dois Bispos que me antecederam para melhor decidir e acertar no ministério episcopal aqui em Bragança-Miranda.

Em algumas liturgias orientais, no rito da ordenação o Bispo entregava ao ordenando um corporal (syndonem) que devia acompanhar o sacerdote na celebração da Eucaristia. Ao estendê-lo o sacerdote deveria lembrar-se do Ordenante e rezar sempre por ele.

Pax!

+ José Manuel Cordeiro

Fotografia: BLR/SDCS.