Retiro mensal, em Balsamão: O Sínodo e a Comunhão dos Santos em Cristo | Diocese Bragança-Miranda

Realizou-se, domingo passado (16 de novembro), o retiro mensal, em Balsamão, subordinado ao tema “O Sínodo e a Comunhão dos Santos em Cristo”, sob a orientação do P. Basileu Pires, MIC, e com a participação de 6 pessoas. O retiro iniciou-se com a oração da manhã, pelas 9:30h, e terminou com a oração da tarde e oração da Santíssimo, pelas 17h.

Partindo da experiência do sínodo sobre a sinodalidade, agora na fase implementação, em que todos estamos empenhados em ser uma igreja sinodal – uma Igreja em que todos caminhamos juntos, em comunhão; em que todos somos chamados a participar, cada um com o seu dom específico; e em todos somos discípulos missionários, responsáveis pela missão de anunciar o Evangelho –  vimos como o mistério da comunhão dos santos em Cristo, que fundamenta a prática da Igreja no auxílio aos nossos irmãos que se purificam depois desta vida – ganha pleno sentido nesta igreja sinodal que queremos ser. Caminhamos todos juntos!

A Igreja é mistério de comunhão com Deus e dos homens entre si (Lumen Gentium).

Na profissão de fé do Papa S. Paulo VI, diz-nos: “Cremos na comunhão de todos os fiéis de Cristo, a saber: dos que peregrinam sobre a terra, dos defuntos que ainda se purificam e dos que gozam da bem-aventurança do céu, formando todos juntos uma só Igreja”. Formamos todos juntos uma só Igreja (una e única), embora em etapas diferentes: a Igreja da terra, a Igreja que se purifica depois desta vida e a Igreja do céu!

E é uma Igreja santa (como professamos no Credo), porque santificada por Cristo, embora feita por pecadores. A Igreja do céu já chegou à santidade plena. Nós e os irmãos do purgatório ainda estamos a caminho! Já fomos santificados, mas ainda não atingimos a plenitude da santidade.

Esta comunhão é uma comunhão de amor solidário: “nenhum de nós vive para si mesmo” (Rm 14, 7); “Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro for honrado por alguém, todos os membros se alegram com ele”(1 Cor 12, 26-27). “O mais insignificante dos nossos actos, realizado na caridade, reverte em proveito de todos, numa solidariedade com todos os homens, vivos ou defuntos, que se funda na comunhão dos santos. Pelo contrário, todo o pecado prejudica esta comunhão” (CIC 953). Durante o mês de novembro, a Igreja exorta-nos a uma comunhão solidária com os irmãos defuntos que ainda sofrem a “purificação final dos eleitos” (CIC 1031), a que chamamos purgatório, para que, com a nossa ajuda fraterna, possam gozar da bem-aventurança eterna.

 

Reflectiu-se, de seguida, sobre a visão que a Igreja tem, hoje, do Purgatório, que foi definido como verdade de fé pelo Concílio de Trento (séc. XVI) e confirmado pelo Concílio Vaticano II (séc. XX), tendo como fundamento a doutrina da Comunhão dos santos em Cristo.

Um período áureo para o desenvolvimento da teologia e da doutrina do Purgatório é protagonizado por personalidades ímpares, Dante Alighieri (1265-1321) e Santa Catarina de Génova (1447-1516).

Para Dante, o Purgatório é o “lugar da esperança e do início da bem-aventurança, da entrada progressiva na luz”. Na sua obra, a Divina Comédia, coloca as almas do Purgatório em constante oração e cantando. Fiel a tradição recebida, não se esqueceu do tema dos sufrágios dos vivos pelos defuntos. Neste sentido, coloca na boca de uma das personagens da obra a seguinte afirmação: “pois aqui, com a ajuda dos de lá de baixo, pode-se avançar muito”.

“Santa Catarina de Génova, mística italiana do século XV, representa o triunfo da mística no tema do Purgatório, através do seu Tratado do Purgatório. É uma das personagens da vida da Igreja que melhor compreende e expressa a realidade do Purgatório. Santa Catarina trouxe para a teologia uma enorme frescura acerca deste tema, com uma visão original sobre o mesmo. Primeiramente, Santa Catarina elabora uma analogia entre as almas do Purgatório e a experiência das almas que vivem na condição terrena, ou seja, durante a nossa condição de peregrinos também sofremos um processo de purificação, que poderíamos afirmar que se prolonga em alguns casos para além da morte”. Para esta mística as almas são felizes no Purgatório. Esta felicidade está ligada ao facto de as almas do Purgatório saberem que estão salvas, e que se preparam para ir ao encontro de Deus. “Não há felicidade comparável às almas no purgatório, a não ser a dos santos no céu, e tal felicidade cresce incessantemente por influência de Deus, à medida que os impedimentos vão desaparecendo”. Este processo de purificação é marcado pela dor e pelo sofrimento”.

As almas aceitam de bom grado o purgatório “com o fim de poder aceder a Deus quanto antes”, e “sofrem voluntariamente as suas penas que não desejariam o menor alívio, por conceberem quão justas são”. A chave da compreensão do Purgatório no pensamento de Santa Catarina de Génova é o amor: “O conceito de amor explica tanto a alegria como o sofrimento que se encontram juntos no purgatório: alegria porque existe certeza da união com Deus, sofrimento porque a união é atrasada”.

Nesta mesma linha, o Papa Bento XVI, na Encíclica Spes salvi, comentando o texto de S. Paulo 1Cor 3, 12-15, diz-nos: “Para alcançar a salvação, é preciso atravessar pessoalmente o «fogo» para se tornar definitivamente capaz de Deus e poder sentar-se à mesa do banquete nupcial eterno” (nº 46). E continua: “Alguns teólogos recentes são de parecer que o fogo que simultaneamente queima e salva é o próprio Cristo, o Juiz e Salvador. O encontro com Ele é o acto decisivo do Juízo. Ante o seu olhar, funde-se toda a falsidade. É o encontro com Ele que, queimando-nos, nos transforma e liberta para nos tornar verdadeiramente nós mesmos. As coisas edificadas durante a vida podem então revelar-se palha seca, pura fanfarronice e desmoronar-se”.

“Porém, na dor deste encontro, em que o impuro e o nocivo do nosso ser se tornam evidentes, está a salvação. O seu olhar, o toque do seu coração cura-nos através de uma transformação certamente dolorosa «como pelo fogo». Contudo, é uma dor feliz, em que o poder santo do seu amor nos penetra como chama, consentindo-nos no final sermos totalmente nós mesmos e, por isso mesmo totalmente de Deus”. E diz ainda: “A dor do amor torna-se a nossa salvação e a nossa alegria”.

“O «momento» transformador deste encontro escapa à cronometragem terrena: é tempo do coração, tempo da «passagem» à comunhão com Deus no Corpo de Cristo” (nº 47).

E pergunta-se: como pode “uma terceira pessoa” intervir nesta transformação? “Ao fazermos esta pergunta, deveremos dar-nos conta de que nenhum homem é uma mônada fechada em si mesma. As nossas vidas estão em profunda comunhão entre si; através de numerosas interacções, estão concatenadas uma com a outra. Ninguém vive só. Ninguém peca sozinho. Ninguém se salva sozinho”. “Continuamente entra na minha existência a vida dos outros: naquilo que penso, digo, faço e realizo. E, vice-versa, a minha vida entra na dos outros: tanto para o mal como para o bem. Deste modo, a minha intercessão pelo outro não é de forma alguma uma coisa que lhe é estranha, uma coisa exterior, nem mesmo após a morte” (nº 48).

Falando de S. Catarina de Genova, Bento XVI, em 2011, ressalta a novidade trazida pela genovesa na exposição que faz do Purgatório com enorme frescura e novidade.

Nesta mesma linha, também Yves Congar, teólogo do Concílio Vaticano II, afirma que “no Purgatório seremos todos místicos”. A etapa purificadora do crente é muito similar à vivência espiritual dos místicos. Os místicos, na sua profundidade e adesão a Deus, os seus itinerários são marcados por momentos dolorosos. Na experiência mística, o crente opera uma configuração com Cristo progressivamente, porém esta configuração exige do crente uma profunda saída de si mesmo, aceitando e acolhendo um amor maior que exige abertura do crente.

Este processo de abertura mística é pautado por momentos de enorme sofrimento espiritual, apelidados de “noites escuras”. Estas “noites” são reflexo da experiência purificante pós-mortal; são “noites” marcadas pela ausência de Deus. No entanto, depois da superação destas “noites” dolorosas, os místicos saem muito mais fortalecidos e comprometidos com o amor gracioso de Deus, experimentando uma enorme alegria espiritual. “Se purgatório é o termo de um longo processo de maturação e crescimento purificador, então ele já se inicia aqui na terra”.

Os teólogos são unânimes na confirmação do Purgatório como um processo de amadurecimento da santidade. No entanto, este processo de purificação não é operado de forma individual. O Purgatório enquadra-se numa dimensão comunitária eclesial, que a fé cristã expressa no conceito de comunhão dos santos. O Purgatório toca no âmago da existência cristã, ou seja, a fé vivida como experiência comunitária.

A dimensão comunitária do Purgatório brota em primeira instância da necessidade de comunicarmo-nos mutuamente, pois a vida cristã é “um contínuo processo de caminhar com o outro”. “A oração pelos defuntos é a expressão mais visível e efetiva da dimensão comunitária do Purgatório”. “A nossa oração intercede diante de Deus para acelerar o processo de purificação dos defuntos, fortalecendo os laços entre os membros da comunhão dos santos. No entanto, esta oração não é unilateral; não se trata simplesmente de os vivos que oram pelos defuntos, também as almas dos defuntos oram pelos vivos”. Yves Congar alerta para necessidade do Purgatório como momento de assumir e reparar os nossos pecados.

O Purgatório é uma assembleia litúrgica, um último ato penitencial na nossa vida. Os defuntos realizam esta experiência purificante em conjunto, uma assembleia convocada pelo Senhor, para uma integração na assembleia escatológica na pátria do amor trinitário. É, de facto, assim nos exprimimos no acto penitencial, no início da Eucaristia, acentuando esta dimensão comunitária: “Confesso a Deus todos poderoso e a vós irmãos que pequei muitas vezes … E peço à Virgem Maria, aos anjos e santos e a vós irmãos que roguei por a Deus nosso Senhor”.

Esta é a imagem renovada e purificada da identidade do Purgatório: um processo de amadurecimento na santidade, numa dinâmica comunitária.

 

Pe. Basileu Pires, MIC